O presidente Luiz Inácio Lula da Silva acumula declarações que tensionam a política externa brasileira e abrem crises com parceiros estratégicos, de vizinhos do Mercosul a Israel.
As frases, quase sempre improvisadas, rompem com o tom cauteloso que marca a diplomacia do Itamaraty e reposicionam o Brasil em temas sensíveis como guerras, ditaduras e acordos comerciais.
Guerra do Paraguai reacende ferida histórica e irrita Assunção
A mais recente controvérsia estoura a partir da Guerra do Paraguai. Em visita a uma fábrica de armamentos em Jacareí (SP), Lula disse que “o Paraguai decidiu invadir o Brasil”, ao narrar o conflito do século 19.
A frase simplifica um episódio traumático para o país vizinho e provoca reação imediata. Parlamentares paraguaios, historiadores e até integrantes da esquerda local acusam o presidente brasileiro de distorcer a história e de reforçar uma visão triunfalista da guerra.
O vice-presidente do Paraguai, Pedro Alliana, rebate publicamente a declaração e cobra a devolução do “Canhão El Cristiano”, peça de artilharia tomada como troféu na guerra e preservada no Brasil. O gesto transforma um debate histórico em questão concreta de patrimônio e memória nacional.
O chanceler paraguaio, Rubén Ramírez, convoca o embaixador brasileiro em Assunção, José Antonio Marcondes de Carvalho, para entregar uma nota formal de protesto nesta quinta-feira, 30 de julho de 2026. A convocação, um dos instrumentos mais duros da diplomacia de rotina, eleva o caso a crise oficial entre os governos.
Comparação com Holocausto rompe ponte com Israel
A tensão com Assunção se soma a outra crise aberta, de proporções inéditas, com Israel. Em fevereiro de 2024, durante cúpula da União Africana em Adis Abeba, Lula compara a ofensiva israelense na Faixa de Gaza ao extermínio de judeus pelo regime nazista. Diz que ação similar “só existiu quando Hitler resolveu matar os judeus”.
A analogia com o Holocausto é recebida em Israel como relativização de um trauma fundador da identidade nacional. O governo israelense declara Lula persona non grata, convoca o embaixador brasileiro para reprimenda e exige retratação formal.
O Brasil reage chamando seu embaixador em Tel Aviv para consultas, movimento que sinaliza forte desconforto. A relação bilateral, que envolve cooperação em tecnologia, defesa e comércio, entra em compasso de espera, com efeito direto sobre empresas e projetos em andamento.
Diplomatas avaliam que a crise desmonta, na prática, a pretensão brasileira de atuar como mediador entre Israel e palestinos, papel que o país reivindica em fóruns internacionais. A linguagem usada pelo presidente fecha canais que o Itamaraty tenta preservar há décadas.
Milei, Ucrânia, Venezuela e União Europeia entram na linha de fogo
No entorno regional, a retórica também complica pontes tradicionais. As trocas de farpas entre Lula e o presidente argentino Javier Milei racham a relação com o principal parceiro do Brasil no Mercosul. O desgaste político escorre para negociações econômicas e para a tentativa de concluir o acordo entre Mercosul e União Europeia.
Lula acusa países europeus de postura “colonialista” ao cobrarem cláusulas ambientais mais duras no tratado. O diagnóstico ecoa críticas de outros governos do Sul Global, mas o tom público provoca desconforto em Bruxelas e entre líderes europeus, que veem o Brasil se afastar do papel de negociador moderado.
Em relação à guerra na Ucrânia, o presidente brasileiro afirma em diferentes ocasiões que Volodymyr Zelensky seria “tão responsável quanto” Vladimir Putin pelo conflito e sustenta que Estados Unidos e Europa “incentivam” a guerra ao fornecer armas a Kiev. Em outra fala, sugere que os dois líderes estariam “gostando da guerra” por não buscarem um acordo.
