A Operação Replay atinge em cheio o núcleo financeiro do Comando Vermelho em três estados e bloqueia R$ 38 milhões em bens ligados à facção. A ofensiva ocorre em meio à escalada de violência entre grupos rivais, com prisões por planejamento de execuções e ataque com drones no Rio de Janeiro.
Golpe no caixa da facção e prisão de nomes estratégicos
A Delegacia Especializada de Repressão ao Crime Organizado (Draco) investiga 15 suspeitos de integrar a engrenagem financeira do Comando Vermelho em Mato Grosso, Santa Catarina e Rio de Janeiro. A operação cumpre três mandados de prisão e dezenas de buscas, mirando quem movimenta o dinheiro, lava recursos e oculta patrimônio da facção.
No topo da lista está Paulo Witer Farias Paelo, o “W.T.”, apontado pela Polícia Civil como tesoureiro do grupo. Mesmo já preso na Penitenciária Central do Estado, ele continua, segundo a investigação, a comandar parte das operações, valendo-se de celulares dentro da unidade. “W.T. continuava comandando parte das operações mesmo preso, utilizando aparelhos celulares dentro da PCE para manter contato e repassar ordens”, afirma a corporação.
A peça-chave fora dos muros é Katani Adorno Bocardi, esposa do traficante Emerson Ferreira Lima, o “Gordão”. Ela é presa ao desembarcar no Aeroporto Marechal Rondon, em Várzea Grande, depois de uma viagem a Paris. Monitorada desde a chegada ao país, Katani é considerada braço direito financeiro de W.T. “Katani exercia um papel estratégico na movimentação financeira investigada e atuava ao lado de Paulo Witer Farias Paelo, o ‘W.T.’, apontado pela Polícia Civil como o tesoureiro da organização criminosa”, diz o delegado Vitor Hugo Caetano.
Imóveis de luxo, advogada e jogadores de futebol no esquema
A Justiça determina o bloqueio de aproximadamente R$ 38 milhões, somando cerca de R$ 20 milhões em imóveis e veículos de luxo e R$ 18 milhões em ativos financeiros. Entre os bens, há casas de alto padrão em Santa Catarina e carros de valor elevado usados para dar aparência de prosperidade lícita a líderes da facção.
A rede financeira inclui perfis improváveis. A advogada Dayane Karol Moreira da Silva é presa sob acusação de regularizar documentos de imóveis em nome de laranjas, conferindo fachada legal ao patrimônio do grupo. Jogadores de futebol amador, como Alex Júnior Santos de Alencar, o “Soldado”, e Brunno Passos da Silva, o “Brunninho”, aparecem como operadores externos, responsáveis por cumprir determinações de W.T. e movimentar recursos.
Ao todo, 15 pessoas são apontadas como peças da estrutura financeira. Além de W.T., Katani, Dayane, Soldado e Brunninho, a lista inclui Emerson Ferreira Lima, o “Gordão” ou “GD”; Wellen de Amorim Gomes; Aldemir de Assis Campos, o “Tucão”; Giselly Breier Streck; Thawany Nunes Silva de Bulhões, esposa de W.T.; Jhonatan Alves Ventura; Paulo Vinicius Gabriel de Araújo; Wires Alves Guerra; Nagilda Cândida Ferreira Lima; e Fernando Wagner Moraes Amorim.
Planejamento de execuções em MS expõe guerra com o PCC
Enquanto o núcleo financeiro sofre um baque, o braço armado do Comando Vermelho se movimenta em Mato Grosso do Sul. Em Campo Grande, dois adultos com histórico de tráfico de drogas, Luiz Felipe Silva Carvalho Dias, de 18 anos, e Thiago Rogério Santos de Oliveira, de 23, são presos por supostamente planejar a execução de três rivais ligados ao Primeiro Comando da Capital (PCC) no Bairro Noroeste.
A ação da Rotac, tropa tática da Polícia Militar, apreende dois revólveres, dezenas de munições, 932 gramas de maconha, celulares, uma balança de precisão e uma motocicleta que seria usada no crime. Dois adolescentes de 17 anos também são detidos. Conforme o boletim de ocorrência, os quatro confessam integrar o Comando Vermelho. “Os dois confessaram integrar o Comando Vermelho e disseram que aguardavam autorização da liderança da facção para executar três moradores do Bairro Noroeste apontados como integrantes do PCC”, registra o documento.
O prontuário de Luiz Felipe mostra pelo menos oito registros na Justiça, desde a adolescência, por atos semelhantes a roubo, tráfico, lesão corporal e dano, com medidas de internação já cumpridas. Thiago acumula duas condenações por tráfico em Alagoas, com penas em regime aberto. A dupla volta agora para trás das grades sob suspeita de atuar como ponta de lança da facção na disputa territorial com o PCC.
Ataque com drones no Rio eleva patamar da violência
No Rio de Janeiro, a mesma guerra entre facções assume contornos tecnológicos. No Complexo da Penha, zona norte, o Terceiro Comando Puro (TCP) lança granadas por drones contra uma área dominada pelo Comando Vermelho. O alvo é uma festa na casa onde estaria o traficante conhecido como “BX” ou “Buchecha”, chefe do Corte 8 da facção.
