Projeto em Brasília usa ciclismo para incluir deficientes visuais nas trilhas

Iniciativa promove autonomia e saúde para deficientes visuais por meio do ciclismo adaptado em Brasília.
Redação NC News
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No Jardim Botânico de Brasília, um grupo de ciclistas transforma quinzenas em dias de liberdade para pessoas com deficiência visual. O projeto DV na Trilha reúne voluntários e participantes para percorrer cerca de 12 km em bicicletas tandem, em que um condutor enxerga à frente e o ciclista com deficiência visual pedala atrás.

Liberdade sobre duas rodas

O encontro começa cedo, por volta das 9h de sábado. Antes da largada, o gramado se enche de capacetes coloridos, garrafas d’água e conversas animadas. Para quem não enxerga ou enxerga muito pouco, cada saída é mais que um passeio: é a chance de sentir vento no rosto, ouvir os pássaros e perceber o relevo da trilha pelo corpo, sem depender de bengala ou de corrimão.

Advogada e servidora da Defensoria Pública do Distrito Federal, Jéssica Pimenta, de 29 anos, é uma das participantes mais assíduas. Ela nasceu com retinose pigmentar, doença rara que degenerou sua retina. Hoje, tem apenas 8% de visão no olho direito e 5% no esquerdo. No pedal, essa limitação dá lugar a outra identidade: a de ciclista.

“Quando a gente tem alguma deficiência, recebe ajuda de muita gente. Mas é muito bom saber que também posso ajudar as famílias com o meu trabalho. Isso me faz sentir parte, me faz sentir útil”, diz Jéssica, acostumada a enfrentar audiências e prazos no dia a dia.

Na trilha, ela troca o ambiente fechado do fórum pelo cheiro de terra, trilhas estreitas e subidas que exigem fôlego. Cada buraco avistado pelo condutor vira aviso em voz alta. Cada curva, uma pequena conquista compartilhada.

Como funciona o DV na Trilha

O grupo se organiza de forma voluntária. Ao longo da semana, uma lista de presença circula em um grupo de mensagens. Quem quer pedalar confirma participação. No sábado, condutores e ciclistas são pareados de acordo com experiência, ritmo e disponibilidade.

As bicicletas são do tipo tandem, adaptadas para dois ciclistas. O condutor vai na frente, controla a direção, freia e descreve o caminho. A pessoa com deficiência visual pedala atrás, ajustando o ritmo às orientações que recebe. A comunicação é constante: cada galho baixo, cada pedra solta e cada descida mais íngreme vira conversa.

O técnico de informática Rui Costa, de 32 anos, é um dos voluntários que assumem o guidão. A camiseta que ele veste traz a palavra “Condutor” nas costas. A função exige mais que força nas pernas. É preciso paciência, atenção e capacidade de traduzir a trilha em palavras claras, no tempo certo.

Em uma das pedaladas, a repórter Ana Tominaga, do Jornal de Brasília, aceitou o convite para conduzir Jéssica. Acostumada à redação, ela sentiu na pele o esforço físico e emocional do percurso. “Eu, que havia tirado a poeira do meu tênis para fazer esta reportagem, senti o impacto da falta de exercícios regulares. Precisava parar, respirar e me recompor”, relata. O trecho de 12 km, sob o sol seco de Brasília, cobrou caro de quem não treina com frequência.

As duas seguiram em dupla, ajustando o pedal e a conversa. Entre subidas e pausas para água e paçoca, a jornalista descobriu o que é ser “os olhos” de alguém em movimento. Avisava sobre pedras, descrevia a vegetação, tentava escolher palavras que dessem conta de uma borboleta azul que cruzava o caminho.

Esporte, saúde e pertencimento

Os encontros quinzenais cumprem, na prática, a função de um programa de esporte e saúde pública, sem financiamento oficial. Cada saída mobiliza dezenas de pessoas, entre ciclistas com deficiência visual, voluntários, coordenadores e apoiadores que preparam lanche, revisam as bicicletas e cuidam da segurança nas trilhas.

O impacto vai além do condicionamento físico. Para participantes como Jéssica, o DV na Trilha é uma forma concreta de inclusão. “Inclusão é uma forma de trazer os deficientes visuais para uma atividade que não conseguiriam fazer sozinhos. Dependemos de outras pessoas, e o DV na Trilha inclui pessoas com deficiência visual nessa atividade física tão maravilhosa que é pedalar”, afirma.

A fala se encaixa em uma realidade dura. Pessoas com deficiência visual enfrentam falta de acessibilidade em calçadas, pontos de ônibus e repartições públicas. No cotidiano, trajetos simples se tornam desafios. A locomoção fora da “zona de conforto”, como casa e trabalho, exige ajuda constante de terceiros, boa vontade de desconhecidos e um ambiente urbano quase nunca pensado para quem não enxerga.

Na trilha, essa equação se inverte. O ambiente é controlado, as duplas são combinadas com antecedência e todos partem do mesmo ponto. O que define a experiência não é o obstáculo, mas a parceria. Voluntários aprendem a ouvir, respeitar limites e ajustar o ritmo. Pessoas com deficiência visual descobrem um espaço em que são protagonistas de sua própria aventura esportiva.

Modelo que inspira inclusão

O DV na Trilha nasce como uma iniciativa simples de ciclistas dispostos a “doar sensações” e hoje se consolida como referência em esporte adaptado no Distrito Federal. A cada encontro, o projeto mostra que acessibilidade também se constrói com criatividade, organização e tempo de voluntariado.

O formato interessa a mais de um setor. Para a área de esportes, prova que o ciclismo pode ser acessível com adaptações relativamente baratas, como bicicletas tandem e treinamento de condutores. Para a saúde pública, demonstra que atividade física regular melhora bem-estar, reduz sedentarismo e fortalece vínculos comunitários. Na frente de inclusão social, o grupo oferece um exemplo prático de como romper o isolamento de pessoas com deficiência visual.

Os organizadores trabalham para manter o calendário, cuidar da manutenção das bicicletas e ampliar o número de condutores. Quanto mais voluntários, maior a possibilidade de atender novos participantes e diminuir filas de espera informais. A visibilidade recente do projeto ajuda a atrair gente disposta a pedalar, doar equipamentos ou apoiar na logística.

O desafio agora é transformar essa energia em estrutura duradoura. Parcerias com empresas, universidades e órgãos públicos podem garantir mais bicicletas, formação contínua de condutores e transporte para participantes que moram longe do Jardim Botânico. A médio prazo, o modelo pode inspirar outras cidades a criarem grupos semelhantes, adaptando o formato a parques, ciclovias e estradas locais.

Enquanto esses movimentos amadurecem, o que sustenta o DV na Trilha é o encontro quinzenal. A cada novo sábado, alguém chega pela primeira vez, inseguro, e volta para casa com a memória fresca do vento no rosto e das curvas vencidas a duas vozes. Para muita gente, essa é a primeira vez que o ciclismo deixa de ser apenas uma imagem distante na televisão e se torna, literalmente, parte do próprio corpo.

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