As declarações irritam Kiev e geram críticas públicas da Casa Branca, que acusa o Brasil de repetir narrativas alinhadas a Rússia e China. Para o governo ucraniano, o país perde a chance de atuar como mediador ao adotar equivalência moral entre agressor e agredido.
Na América do Sul, a Venezuela é outro ponto de atrito. Ao receber Nicolás Maduro em Brasília, Lula classifica como “narrativa” a visão de que o país vive uma ditadura. A fala é contestada na hora por ex-presidentes como Luis Lacalle Pou, do Uruguai, e Gabriel Boric, do Chile, que lembram violações de direitos humanos documentadas por organismos internacionais.
A tentativa brasileira de recolocar Caracas no circuito regional acaba ofuscada pela polêmica. A aposta em relativizar o autoritarismo de Maduro alimenta a desconfiança de vizinhos e mina a pretensão do Brasil de liderar processos de integração baseados em cláusulas democráticas.
Improviso com direção: o cálculo por trás da retórica
Especialistas em política externa afastam a leitura de que se trata apenas de deslizes individuais. Para a analista Yolanda Tolentino, o improviso é o meio pelo qual uma estratégia é exposta sem filtros.
“Improviso e intenção não se excluem. Lula pensa falando e frequentemente abandona o texto preparado pelo Itamaraty. Mas, quando se observa o conjunto dos episódios, percebe-se que eles caminham sempre na mesma direção: aproximação com o Sul Global, desconfiança em relação às potências ocidentais e crítica à liderança dos Estados Unidos”, afirma.
O cientista político Elton Gomes, professor da Universidade Federal do Piauí, aponta mudança estrutural na forma como o Brasil se comporta no mundo. “A polarização política recente alterou a diplomacia brasileira ao introduzir uma retórica mais incisiva e polêmica, que rompe com a tradição histórica de pragmatismo e neutralidade do país”, diz.
Gomes destaca ainda o avanço da “presidencialização” da política externa. Posições que antes passavam por longa lapidação técnica e linguística no Itamaraty agora chegam ao público pela voz direta do presidente, em discursos transmitidos ao vivo e compartilhados em segundos nas redes.
Impacto prático: comércio, investimentos e imagem em risco
Os efeitos saem do terreno simbólico e atingem interesses materiais. A crise com Israel ameaça contratos em segurança, agronegócio e tecnologia. O atrito com o Paraguai ocorre em meio a negociações sensíveis sobre infraestrutura e energia, em um Mercosul que ainda tenta destravar o acordo com a União Europeia.
Empresas brasileiras que dependem de previsibilidade regulatória em países vizinhos veem com preocupação o clima de confronto político. Investidores estrangeiros acompanham cada frase presidencial como sinal de risco ou estabilidade futura, o que pode influenciar decisões de aporte em setores como energia, defesa e logística.
No plano da imagem, o Brasil se afasta do papel tradicional de interlocutor confiável, capaz de falar com todos os lados em conflitos internacionais. A opção por declarações duras contra potências ocidentais, sem o mesmo cuidado verbal em relação a aliados autoritários, alimenta a percepção de alinhamento seletivo.
A mesma estratégia, porém, rende apoio em segmentos do Sul Global, que veem em Lula uma voz disposta a confrontar Estados Unidos e Europa. A aposta do governo é que esse capital político compense, ao menos em parte, o desgaste junto a democracias ocidentais.
O Itamaraty se movimenta para conter danos, com notas oficiais, contatos reservados e ofertas de diálogo. A margem de manobra, porém, encolhe cada vez que o próprio presidente volta a improvisar em temas inflamáveis.
O próximo capítulo dessa disputa será escrito nos próximos meses, à medida que o Brasil tentar recompor pontes com Paraguai e Israel, retomar o fôlego nas conversas com a União Europeia e administrar o relacionamento com Milei. A continuidade desse estilo pode consolidar um novo perfil internacional para o país ou aprofundar o isolamento em frentes estratégicas.