Justiça bloqueia conta bancária da Raízen em meio à reestruturação financeira

Medida ocorre enquanto empresa enfrenta processo de recuperação extrajudicial e tenta reorganizar dívidas
Redação NC News
ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x

O juiz Paulo Cezar Duran, da 7ª Vara Criminal do Tribunal de Justiça de São Paulo, manda bloquear e sequestrar bens e contas ligados à Raízen em uma investigação de lavagem de dinheiro ligada ao tráfico internacional de drogas. A medida atinge também outras 12 pessoas físicas e 72 empresas, somando mais de R$ 10 bilhões em valores constritos.

A decisão recai sobre uma das maiores companhias do setor energético do país e já provoca um choque imediato no mercado. O bloqueio bilionário, ainda que provisório, ameaça a liquidez da empresa, afeta relações com bancos e fornecedores e expõe a companhia ao maior teste reputacional de sua história recente.

Investigação mira rede ligada a tráfico internacional

A ação decorre de uma investigação da Polícia Federal que mira uma estrutura financeira criada para esconder recursos do tráfico internacional de drogas. Segundo a PF, o foragido Shimada, alvo de sanções econômicas do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, comanda uma rede de empresas de fachada usada para movimentar e ocultar dinheiro ilícito.

Os investigadores estimam que o esquema tenha lavado cerca de US$ 30 milhões, o equivalente a R$ 156 milhões. Essa engrenagem incluiria contratos fictícios, intermediação por terceiros e uso de companhias com aparência de regularidade para dar verniz lícito a recursos do crime organizado.

No grupo sob investigação estão 13 pessoas físicas e 73 pessoas jurídicas. A ordem da 7ª Vara Criminal atinge solidariamente esse universo, o que explica o salto do valor sob suspeita, de pouco mais de R$ 150 milhões, para um bloqueio que supera R$ 10 bilhões.

Raízen entrou no radar após transferência de R$ 120 mil

O elo entre a Raízen e a apuração aparece em uma transferência de R$ 120 mil, feita em favor de uma conta da empresa. De acordo com o inquérito, em 2023 o cúmplice João Gilberto Codognotto enviou dados bancários da companhia para que outro integrante do grupo criminoso realizasse o depósito.

Para a Polícia Federal, o uso da conta de uma grande empresa do setor energético como destinatária do dinheiro indica, em tese, “a utilização de pessoa jurídica de fachada ou a triangulação de valores por meio de conta de terceiro para dissimular a origem e o destino dos recursos movimentados”. O laudo pericial da PF registra a saída de recursos da empresa Hi Quality Importação Comércio e Distribuição Ltda. para a conta titularizada pela Raízen.

Esse movimento levou o juiz Paulo Cezar Duran a incluir a companhia no pacote de medidas cautelares. A decisão não afirma, por ora, que a empresa participa do crime, mas considera que a triangulação financeira justifica o congelamento preventivo de valores até que o fluxo das operações seja completamente rastreado.

Defesa fala em desproporção e operação regular

A Raízen reage com veemência. Em petição em que pede o relaxamento do bloqueio, os advogados da empresa acusam a Justiça de impor uma medida sem relação com o montante efetivamente sob investigação.

“A operação mercantil no valor de R$ 120 mil jamais poderia acarretar o desproporcional bloqueio solidário de mais de R$ dez bilhões, imposto de maneira indistinta aos destinatários da decisão judicial”, afirmam os representantes da companhia. A defesa sustenta que o pagamento “correspondeu, na realidade, à quitação de obrigação comercial regularmente constituída”.

Na mesma peça, os advogados dizem que a empresa “não ignora a gravidade dos fatos objeto da investigação policial originária, tampouco pretende minimizar a relevância das medidas destinadas ao combate à criminalidade organizada e à lavagem de capitais”. Argumentam, porém, que “medidas cautelares de tamanha intensidade devem observar, de modo rigoroso, os pressupostos legais que as autorizam, mediante fundamentação individualizada e estrita vinculação entre o patrimônio constrito e os fatos investigados”.

Bloqueio bilionário pressiona caixa e reputação

Na prática, o bloqueio bilionário ameaça o coração financeiro da Raízen. Ao congelar ativos e contas bancárias, a decisão encarece o crédito, atrasa pagamentos a fornecedores e pode forçar a empresa a renegociar prazos com bancos e parceiros comerciais. O efeito imediato é um aumento da percepção de risco em torno da companhia.

O impacto transborda o balanço corporativo. A Raízen integra uma cadeia que envolve produtores de cana, transportadoras, postos de combustíveis, distribuidores e grandes consumidores industriais. Qualquer abalo na sua capacidade de honrar compromissos tende a se propagar por todo o setor, com reflexos em investimentos, contratos e empregos ao longo da cadeia energética.

A repercussão também alcança o mercado financeiro. Investidores passam a precificar um risco jurídico adicional, o que pode pressionar as ações da empresa, encarecer novas captações e afetar planos de expansão. Em um cenário em que mais de R$ 10 bilhões ficam temporariamente fora de alcance, o planejamento de médio prazo precisa ser refeito às pressas.

Caso testa rigor contra lavagem em grandes corporações

O processo em São Paulo se torna um laboratório para o enfrentamento da lavagem de dinheiro quando o rastro do crime cruza com grandes corporações. Até aqui, boa parte das operações contra o tráfico mirava doleiros, laranjas e pequenas empresas de fachada. O caso da Raízen leva o cerco a outro patamar.

Ao colocar sob suspeita a utilização de contas de uma gigante energética para triangulação financeira, a Justiça envia um recado ao mercado: estruturas complexas de negócios não blindam automaticamente as empresas de medidas duras, como sequestro de ativos e bloqueio amplo de contas. A investigação aponta para uma rede que se vale de 73 pessoas jurídicas, o que ilustra o grau de sofisticação das engrenagens do crime.

Ao mesmo tempo, a reação da defesa da Raízen alimenta um debate sobre os limites do poder cautelar do Judiciário. A crítica central é a falta de proporcionalidade entre o valor sob suspeita e o volume bloqueado, além da necessidade de vincular, com precisão, patrimônio e fato investigado para evitar danos irreversíveis a quem eventualmente se prove inocente.

Próximos passos e cenário em aberto

O processo segue agora em uma fase de aprofundamento das provas. A tendência é que a PF peça novas quebras de sigilo bancário, fiscal e telemático para mapear o caminho do dinheiro e esclarecer se a participação da Raízen se limitou a uma operação isolada ou se há uso recorrente da empresa em triangulações financeiras.

A empresa, por sua vez, já adota uma estratégia agressiva de defesa, com recursos para reduzir ou derrubar o bloqueio e a apresentação de documentos para demonstrar a origem e a finalidade comercial da operação de R$ 120 mil. A disputa jurídica deve se estender por instâncias superiores e pode produzir decisões que sirvam de referência para futuros casos envolvendo grandes grupos empresariais.

Enquanto o Judiciário pesa risco e proporcionalidade, a Raízen enfrenta uma corrida contra o tempo para conter o dano reputacional e preservar sua operação cotidiana. A forma como a companhia responde, em transparência e governança, e como os tribunais calibram as medidas cautelares, ajuda a definir o padrão de tolerância do país diante da contaminação de estruturas econômicas pelo dinheiro do crime organizado.

Carregar Comentários