Inglaterra, País de Gales, Sérvia e Suécia retiram hoje o apoio à reeleição de Gianni Infantino na presidência da Fifa, abrindo uma crise política no comando do futebol mundial. O movimento atinge o dirigente em pleno esforço para emplacar mais um mandato, previsto para o ciclo de 2027 a 2031.
Ruptura após fracasso do plano bilionário
A rebelião ganha força poucos dias depois de a Fifa abandonar o projeto FIFA Forward Enterprise (FFE), que previa entregar à iniciativa privada parte da gestão comercial das principais competições, incluindo o Mundial de Seleções. A proposta naufraga sob críticas de falta de transparência e de concentração de poder.
O plano desenhado pela cúpula da entidade pretendia criar uma subsidiária para administrar direitos comerciais, com venda de “20% a 30% do novo braço comercial a investidores privados”. A operação projetada “pretendia captar US$ 4,2 bilhões (R$ 21,5 bilhões) no mercado” para turbinar repasses às 211 federações nacionais, por meio do programa batizado de Fifa Fast-Forward (FFFP).
Dirigentes europeus e de outros continentes reagiram ao que viram como privatização de receitas estratégicas do futebol, sem debate adequado. Liderada pela Uefa, a oposição global pressiona até a retirada formal do projeto. A entidade europeia pede preservação de documentos da proposta e estuda medidas legais contra a Fifa, sinal de que o conflito pode migrar também para os tribunais.
Críticas diretas à governança e à liderança
A Federação Inglesa (FA) funciona como espécie de gatilho político da crise. Antes mesmo de anunciar a quebra com Infantino, a entidade já exigia, em comunicado divulgado no fim de semana, “uma revisão completa e robusta da liderança e da governança da Fifa para garantir que o futebol mundial seja administrado com transparência”. O texto escancara a perda de confiança num presidente que ocupa o cargo desde 26 de fevereiro de 2016.
A Federação de País de Gales (FAW) dá um passo além e personaliza o desgaste. Acusa Infantino de “não colocar os interesses do futebol em primeiro lugar”, classificando essa postura como “uma falha inaceitável do cartola ítalo-suíço”. Em nota dura, a entidade lista “falhas na boa governança, nos processos, na liderança, nos valores, na gestão das partes interessadas, na comunicação e no bom senso”. O diagnóstico leva a federação a afirmar que o presidente “perdeu a confiança da FAW para permanecer no comando do futebol mundial”.
A Federação Sérvia de Futebol também rompe, alegando ter feito uma “análise cuidadosa dos eventos” recentes que, na sua visão, comprometem a imagem da Fifa. O comunicado defende que “nenhuma decisão de importância estratégica para o futuro do futebol deve ser tomada sem um amplo consenso e consultas abertas com todos os atores relevantes”. A frase mira diretamente a forma como o projeto FFE foi costurado.
Suécia fecha o bloco e expõe desgaste prolongado
Na Escandinávia, a Federação Sueca completa o bloco de dissidentes e transforma a insatisfação em contestação pública. O presidente da entidade, Simon Astrom, afirma que a federação “não tem mais confiança na liderança de Infantino”. Diz que a decisão se baseia na avaliação de “acontecimentos dentro da Fifa ao longo de um período mais extenso” e relata “deficiências recorrentes em termos de governança, transparência e gestão”.
As quatro federações integram um universo de 211 entidades nacionais filiadas à Fifa, mas carregam peso esportivo e simbólico, sobretudo Inglaterra e Suécia, ativas em debates sobre integridade e modernização do futebol. O recado atinge patrocinadores, investidores e torcedores, que passam a enxergar a eleição como plebiscito sobre o modelo de gestão de Infantino, e não apenas como disputa de bastidores.
O presidente da Fifa, por ora, evita confronto aberto com as dissidências e tenta segurar apoios em outras regiões. Seu capital eleitoral se ancora principalmente em federações que dependem fortemente de repasses e programas de desenvolvimento financiados pelo caixa central da entidade. Esse equilíbrio, porém, fica mais frágil à medida que a contestação ganha rostos e frases duras na Europa.
Disputa por dinheiro e poder no futebol mundial
A crise em torno do FFE escancara uma disputa clássica entre controle político das federações e apetite de investidores privados pelas receitas do futebol global. O projeto previa que uma parte relevante do futuro faturamento com direitos de mídia, patrocínios e licenciamento passaria a um veículo com participação acionária do mercado, o que reduziria a influência direta das associações nacionais sobre a divisão desse bolo.
Com a retirada do plano, as federações preservam o modelo tradicional de comando sobre as receitas, ainda que sob um estatuto de governança já bastante contestado. O recuo não encerra a discussão sobre financiamento, mas reabre a mesa de negociação. A partir de agora, propostas de captação bilionária precisarão vir acompanhadas de garantias mais firmes de transparência, prestação de contas e controle interno.
O Mundial de Seleções e outros campeonatos de grande audiência entram nesse debate. Qualquer mudança na gestão comercial dessas competições afeta contratos de TV, acordos de patrocínio e investimentos em infraestrutura. A incerteza política pode atrasar decisões estratégicas e incomodar parceiros comerciais, que buscam previsibilidade em ciclos longos.
Em campo, o torcedor dificilmente percebe efeitos imediatos. No médio prazo, porém, o resultado da eleição e a forma como a Fifa redesenha sua governança vão dizer quanto dinheiro chega às bases do futebol e quem decide prioridades. A queda de braço entre Infantino e parte da Europa também abre espaço para candidaturas alternativas e coalizões improváveis, inclusive fora do eixo tradicional que domina a entidade há décadas.
O próximo passo é a formalização das chapas e a definição do calendário eleitoral interno. Federações insatisfeitas pressionam por regras mais rígidas de transparência e por um debate público sobre qualquer novo plano de comercialização global. Sem recompor a confiança de atores-chave, a cúpula da Fifa corre o risco de levar para o próximo ciclo um presidente enfraquecido ou de assistir a uma mudança de comando em meio a desconfiança generalizada.