Funcionários da Linha 10-Turquesa da CPTM aprovam estado de greve para pressionar mudanças no Projeto de Lei 777/26, que trata da absorção de ferroviários por órgãos do Estado. A decisão, tomada em assembleia, mira a garantia efetiva dos empregos e abre caminho para uma possível paralisação do ramal.
Pressão sobre o governo e risco de paralisação
A assembleia, realizada na noite de segunda (10), reúne trabalhadores da Linha 10-Turquesa representados pelo Sindicato dos Trabalhadores em Empresas Ferroviárias de São Paulo. Eles saem do encontro com uma posição clara: intensificar a pressão sobre o governo paulista para reescrever o texto do projeto.
O estado de greve coloca a categoria em prontidão. Os ferroviários seguem trabalhando, mas passam a se organizar para uma eventual paralisação, caso o governo não atenda às reivindicações. O recado dos dirigentes sindicais é direto. “Caso não haja uma reedição da proposta apresentada pelo Governo do Estado, uma greve poderá afetar o ramal”, afirma Lucas Dameto, representante do Comitê CPTM.
O movimento atinge um serviço essencial na região metropolitana de São Paulo. A Linha 10-Turquesa liga cidades do ABC à capital e transporta diariamente milhares de passageiros. Uma interrupção parcial ou total do ramal pressionaria usuários, ampliaria a lotação em outros modais e colocaria o governo em situação política mais delicada.
As brechas do Projeto de Lei 777/26
No centro da disputa está o Projeto de Lei 777/26, que autoriza a absorção dos empregados das Linhas 10, 11, 12 e 13 por órgãos ou entidades da administração pública estadual, direta ou indireta. A proposta é apresentada como forma de assegurar os empregos diante de mudanças na gestão das linhas.
Para o sindicato, porém, o texto deixa pontos sensíveis em aberto. A crítica principal é que o projeto apenas autoriza o governador a garantir os postos de trabalho, sem impor essa obrigação de forma explícita. Ficam de fora, segundo a categoria, questões centrais como salários, locais de trabalho e tempo de serviço.
Os ferroviários temem que a absorção, sem salvaguardas claras, abra espaço para rebaixamento salarial, transferências forçadas e perda de direitos adquiridos. A ausência de regras sobre o tempo de casa alimenta a insegurança de quem acumula décadas de serviço na estatal e não sabe em que condições será realocado.
Experiência recente nas Linhas 11, 12 e 13 pesa na negociação
A mobilização na Linha 10-Turquesa não nasce do zero. O mesmo Projeto de Lei 777/26 já serve de base para encerrar greves recentes nas Linhas 11, 12 e 13 da CPTM. Naquele episódio, o texto original do governo é alterado na Assembleia Legislativa e recebe 13 emendas para atender parte das reivindicações dos ferroviários.
Essa experiência alimenta a estratégia atual do sindicato. A avaliação é de que a pressão organizada, com ameaça concreta de paralisação, produz resultados. Ao aprovar o estado de greve sem marcar data para a interrupção do serviço, os trabalhadores da Linha 10 tentam repetir a fórmula: manter o diálogo aberto, mas com um instrumento de pressão pronto para ser acionado.
O governo estadual, por sua vez, passa a lidar com duas frentes. Precisa evitar que o ramal do ABC pare e, ao mesmo tempo, concluir a transição dos empregados para a nova estrutura administrativa. O equilíbrio entre esses objetivos depende da redação final do projeto e da disposição em ampliar as garantias aos trabalhadores.
Manifestação em 18 de agosto mira deputados
O próximo passo da mobilização já está marcado. Em 18 de agosto de 2026, ferroviários organizam uma manifestação para cobrar mudanças no Projeto de Lei 777/26 e buscar apoio explícito de parlamentares. A ideia é transformar a disputa, hoje concentrada na relação entre governo e sindicato, em tema central na Assembleia Legislativa.
A categoria pretende expor, no ato, as brechas que enxerga no texto. O foco recai sobre cláusulas que tratam, ou deixam de tratar, de salários, estabilidade e critérios de lotação dos trabalhadores absorvidos. Dirigentes sindicais também devem recordar o precedente das Linhas 11, 12 e 13, em que as 13 emendas aprovadas alteram de forma relevante a proposta original.
A manifestação, se for numerosa, tende a aumentar o custo político de uma eventual recusa do governo em reabrir o projeto. Deputados que apoiam a base governista podem ser pressionados por suas bases eleitorais, em especial em cidades atendidas pela Linha 10-Turquesa, a defender modificações mais amplas.
Impacto para passageiros e incerteza sobre datas
O estado de greve aprovado nesta semana ainda não se traduz em data marcada para paralisação. A estratégia é manter a ameaça no horizonte, enquanto avança a negociação política em torno do Projeto de Lei 777/26. Essa indefinição, no entanto, já gera apreensão entre passageiros que dependem diariamente da Linha 10.
Usuários do ramal podem enfrentar, nos próximos dias, atrasos pontuais ou operações reduzidas em horários específicos, caso a mobilização ganhe força com assembleias, atos e reuniões durante a jornada. Uma greve deflagrada em horário de pico teria impacto imediato sobre o deslocamento entre o ABC e o centro da capital.
Na prática, os maiores prejudicados em uma eventual paralisação seriam os trabalhadores que usam o trem para chegar ao emprego, escolas e serviços de saúde. Muitos têm poucas alternativas de transporte com preço acessível. A sobrecarga em ônibus intermunicipais e em outras linhas de trem e metrô é vista como inevitável em um cenário de greve ampla.
Até o momento, não há cronograma definido para a interrupção do serviço na Linha 10-Turquesa. Sindicalistas indicam que as próximas semanas serão decisivas. Se o governo sinalizar abertura para reescrever o texto e reforçar garantias, o estado de greve pode ser mantido apenas como instrumento de alerta. Se não houver movimento, a paralisação ganha força como desfecho provável.
O desfecho dessa disputa vai além da Linha 10. O que for decidido em relação ao Projeto de Lei 777/26 tende a servir de referência para a gestão de pessoal em outros trechos da malha ferroviária paulista e para futuras mudanças estruturais no transporte público metropolitano.