A privatização da Sabesp colocou Fernando Haddad (PT) e Tarcísio de Freitas (Republicanos) em lados opostos durante o primeiro debate entre os candidatos ao Governo de São Paulo, neste domingo (09). O confronto sobre a companhia abriu uma discussão que vai muito além da venda da empresa: tarifas, investimentos, expansão do saneamento e o papel da iniciativa privada na prestação de serviços públicos.
Tarcísio defendeu a privatização da Sabesp e utilizou obras e investimentos realizados durante sua gestão para sustentar a decisão. Haddad, por outro lado, questionou os resultados da desestatização e colocou as tarifas cobradas dos consumidores no centro da discussão.
O que Tarcísio defendeu sobre a Sabesp?
Durante o debate, Tarcísio afirmou que a privatização da Sabesp foi necessária diante do risco de perda de contratos considerados importantes para a companhia.
O candidato citou municípios como Osasco, São José dos Campos e São Paulo para questionar quais seriam as consequências para a empresa caso esses contratos não fossem mantidos.
“A Sabesp ia perder contratos relevantes. O que a gente faria sem o contrato de Osasco, de São José dos Campos ou da cidade de São Paulo?”, questionou.
Tarcísio também citou obras de expansão da rede de abastecimento e coleta de esgoto como exemplos dos resultados que atribui à atual gestão.
Entre as intervenções mencionadas pelo candidato estão ações em Cabo Sul, Jardim Fortaleza, em Mairiporã, Perus e Bauru.
Segundo Tarcísio, cerca de 400 mil pessoas em Bauru passaram a contar com tratamento e coleta de esgoto. O candidato também afirmou que aproximadamente 2 milhões de pessoas passaram a ter acesso à água durante sua gestão.
Por que Haddad questionou a privatização?
Haddad criticou os resultados atribuídos à privatização da Sabesp e questionou diretamente Tarcísio sobre uma das principais promessas relacionadas à desestatização: a redução das tarifas.
Durante o debate, o candidato do PT também mencionou reclamações relacionadas à qualidade da água. “Você falou que quando eu privatizar a conta vai abaixar?”, questionou Haddad.
Tarcísio respondeu que as tarifas tiveram redução após a privatização, mas ponderou que não seria possível esperar que os valores permanecessem congelados.
A discussão sobre as tarifas colocou em lados opostos duas visões sobre o modelo de gestão do saneamento em São Paulo.
Enquanto Tarcísio defende a participação privada como forma de ampliar investimentos e acelerar a expansão dos serviços, Haddad questiona os efeitos da desestatização para o consumidor.
Saneamento vira peça central da disputa
O saneamento foi um dos principais argumentos utilizados por Tarcísio para defender a privatização.
Durante a discussão, o candidato citou investimentos realizados na expansão do abastecimento e da coleta e tratamento de esgoto.
Ele também defendeu a utilização de outras fontes de água para ampliar a segurança hídrica de São Paulo.
Entre os exemplos mencionados está a represa Billings. Segundo Tarcísio, o reservatório possui maior disponibilidade de recursos do que o Sistema Cantareira.
O tema é estratégico para o estado porque envolve diretamente o abastecimento de milhões de pessoas e a capacidade de ampliar a infraestrutura de saneamento nos próximos anos.
Transporte sobre trilhos também entra no confronto
O debate não ficou restrito à Sabesp. Tarcísio também criticou a situação do transporte sobre trilhos em São Paulo e afirmou que o setor passou anos sem investimentos suficientes.
Segundo o candidato, parte da estrutura ainda enfrenta problemas antigos, com trilhos considerados ultrapassados e soluções que, na avaliação dele, seriam paliativas.
Tarcísio afirmou que pretende enfrentar esse cenário com investimentos de aproximadamente R$ 14 bilhões.
O candidato também questionou o tempo de espera enfrentado pelos passageiros nas estações e utilizou o tema para defender a necessidade de ampliar a capacidade do sistema.
