Promotores federais dos Estados Unidos concluem que os danos no espelho d’água do Memorial Lincoln, em Washington, resultam de uma obra malfeita, e não de vandalismo. A mudança de versão leva a procuradora federal Jeanine Pirro a pedir a retirada da acusação criminal contra o ex-canoísta olímpico David Hearn, antes apontado como responsável por destruir o revestimento azul da piscina.
Obra de US$ 14,7 milhões entra em xeque
A revelação desmonta o discurso sustentado até agora pelo governo Donald Trump, que atribuía o descascamento do revestimento a vândalos. O caso ganha peso político e jurídico porque envolve um cartão-postal da capital americana, um contrato sem licitação de US$ 14,7 milhões (cerca de R$ 75 milhões) e uma acusação que poderia levar Hearn a até 10 anos de prisão.
De acordo com a moção apresentada ao tribunal, o novo revestimento azul começou a se soltar apenas dois dias depois da conclusão da obra. O espelho d’água permanece esvaziado e cercado para inspeção e reparos, com reabertura prevista somente após 10 de agosto, o que afeta diretamente o fluxo de turistas e a imagem de um dos marcos mais visitados de Washington.
Jeanine Pirro afirma que os promotores foram induzidos ao erro pelo Departamento do Interior, responsável pelo Memorial Lincoln. Segundo a procuradora, a pasta omitiu que o problema já aparecia logo após a entrega da obra e insistiu que “quase todos os danos” foram causados por vândalos.
Contradição pública com Trump e pressão política
A mesma procuradora que agora recua havia se alinhado ao discurso da Casa Branca. Em entrevista anterior, Pirro ecoou a versão de Trump, afirmando ter “provas tremendas” contra Hearn e sustentando a acusação de destruição de patrimônio público. Hoje, ela admite que “o dano foi resultado de uma instalação malfeita, não de vandalismo”.
Em documento enviado ao Judiciário, Pirro detalha a mudança de avaliação e escreve que, “diante de todas essas informações recém-descobertas, é difícil atribuir os danos generalizados ao espelho d’água a vandalismo”. A frase contrasta diretamente com declarações do governo. Em julho, a porta-voz do Departamento do Interior, Katie Martin, exaltou a obra ao afirmar que “o presidente Donald Trump é um construtor experiente que consertou o espelho d’água permanentemente antes que pessoas perturbadas o vandalizassem”.
O novo relato da promotoria descreve uma cena incompatível com a ideia de um único ato de vandalismo. Em visita técnica à área, procuradores teriam observado falhas no revestimento em pontos distantes da borda, onde Hearn foi visto. A partir daí, exigiram mais informações do Departamento do Interior, que acabou reconhecendo que os problemas surgiram ainda durante a reforma.
Empreiteira responsabilizada e falhas na fiscalização
No centro da polêmica está a Atlantic Industrial Coatings, empresa contratada sem licitação para executar o projeto. A promotoria atribui à empreiteira uma “instalação falha” do revestimento e aponta a pressa para entregar a piscina antes das celebrações do America 250, em 4 de julho, como fator decisivo para o resultado frágil.
O contrato sem concorrência, somado ao histórico limitado da empresa em obras federais desse porte, alimenta suspeitas sobre critérios técnicos e eventuais interferências políticas. O Departamento do Interior não comenta o documento da promotoria e não informa se abriu investigação interna para apurar quem decidiu ignorar os sinais precoces de falha na obra.
A Atlantic Industrial Coatings, que no passado havia minimizado o problema e o descrito como restrito a “uma parte muito pequena” do espelho d’água, agora aparece formalmente responsabilizada pela promotoria. A empresa pode enfrentar ações civis de ressarcimento e até processos criminais, caso se comprove negligência grave ou fraude na execução do contrato.
Injustiça contra Hearn e efeito dominó judicial
David Hearn, que se declara inocente desde o início, vê sua situação mudar radicalmente. A acusação que o colocava diante da possibilidade de 10 anos de cadeia tende a ser arquivada, e o julgamento marcado para 28 de setembro provavelmente deixa de existir. Os advogados do ex-atleta chamam o caso de “abuso de poder governamental” e afirmam que o governo “atirou primeiro e perguntou depois”.
Hearn era o único réu enquadrado em crime grave entre os investigados no episódio do espelho d’água. Outras pessoas continuam respondendo por contravenções de vandalismo, em geral ligadas a danos avaliados em menos de US$ 1.000. A reviravolta técnica sobre a origem dos problemas abre espaço para que essas acusações também sejam revistas, uma vez que a maior parte dos danos agora é atribuída à má execução da obra.
O recuo da própria acusação alimenta críticas ao sistema de justiça e à forma como órgãos federais se deixaram guiar pela versão conveniente ao governo. A decisão de Pirro, embora corrija o rumo em relação a Hearn, expõe o risco de se criminalizar cidadãos com base em informações incompletas ou distorcidas para sustentar narrativas políticas.
Credibilidade em xeque e debate sobre contratos públicos
O caso atinge em cheio a credibilidade do Departamento do Interior, responsável pela preservação de monumentos nacionais. A suspeita de encobrimento de falhas técnicas para proteger a imagem da administração Trump coloca em dúvida a transparência na gestão de patrimônios históricos. A manutenção suspensa do espelho d’água, ícone das fotos do Memorial Lincoln, simboliza esse desgaste.
Para o setor de construção e restauração pública, o episódio funciona como alerta. Contratos emergenciais e sem licitação, como o de US$ 14,7 milhões com a Atlantic Industrial Coatings, passam a enfrentar maior escrutínio de tribunais de contas, parlamentares e organizações civis. A pressa em entregar obras em datas simbólicas, como o 4 de julho, mostra-se incompatível com a exigência de soluções técnicas duradouras.
As próximas semanas devem ser marcadas por pressões por investigações internas, eventuais audiências no Congresso americano e discussões sobre mudanças nas regras de contratação de obras em patrimônios históricos. A reabertura do espelho d’água, prevista para depois de 10 de agosto, pode devolver o cartão-postal ao público, mas dificilmente apagará as marcas políticas e judiciais deixadas pela obra malfeita e pela acusação injusta contra David Hearn.