Intervenção de Trump nas eleições é prato cheio para Lula

A influência de Trump na eleição brasileira provoca reações do governo Lula e medidas para proteger a economia nacional.
Redação NC News
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Donald Trump intensifica nesta semana a interferência na eleição brasileira, com ataques políticos, pressão diplomática e tarifaços econômicos. O governo Lula reage, resiste a nomeações impostas por Washington e transforma a defesa da soberania em ativo eleitoral em pleno ano de votação.

Pressão de Washington encontra resistência em Brasília

A decisão dos Estados Unidos de revogar o visto da embaixadora do Brasil em Washington abre um dos momentos mais tensos da relação bilateral recente. A medida se soma à elevação de tarifas de importação contra produtos brasileiros, adotada em meio à campanha, com justificativa econômica frágil e claro efeito político contra o Planalto.

Trump também rompe a praxe diplomática ao anunciar antecipadamente seu indicado a embaixador em Brasília, antes do agrément brasileiro. O gesto é lido no Itamaraty como tentativa de impor um nome considerado de baixa qualificação. A chancelaria, porém, evita confronto aberto e sinaliza que só definirá posição após as eleições parlamentares nos EUA, mantendo a indicação em banho-maria.

O Planalto sustenta discurso de autonomia externa ao lado de vizinhos como Uruguai e México, hoje as principais exceções a uma América Latina mais alinhada a Washington. Nesse contexto, a ofensiva da Casa Branca ajuda Lula a ocupar o espaço simbólico da defesa da independência nacional, em contraste com a imagem de submissão atribuída a aliados de Trump.

Vistos negados e disputa em torno das urnas

A tentativa de Trump de colocar em dúvida o sistema eleitoral brasileiro encontra uma barreira direta em Brasília. O governo nega vistos a dois altos funcionários do Departamento de Estado, Riley M. Barnes, secretário-adjunto, e Samuel Samson, subsecretário-adjunto, que planejavam visitar o país para questionar a integridade da votação.

“O planejamento da visita de Riley M. Barnes, secretário-adjunto, e Samuel Samson, subsecretário-adjunto, tinha o objetivo de colocar em dúvida a transparência e a integridade do sistema eleitoral brasileiro”, revela o Washington Post. A recusa de entrada, rara em relações entre aliados, é interpretada como recado de que o Brasil não aceitará auditoria informal de Washington sobre suas urnas.

Ao mesmo tempo, cresce o ruído sobre possíveis ações mais radicais. “Já se fala até em patrocinar de alguma forma tentativas de golpe”, alerta o sociólogo Liszt Vieira, em artigo publicado na revista CartaCapital. A hipótese permanece no plano dos rumores, mas alimenta o clima de alerta entre autoridades e observadores internacionais diante da combinação de polarização doméstica e ativismo estrangeiro.

Crise com a Argentina e aposta em Flávio Bolsonaro

A interferência de Trump não se limita aos canais oficiais. A visita do presidente da Argentina ao lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro, do PL, em Brasília, com ataques diretos a Lula, desencadeia uma crise diplomática inédita entre os dois principais parceiros do Mercosul.

A cena de um chefe de Estado estrangeiro subindo ao palanque de um candidato brasileiro, em meio a ofensas ao presidente em exercício, é vista no Itamaraty como violação clara de usos diplomáticos. A leitura predominante em Brasília é de que o gesto faz parte da estratégia de Trump de articular uma frente conservadora regional, com Flávio Bolsonaro como aposta central no Brasil.

Nos bastidores, diplomatas avaliam que a articulação pode sair pela culatra. A proximidade explícita com Trump e com o governo argentino alimenta a narrativa petista de que o adversário “defende interesses estrangeiros”, num momento em que tarifas hostis e críticas ao Pix reforçam a percepção de hostilidade da Casa Branca.

Guerra no Irã exporta inflação e lucro recorde

Enquanto tenta pressionar Lula, Trump administra o desgaste de uma guerra cara e impopular contra o Irã, iniciada, segundo críticos, a pedido de Israel. “Trump foi eleito prometendo acabar com as guerras e cuidar apenas do povo dos EUA. Em vez disso, inventou, a pedido de Israel, uma nova guerra contra o Irã”, afirma Liszt Vieira.

Os números ajudam a dimensionar o impacto. O custo oficial do conflito chega a 37,5 bilhões de dólares até julho, de acordo com dados divulgados pelo secretário de Defesa, Pete Hegseth. Estimativas internas elevam a conta total, incluindo reposição de armamentos e efeitos indiretos, para algo entre 80 e 100 bilhões de dólares.

O estreito de Ormuz, rota de cerca de um quinto do petróleo mundial, transforma-se em zona de risco permanente. A consequência é uma disparada global dos preços de petróleo e combustíveis, que alimenta a inflação em sequência, do frete às prateleiras do supermercado. O movimento provoca aperto simultâneo em famílias dos EUA, da Europa e de grandes importadores asiáticos.

Brasil ganha com exportação, perde com inflação

No Brasil, o choque de preços provoca efeitos mistos. Como exportador de petróleo, o país vê perspectiva de aumento de receitas com vendas externas e royalties. O ganho, porém, vem acompanhado da alta nos combustíveis internos, que pressiona o transporte, encarece alimentos e complica o controle da inflação.

As oito maiores petrolíferas do mundo faturam 93 bilhões de dólares em apenas três meses, com lucro conjunto estimado em cerca de 700 mil dólares por minuto, segundo o jornal britânico The Guardian. A bonança das petroleiras contrasta com os danos climáticos e as ondas de calor recentes, que alimentam debates sobre taxação de lucros extraordinários e reparação ambiental – temas que também entram na agenda brasileira.

Para o governo Lula, o desafio é usar parte da renda adicional do petróleo para amortecer a alta de preços, sem romper com metas fiscais. Ao mesmo tempo, a inflação global dificulta cortes mais agressivos na taxa de juros, o que mantém o crédito caro e limita a recuperação econômica em ano decisivo nas urnas.

Tarifaços, desgaste político e cálculo eleitoral

Na frente comercial, a Casa Branca reforça a pressão com novos aumentos de tarifas sobre produtos brasileiros, apesar de os Estados Unidos manterem superávit na balança bilateral. No Itamaraty e em áreas técnicas do governo, a avaliação é de que prevalecem razões políticas sobre argumentos econômicos.

A percepção é de que Trump tenta desgastar Lula, elevar a sensação de insegurança econômica e favorecer seu aliado direto na disputa presidencial. Os tarifaços, porém, acabam alimentando sentimento nacionalista, inclusive entre setores empresariais incomodados com a politização da parceria comercial.

Enquanto isso, pesquisas internas nos EUA mostram queda de apoio a Trump, associada ao custo de vida mais alto e à falta de resultados claros na guerra. O presidente norte-americano mantém base leal, mas perde terreno entre independentes e moderados. A combinação entre desgaste doméstico e resistência externa aumenta o risco de que sua estratégia latino-americana termine como um fiasco simultâneo em Washington e em Brasília.

No Brasil, a aposta do governo é que a imagem de interferência estrangeira fortalecerá a narrativa de defesa da democracia e da soberania até a abertura das urnas. A incógnita está no limite da escalada: até onde Trump estará disposto a ir para não assistir, à distância, à derrota de seu candidato em um dos palcos mais estratégicos da disputa ideológica mundial.

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