A discussão colocou mobilidade urbana ao lado do saneamento como um dos principais temas de infraestrutura apresentados durante o debate.
O que é o free flow?
A discussão sobre transporte também passou pelo chamado free flow, sistema que permite a cobrança automática de pedágios sem a necessidade de o motorista parar em uma praça convencional.
O modelo utiliza equipamentos para identificar o veículo e realizar a cobrança de acordo com as regras estabelecidas para cada rodovia.
O assunto ganhou espaço no debate dentro da discussão mais ampla sobre pedágios, infraestrutura rodoviária e custos para quem utiliza as estradas paulistas.
Haddad critica pedágios e custo do gás
Haddad também direcionou críticas à política de infraestrutura e aos preços cobrados no estado.
O candidato citou o valor do gás em Cubatão e afirmou que o custo estaria entre os mais altos do país.
Na área de transporte rodoviário, Haddad criticou o preço do pedágio na Dutra e classificou a tarifa como uma das mais caras do Brasil.
As declarações foram utilizadas pelo petista para questionar a política de concessões e a relação entre investimentos em infraestrutura e o custo final para a população.
Benefícios fiscais entram na disputa
Outro assunto que apareceu no confronto foi a política de benefícios fiscais adotada pelo governo paulista.
Haddad afirmou que não haveria transparência suficiente sobre os incentivos concedidos pelo Estado e questionou a concentração de parte da arrecadação de determinados tributos em um grupo reduzido de empresas.
A crítica abriu uma nova frente de discussão entre os candidatos, dessa vez relacionada à política tributária e aos incentivos concedidos pelo governo estadual.
Tarcísio rebateu a argumentação e afirmou que sua gestão reduziu benefícios fiscais em São Paulo. Segundo o candidato, a mudança teria ampliado a disponibilidade de recursos para o Estado.
Juros e benefícios fiscais entram na disputa
Tarcísio rebateu a crítica e afirmou que o principal problema enfrentado pelo setor industrial seria a taxa de juros. O candidato também acusou o governo federal de gastar mais de R$ 200 bilhões em medidas relacionadas à disputa eleitoral.
Sobre a política tributária paulista, Tarcísio afirmou que sua gestão reduziu benefícios fiscais no Estado. Segundo ele, a medida teria como consequência o aumento da disponibilidade de recursos para São Paulo.
A troca de acusações mostrou que privatizações, tarifas, infraestrutura e política tributária devem permanecer entre os principais pontos de disputa entre os dois candidatos ao longo da campanha.
O que está em jogo na disputa?
O confronto entre Haddad e Tarcísio mostrou que privatizações, tarifas, saneamento, transporte, pedágios e benefícios fiscais devem ocupar espaço importante na disputa pelo Governo de São Paulo.
A Sabesp, em especial, deve continuar sendo um dos principais pontos de divergência entre os candidatos.
De um lado, Tarcísio utiliza os investimentos e a expansão dos serviços como argumento para defender a privatização.
Do outro, Haddad questiona os efeitos da desestatização sobre as tarifas e a qualidade dos serviços prestados à população.
A discussão também revela duas visões diferentes sobre a participação da iniciativa privada na administração de serviços públicos.
Entenda o contexto
A privatização da Sabesp se tornou um dos principais símbolos da política de desestatização adotada pelo governo Tarcísio de Freitas em São Paulo.
A companhia passou por um processo de desestatização defendido pelo governo estadual como forma de ampliar investimentos, acelerar a expansão dos serviços e melhorar os índices de saneamento.
O modelo, porém, é alvo de críticas de setores que questionam os efeitos da privatização sobre tarifas, controle público e qualidade dos serviços.
No debate deste domingo (9), a discussão voltou a ganhar força porque colocou Haddad e Tarcísio diante de uma questão que deve permanecer presente durante a campanha: a participação da iniciativa privada melhora ou encarece os serviços públicos?
A resposta a essa disputa deve ser um dos principais temas da eleição para o Governo de São Paulo.