A Lojas Renner (LREN3) reduz a projeção de crescimento da receita de varejo para 4% a 8% neste ano, mas anuncia um plano agressivo de expansão física para acelerar as vendas no segundo semestre. O diretor financeiro, Daniel Martins, fala em manutenção de margens saudáveis, geração de caixa robusta e cautela na concessão de crédito.
Renner corta projeção, mas promete aceleração
A decisão vem após um segundo trimestre fraco, pressionado pelo Mundial de Seleções e por um cenário macroeconômico mais duro, com juros altos e consumo em desaceleração. A companhia revisa a expectativa de alta da receita líquida de varejo de 9%-13% para 4%-8%, depois de crescer apenas 1,1% no trimestre, para R$ 3,689 bilhões.
O movimento indica um realismo maior sobre a capacidade de consumo das famílias, mas também um compromisso em entregar um desempenho melhor do que o registrado até agora. No acumulado do primeiro semestre, a receita de varejo avança 2,5%, enquanto as vendas em mesmas lojas sobem só 0,5% no segundo trimestre, mostrando um consumidor seletivo e mais cauteloso.
Martins reconhece o tropeço recente, mas tenta virar a página. “Você retoma um crescimento maior do que teve no primeiro semestre, no segundo trimestre”, afirma, projetando uma curva mais inclinada de vendas daqui para frente, apoiada em expansão de lojas, reinaugurações e base de comparação mais fraca.
Plano de expansão: até 60 novas lojas no ano
Para reaquecer as vendas, a Renner aposta no velho varejo de tijolo e concreto. Depois de abrir 16 unidades no primeiro semestre — 3 Renner, 3 Camicado e 10 Youcom — a empresa mantém a meta de inaugurar de 50 a 60 lojas no ano. O plano inclui 22 a 30 novas Renner, 23 a 25 Youcom e cerca de 5 Camicado.
A estratégia mira maior presença em grandes centros urbanos como São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre, além de reforço em shoppings de alto fluxo. A companhia também acelera um programa de reformas de lojas consideradas estratégicas, apostando em layout mais moderno, integração com canais digitais e experiência de compra mais fluida.
Entre as reformas, sete unidades relevantes da marca Renner passam por renovação, com cinco já reabertas e duas previstas para reinauguração em breve, em endereços como Shopping Eldorado, em São Paulo, e Tijuca, no Rio. Youcom e Camicado também recebem investimentos, com reformas em shoppings como Iguatemi Porto Alegre e Morumbi, na capital paulista.
Margens perto de recorde e estoque sob controle
O avanço físico não vem acompanhado de uma guerra de preços. Martins repete que a companhia não pretende trocar rentabilidade por volume. “Para o segundo semestre, vamos contar com uma margem relativamente estável e saudável”, diz. A margem bruta de varejo no segundo trimestre atinge 57,5%, levemente acima dos 57,1% de um ano antes, patamar próximo de recordes históricos.
O estoque cresce 6,5% no período, mas a gestão agrada ao comando financeiro: a participação de itens com mais de 16 semanas de prateleira cai 11,9% em relação ao ano anterior, sinal de que a coleção gira melhor e a empresa evita encalhe pesado. O cuidado com o mix é crucial num ambiente de renda comprimida e competição acirrada, em que promoções agressivas podem destruir margens rapidamente.
O caixa livre, porém, sente o choque da combinação de vendas fracas e estoques mais altos. O fluxo de caixa livre recua para R$ 135,1 milhões no segundo trimestre, ante R$ 333,1 milhões um ano antes. Ainda assim, a Renner encerra o período com R$ 1,9 bilhão em caixa e posição de caixa líquido de R$ 1,2 bilhão, o que permite manter investimentos, dividendos e recompra de ações.
Crédito segue travado e recompra continua
O crédito ao consumidor, um dos motores tradicionais das varejistas, continua sob freio de mão puxado. Com juros elevados, incerteza fiscal, inflação persistente e cenário externo volátil, a empresa evita abrir demais a torneira para não inflar a inadimplência. “A Lojas Renner segue cautelosa, aguardando o momento que possa eventualmente fazer uma originação a um perfil de risco maior”, afirma Martins.
Por ora, as perdas com crédito representam 4,5% da carteira média, alta de 0,4 ponto percentual no trimestre, mas ainda sob controle, segundo o executivo. “Não temos nenhum problema na carteira em relação à inadimplência”, argumenta, reforçando que a expansão da base de clientes financiados só deve ganhar fôlego quando o ambiente macro mostrar melhora mais clara.
Mesmo com a pressão de curto prazo, a política de remuneração ao acionista permanece intocada. “Nós vamos seguir o nosso plano de recompra normalmente. Nós vamos seguir fazendo os pagamentos de JCP no limite que a legislação nos permite, tal como fizemos nos últimos trinta anos dessa companhia. Nada muda”, diz Martins. “A Lojas Renner é uma forte geradora de caixa no segundo semestre e continuará sendo assim.”
Impactos no varejo e próximos passos
A ofensiva física da Renner beneficia uma cadeia ampla de fornecedores, construtoras, empresas de logística e serviços de reforma. A abertura e modernização de dezenas de lojas movimenta desde fabricantes de vestuário e casa & decoração até prestadores de tecnologia e facilities, especialmente nas capitais em que a marca já é forte.
O setor, porém, continua sob teste. O Mundial de Seleções, que tradicionalmente desloca o consumo para bares, eletrônicos e produtos ligados ao torneio, derruba o fluxo em lojas de moda com mais força do que o esperado. A empresa admite que até julho ainda sente esse efeito, o que ajuda a explicar o corte nas projeções para o ano.
A aposta, agora, é que o fim do torneio, a base de comparação mais fraca na segunda metade do ano e o reforço da malha de lojas criem um terreno mais favorável para a retomada. Se a expansão e as reformas entregarem o retorno prometido, a Renner tende a reforçar sua posição entre os grandes do varejo de moda brasileiro. Se os juros seguirem altos e o consumo não reagir, o plano pode resultar em crescimento mais lento do que o desejado, mesmo com margens protegidas.
Os próximos trimestres mostram se o equilíbrio entre prudência no crédito, disciplina de margem e ousadia na expansão basta para devolver à LREN3 o brilho que muitos investidores buscam ao olhar a ação nas telas de plataformas como TradingView, Fundamentus e Status Invest.