A morte de uma criança de sete anos após passar mal durante o almoço em uma escola municipal de Ribeirão das Neves, na Grande BH, acendeu um alerta que vai muito além do ambiente escolar: o que fazer quando uma pessoa se engasga e quanto tempo existe para agir?
Emanuele Martins Soares morreu depois de sofrer uma obstrução das vias aéreas enquanto comia. Segundo as informações divulgadas no caso, ela estava acompanhada por profissionais da escola no momento da refeição e funcionários tentaram realizar manobras de desengasgo. Uma médica de um posto de saúde próximo também foi chamada, e o Samu foi acionado.
A prefeitura informou que as tentativas de reanimação duraram cerca de 40 minutos. A Polícia Civil investiga as circunstâncias da morte.
O caso chama atenção para uma situação que pode acontecer em segundos, em qualquer lugar: em casa, na escola, no restaurante, no trabalho ou até quando estamos sozinhos. E os números mostram que não se trata de um problema raro.
Milhares de mortes por ano
Dados do Ministério da Saúde citados em informações oficiais mostram que cerca de 2.470 pessoas morrem no Brasil por ano, vítimas de obstrução das vias aéreas por corpo estranho, conhecida pela sigla OVACE. Aproximadamente 60% das vítimas têm 60 anos ou mais, cerca de 1.500 mortes.
Um manual de Suporte Básico de Vida da Polícia Federal, baseado em dados de 2023, também aponta que pelo menos 2 mil pessoas morreram naquele ano após engasgos no país. Entre crianças de zero a quatro anos, foram registradas 319 mortes.
Ou seja: apesar de parecer um acidente simples, o engasgo pode evoluir rapidamente para falta de oxigênio, perda de consciência, parada cardiorrespiratória e morte.
Afinal, o que é o engasgo?
Tecnicamente, o engasgo é uma obstrução das vias aéreas. Alguma coisa impede parcial ou totalmente que o ar chegue aos pulmões.
E não é apenas comida. Um pedaço de alimento, um objeto pequeno, líquido, vômito, sangue e outras secreções podem bloquear a passagem de ar. A obstrução pode ser parcial, quando ainda existe tosse, fala ou respiração, ou completa, quando a pessoa não consegue falar, tossir ou respirar adequadamente.

Crianças pequenas estão entre as mais vulneráveis
Crianças pequenas exigem atenção especial porque ainda estão desenvolvendo habilidades de mastigação e deglutição e também costumam levar objetos à boca.
Alimentos como castanhas, milho de pipoca, feijão cru e amendoim podem representar risco quando aspirados. Como as vias aéreas das crianças são menores, um objeto pode provocar uma obstrução mais grave.
Por isso, prevenção também significa cuidado com brinquedos pequenos, objetos que possam ser colocados na boca e alimentos inadequados para a idade.
Lei Lucas: escolas precisam estar preparadas
É justamente dentro desse contexto que entra a Lei Lucas, criada depois da morte do menino Lucas Begalli Farias, de 10 anos, que se engasgou durante um passeio escolar, em 2017.
A Lei Federal nº 13.722/2018 tornou obrigatória a capacitação em noções básicas de primeiros socorros para professores e funcionários de escolas públicas e privadas de educação básica e estabelecimentos de recreação infantil.
A legislação determina que o treinamento seja oferecido anualmente, incluindo capacitação e reciclagem de parte dos profissionais. O conteúdo deve ser adequado à faixa etária das crianças atendidas.
A lei também estabelece que as escolas tenham kits de primeiros socorros, afixem em local visível a certificação da capacitação e estejam integradas à rede de urgência e emergência da região.
A ideia não é transformar professores em profissionais de saúde. É garantir que, diante de uma emergência, exista alguém preparado para reconhecer o problema e iniciar os primeiros cuidados enquanto o atendimento especializado não chega. E isso pode fazer diferença porque, em um engasgo grave, cada segundo importa.

