O corpo da fotógrafa Ana Paula Silveira Cardoso, 29, é encontrado no Salto das Orquídeas, em Sapopema, após cinco dias de buscas que mobilizam bombeiros, policiais e moradores. A jovem desaparece durante uma trilha com a amiga Ana Carolyne Camilo, que sobrevive com fratura na coluna após ficar cerca de 18 horas sozinha na mata.
Travessia em rio cheio termina em tragédia
Ana Paula e Ana Carolyne deixam a pousada onde estavam hospedadas e decidem seguir sozinhas por uma trilha até um mirante do complexo de cachoeiras Salto das Orquídeas, na região norte do Paraná, a cerca de 300 km de Curitiba. Para chegar ao ponto desejado, as duas precisam atravessar o rio Lajeado Liso, que corta a área turística conhecida pelas corredeiras e quedas d’água.
As amigas usam cordas para fazer a travessia, numa espécie de tirolesa improvisada sobre o curso d’água. O nível do rio, porém, está cerca de 40 centímetros acima do normal, o que aumenta a força da correnteza e esconde pedras que costumam servir de apoio. As duas escorregam e caem na água. Ana Paula é arrastada e desaparece. A amiga consegue se agarrar a rochas que ainda não estão totalmente submersas.
Valdir Camilo, pai de Ana Carolyne, resume a luta da filha para sobreviver em meio à água forte e à mata fechada. “A jovem conseguiu se salvar porque se segurou em uma das pedras que não estavam submersas”, relata. Ela é levada pela correnteza até parar cerca de 500 metros do ponto da queda, onde permanece sozinha, machucada e sem comunicação, por aproximadamente 18 horas.
Buscas em área isolada e a descoberta pelo drone
O desaparecimento de Ana Paula aciona o Corpo de Bombeiros, equipes da Polícia Militar e voluntários da região. O Salto das Orquídeas, procurado para trilhas, camping e banhos de cachoeira, se transforma em base de operações. O acesso é difícil, com aclives íngremes, vegetação fechada e trechos escorregadios. A prioridade inicial é localizar a sobrevivente.
Ana Carolyne é encontrada por um funcionário do Salto das Orquídeas, que faz a checagem rotineira do nível do rio. Ele avista a jovem ferida às margens do Lajeado Liso. O resgate, com a ajuda de dois policiais militares, confirma a gravidade do acidente: ela tem fratura em uma das vértebras da coluna e precisa ser hospitalizada. A família informa que ela recebe alta dias depois, mas segue em recuperação.
A busca por Ana Paula continua por água, terra e ar. Equipes percorrem trilhas, examinam poços e fazem varreduras em pontos de redemoinho. A maior cachoeira do complexo, com 45 metros de altura, entra no radar como possível local de queda. O uso de tecnologia passa a ser decisivo. Um drone é acionado para sobrevoar áreas perigosas e poços profundos, onde o acesso humano é limitado.
O equipamento, operado pelo capitão Jackson Alexandre Machado, finalmente localiza o corpo por volta das 7h10 da manhã, no poço principal. Ana Paula está a 123 metros da base da cachoeira, próxima à área de maior volume de água. Machado descreve o cenário encontrado e a dificuldade do trabalho. “Ela possivelmente ficou ali, enroscada numa dessas pedras. E com a diminuição do fluxo da água, com o tempo que passou também, ela pode ter boiado um pouco e isso facilitou bastante a visualização dela hoje”, afirma.
Investigação busca esclarecer causa da morte
O corpo é retirado da água em uma operação que leva horas e encaminhado à Polícia Científica de Londrina. Peritos analisam se a morte ocorre por afogamento ou pelo impacto de uma queda de 45 metros. Marcas de trauma, tempo de submersão e condições do corpo podem ajudar a responder como, exatamente, a travessia termina de forma fatal.
O inquérito é conduzido pelo delegado Thiago Luiz dos Santos, da Polícia Civil. Ele planeja ouvir o dono da pousada onde as amigas estavam hospedadas, funcionários e turistas que circulam pela região no dia do acidente. O objetivo é reconstruir a sequência de decisões que levam as duas a enfrentar o rio em condições adversas, sem guia ou apoio técnico. O delegado afirma que pretende conversar com todas as testemunhas antes de fechar o caso. “Só então irá concluir o inquérito”, diz.
Oficiais do Corpo de Bombeiros, como o major Renan Bortolassi e o coronel Rafael Lorenzetto, que acompanham as buscas desde o início, também colaboram com informações sobre o cenário encontrado na cachoeira, a força da correnteza e o comportamento do rio Lajeado Liso no período.