Os explosivos atingem a piscina da residência e espalham pânico na região, símbolo de uma nova etapa da disputa pelo controle de comunidades e pontos de venda de drogas. O uso de drones, até aqui associado a vigilância e transporte de pequenas cargas, se consolida como ferramenta de ataque, dificultando a reação imediata das forças de segurança e expondo moradores a um risco inédito.
A ofensiva do TCP mostra que a pressão sobre o Comando Vermelho não se limita às investigações financeiras. A facção sofre ataques simultâneos no caixa, nas ruas de Campo Grande e nas favelas do Rio, numa engrenagem em que cada golpe policial ou acerto de contas pode gerar reações em cadeia.
Impacto real e próximos passos na guerra entre facções
O bloqueio de R$ 38 milhões atinge diretamente a capacidade do Comando Vermelho de financiar tráfico, comprar armas, pagar comparsas e cooptar novos integrantes. Setores usados para lavar dinheiro, como mercado imobiliário e parte do sistema financeiro, entram no radar com mais força, pressionando cartórios, bancos e intermediários a reforçar controles.
A prisão de operadores qualificados, como o tesoureiro W.T., sua aliada Katani e a advogada Dayane, desarticula temporariamente a engrenagem de lavagem e ocultação de patrimônio. Investigações anteriores mostraram que, mesmo após fases sucessivas de operações, a facção consegue se recompor. A dúvida agora é por quanto tempo o núcleo financeiro permanece fragilizado antes de tentar se reorganizar em torno de novos nomes ou laranjas.
No front da segurança pública, a combinação de planos de execução em Mato Grosso do Sul e ataques aéreos no Rio aponta para uma escalada, não para um recuo. Comando Vermelho e PCC seguem como rivais diretos em várias regiões do país, enquanto o TCP disputa espaço no Rio, formando um tabuleiro de alianças momentâneas e confrontos permanentes.
Autoridades de segurança projetam novas fases de operações, focadas em rastrear fluxos financeiros, capturar integrantes foragidos e conter a circulação de armas pesadas. A expectativa é de um efeito dominó, com possíveis delações e abertura de novas frentes de investigação. A população, entretanto, continua na linha de tiro dessa guerra, sujeita a confrontos em áreas urbanas densas e a tecnologias de ataque cada vez mais sofisticadas, como os drones armados. O desafio imediato do Estado é transformar operações pontuais em política contínua de estrangulamento financeiro e territorial das facções.
Quem são os 15 alvos da operação contra o núcleo financeiro do Comando Vermelho em MT?
Os 15 alvos da Operação Replay são Paulo Witer Farias Paelo, o “W.T.”; Emerson Ferreira Lima, o “Gordão”; Alex Júnior Santos de Alencar, o “Soldado”; Wellen de Amorim Gomes; Aldemir de Assis Campos, o “Tucão”; Giselly Breier Streck; Katani Adorno Bocardi; Thawany Nunes Silva de Bulhões; Dayane Karol Moreira da Silva; Jhonatan Alves Ventura; Brunno Passos da Silva, o “Brunninho”; Paulo Vinicius Gabriel de Araújo; Wires Alves Guerra; Nagilda Cândida Ferreira Lima; e Fernando Wagner Moraes Amorim.
Qual o histórico criminal dos membros do Comando Vermelho presos em MS?
O histórico criminal em Mato Grosso do Sul mostra que Luiz Felipe Silva Carvalho Dias, de 18 anos, acumula pelo menos oito registros na Justiça desde a adolescência por atos análogos a roubo, tráfico e lesão, enquanto Thiago Rogério Santos de Oliveira, de 23, já é condenado duas vezes por tráfico de drogas pela Justiça de Alagoas.
O que aconteceu no ataque de drone que atingiu a piscina de um chefão do Comando Vermelho?
O ataque de drone no Complexo da Penha, no Rio de Janeiro, ocorre quando o Terceiro Comando Puro lança granadas de uso restrito sobre uma casa com piscina onde estaria o traficante “BX” ou “Buchecha”, chefe do Corte 8 do Comando Vermelho, espalhando pânico e marcando a adoção de bombardeios aéreos em disputas entre facções.
O Comando Vermelho e o PCC são rivais?
O Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital são rivais históricos e hoje disputam territórios, rotas do tráfico e pontos de venda em vários estados, o que se reflete em planos de execução como os descobertos em Campo Grande e em uma série de confrontos armados que elevam os índices de violência urbana no país.
Quais são as principais facções do Rio de Janeiro envolvidas em conflitos recentes?
As principais facções envolvidas nos conflitos recentes no Rio de Janeiro são o Comando Vermelho, que domina grandes complexos de favelas como a Penha, e o Terceiro Comando Puro, que disputa territórios estratégicos, protagonizando episódios como o ataque com drones, além da presença de milícias armadas que agravam ainda mais a fragmentação do controle territorial.