O governo dos Estados Unidos voltou a colocar a América Latina no centro de sua política externa nesta terça-feira (11). Em uma publicação do Departamento de Estado, acompanhada por um vídeo de mais de cinco minutos, Washington afirmou que a “dominância americana” no Hemisfério Ocidental “nunca mais será questionada”.
A mensagem recupera a chamada Doutrina Monroe, formulada no século 19 e utilizada ao longo da história como justificativa para a atuação dos Estados Unidos no continente. O vídeo relembra episódios em que Washington interferiu direta ou indiretamente em países da América Latina e apresenta a política como parte da estratégia americana para a região.
A declaração ganha peso porque acontece em um momento de forte tensão diplomática entre os Estados Unidos e países latino-americanos, incluindo o Brasil.
O que os Estados Unidos disseram
Na publicação, o Departamento de Estado afirma que a Doutrina Monroe moldou a política externa americana durante mais de dois séculos e associa o princípio à defesa da influência dos Estados Unidos no Hemisfério Ocidental.
O vídeo também resgata acontecimentos históricos, como a crise dos mísseis de Cuba, em 1962, e a atuação do governo americano durante a Guerra Fria contra grupos apoiados pela União Soviética na América Latina.
Ao abordar a política externa do governo Donald Trump, a publicação menciona ainda a operação que levou à captura de Nicolás Maduro, na Venezuela, em janeiro deste ano. Segundo a mensagem divulgada pelo governo americano, a ação teria funcionado como um sinal para outros países do Hemisfério Ocidental.
A frase que mais chamou atenção estabelece que a “dominância americana” na região não deverá ser novamente questionada.
Por que a mensagem preocupa os países da América Latina?
A declaração representa uma reafirmação da intenção dos Estados Unidos de manter uma posição predominante nas Américas.
Na prática, a mensagem reforça que Washington considera o Hemisfério Ocidental uma área estratégica para seus interesses políticos, econômicos e de segurança.
A referência à Doutrina Monroe também chama atenção porque o princípio esteve associado, em diferentes momentos da história, a intervenções americanas na América Latina.
Por isso, a escolha das palavras utilizadas pelo Departamento de Estado pode ser interpretada como uma sinalização de que o governo Trump pretende ampliar a atuação americana na região.
Brasil aparece em meio à crise diplomática
A publicação acontece em um momento especialmente delicado nas relações entre Brasil e Estados Unidos.
Nos últimos meses, os dois governos acumularam uma série de atritos. Entre os episódios mais recentes está a revogação do visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti, após o governo brasileiro não ter aprovado a indicação de Daniel “Danny” Perez para a embaixada americana em Brasília.
A tensão também envolve questões comerciais. A publicação americana ocorreu um dia depois de a China pedir para participar das consultas abertas pelo Brasil na Organização Mundial do Comércio (OMC) contra as tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros.
O cenário aumenta a atenção sobre qualquer declaração de Washington envolvendo a América Latina.
O que é a Doutrina Monroe?
A Doutrina Monroe foi apresentada pelo presidente americano James Monroe em 1823.
O princípio defendia que as potências europeias não deveriam voltar a colonizar ou ampliar sua influência sobre países das Américas.
Ao longo da história, porém, a doutrina passou a ser associada também à ideia de que os Estados Unidos tinham um papel especial na defesa de seus interesses no Hemisfério Ocidental.
Essa interpretação foi utilizada em diferentes períodos para justificar ações e intervenções americanas na América Latina e no Caribe.
O que pode acontecer agora?
A declaração, por si só, não significa que uma nova intervenção militar esteja sendo anunciada contra algum país latino-americano.
O principal efeito imediato é diplomático e político: Washington sinaliza que pretende preservar sua influência estratégica sobre a região.
A mensagem, no entanto, deverá ser acompanhada com atenção pelos governos latino-americanos, especialmente em um período de disputas comerciais, mudanças políticas e aumento da competição entre Estados Unidos e China por influência no continente.
Entenda o contexto
A nova declaração americana ocorre em um cenário de transformação das relações internacionais nas Américas.
De um lado, os Estados Unidos tentam reforçar sua influência política, econômica e estratégica no Hemisfério Ocidental. Do outro, países latino-americanos buscam ampliar suas relações comerciais e diplomáticas com outras potências, especialmente a China.
No caso brasileiro, a disputa comercial com Washington e os recentes atritos diplomáticos aumentam a sensibilidade diante de qualquer sinal de endurecimento da política americana para a região.
Por isso, a frase de que a dominância dos Estados Unidos “nunca mais será questionada” ganhou repercussão além do discurso histórico sobre a Doutrina Monroe e passou a ser observada como uma possível sinalização da estratégia de Washington para os próximos anos.