Pressão por mais segurança no Salto das Orquídeas
A morte de Ana Paula reabre o debate sobre segurança em destinos de ecoturismo na região de Sapopema. O Salto das Orquídeas, conhecido pelas cachoeiras fotogênicas, trilhas e áreas de camping, costuma atrair visitantes em busca de contato intenso com a natureza, banhos em poços profundos e imagens do conjunto de quedas. A grande exposição nas redes, com fotos e vídeos, impulsiona o fluxo de turistas, mas também aumenta a pressão sobre a infraestrutura local.
Visitantes relatam que, em dias de maior movimento, o controle de acesso ao rio e às trilhas é limitado. Informações como nível do rio, pontos de risco, necessidade de equipamentos de segurança e restrições a travessias nem sempre chegam de forma clara. A pergunta que se impõe é se a travessia que as duas jovens tentam realizar deveria estar liberada, principalmente com o Lajeado Liso 40 centímetros acima do normal.
A tragédia atinge diretamente o turismo da região, que depende de atrações como o Salto das Orquídeas para movimentar pousadas, restaurantes, pizzarias e pequenos comércios voltados a campistas e excursionistas. Empresários temem queda no número de visitantes após a repercussão, mas reconhecem que a confiança do público só se sustenta com regras claras e fiscalização efetiva.
Especialistas em montanhismo e turismo de aventura defendem, em conversas com autoridades locais, um reforço imediato na sinalização de trilhas, definição de áreas apropriadas para banho, obrigatoriedade de guias em rotas mais complexas e protocolos rígidos de interdição quando o nível do rio sobe. A experiência mostra que travessias em corredeiras e proximidade de cachoeiras exigem equipamentos específicos e treinamento prévio, mesmo para praticantes com boa condição física.
Tecnologia, luto e o que pode mudar daqui para frente
O caso também escancara a importância do uso de tecnologia em operações de busca e salvamento em áreas remotas. Sem o drone operado pelo capitão Machado, o corpo de Ana Paula provavelmente demoraria mais a ser localizado, ampliando o sofrimento da família e dos amigos. O sucesso da ferramenta fortalece a defesa, dentro do Corpo de Bombeiros, por mais recursos desse tipo, além de capacitação contínua para operar equipamentos em ambientes hostis.
A comunidade de Londrina, cidade onde Ana Paula morava e trabalhava como fotógrafa, se mobiliza em vigílias e mensagens de despedida nas redes sociais. Amigos destacam a rotina saudável da jovem, ligada a atividades físicas como circo e escalada, e o entusiasmo dela com viagens para registrar paisagens naturais. O choque é maior justamente porque a vítima se mostra acostumada a esportes e ambientes de aventura.
Em Sapopema, o clima é de luto e cobrança. Moradores discutem, em grupos locais, a necessidade de regras mais duras para travessias e de avisos ostensivos sobre volume de água e riscos nas cachoeiras. Autoridades municipais estudam medidas para ampliar o controle de acesso, estabelecer protocolos claros em dias de chuva e intensificar a orientação a quem chega perguntando onde fica o Salto das Orquídeas, quanto se paga para entrar e quais são os trechos mais seguros.
O inquérito da Polícia Civil e o laudo da Polícia Científica devem definir responsabilidades e causas exatas da morte. A partir dessas conclusões, o governo estadual e o município tendem a ser pressionados a rever normas para atividades de aventura no complexo, que reúne trilhas, áreas de camping, poços para banho e mirantes. A expectativa de quem vive do turismo é que, passado o impacto imediato, a tragédia se traduza em investimentos em segurança, informação e estrutura — para que o apelo das imagens do Salto das Orquídeas deixe de conviver com o risco silencioso que hoje vem à tona de forma brutal.
Onde fica o Salto das Orquídeas?
O Salto das Orquídeas fica em Sapopema, no norte do Paraná, em área de mata cortada pelo rio Lajeado Liso, a cerca de 300 km de Curitiba.
Precisa pagar para entrar no Salto das Orquídeas?
O acesso costuma ser controlado por propriedades privadas na região, que podem cobrar ingresso ou taxa de visitação. Valores e regras variam conforme o local.
O que muda na segurança depois desse acidente?
O caso pressiona autoridades e empresários a reforçar sinalização, restringir travessias em rios cheios, exigir guias em trilhas de risco e ampliar o uso de tecnologia em resgates.