Como identificar um engasgo grave?
A primeira coisa é observar a vítima. Se a pessoa consegue falar, tossir ou respirar, existe passagem de ar. Nessa situação, a orientação é incentivar uma tosse vigorosa e observar atentamente a evolução.
Já quando a obstrução é grave, a pessoa pode não conseguir falar ou tossir, apresentar dificuldade intensa para respirar, emitir sons agudos ou nenhum som e levar as mãos ao pescoço. A pele também pode ficar pálida ou azulada pela falta de oxigênio.
É nesse momento que a intervenção precisa ser rápida.
Adultos e crianças maiores de 1 ano
Para uma pessoa consciente com obstrução grave, as recomendações atuais incluem cinco golpes nas costas, entre as escápulas, seguidos, se necessário, de cinco compressões abdominais. Os ciclos devem ser repetidos até que o objeto seja eliminado ou a vítima perca a consciência.
Quando a obstrução das vias aéreas é completa, a pessoa deixa de conseguir respirar e precisa de atendimento imediato. É nesse momento que as manobras de primeiros socorros podem ser decisivas. O médico Alexandre Parisi explica como deve ser feita a técnica:
“A manobra chama manobra de Heimlich, que vai ser composta por uma compressão abdominal. Então, você posiciona uma mão fechada e a outra mão por cima no abdômen da pessoa e faz uma compressão em J. Essa compressão vai fazer com que haja uma pressão no diafragma, comprimindo os pulmões, ajudando a expelir esse objeto que está preso na garganta, impedindo a pessoa de respirar.”, explica o médico
A técnica utilizada atualmente combina golpes nas costas e compressões abdominais. Os movimentos precisam ser alternados até que o objeto seja expelido ou a vítima deixe de responder.
“Atualmente, essa manobra foi adaptada. Então, a gente faz cinco compressões nesse movimento em J, seguido de cinco tapas entre as escápulas, cinco tapas nas costas. Então, você faz os cinco tapas, cinco compressões, cinco tapas, cinco compressões.”, complementa
A sequência deve continuar até que a obstrução seja resolvida ou a pessoa perca a consciência.
“Até o momento que o objeto sair ou a pessoa parar de responder. Então, muito importante que é uma manobra que exige certa força, mas que pode salvar a vida de alguém.”, conta
Um cuidado importante: não se deve colocar o dedo dentro da boca da vítima às cegas para tentar retirar o objeto. A recomendação é remover apenas aquilo que estiver claramente visível. Tentar procurar o objeto com os dedos pode empurrá-lo ainda mais para dentro.

Gestantes e pessoas com obesidade precisam de uma adaptação
Em mulheres grávidas, especialmente quando a gestação já está mais avançada, e em pessoas com obesidade, as compressões não devem ser feitas no abdômen.
Nesses casos, a orientação é utilizar golpes nas costas e compressões na altura do tórax, evitando a região abdominal.
“Se a pessoa for gestante ou um pouco mais obesa, talvez você não consiga traçar as mãos por volta do abdômen. Então, essa compressão não pode ser feita no tórax da pessoa, porque talvez você não consiga envolver o abdômen completamente para fazer a compressão.”, explica o clínico geral
E quando a vítima é um bebê?
Bebês não devem receber a mesma manobra feita em adultos. Para crianças menores de 1 ano, a orientação é alternar cinco golpes nas costas com cinco compressões no peito. O bebê deve ser apoiado de forma segura, com a cabeça mais baixa que o corpo durante os golpes nas costas. Depois, deve ser virado de barriga para cima para as compressões torácicas.
“Muito importante também saber a manobra de desobstrução de vias aéreas caso seja um bebê, ou seja, até um ano de idade. Geralmente, a gente vai posicionar esse bebê no nosso braço, fazemos cinco tapas fortes entre as escápulas, que são as omoplatas, os ossinhos das costas, viramos esse bebê e fazemos cinco compressões torácicas nele.”, explica Alexandre
O médico também explica uma adaptação da técnica para as compressões no peito do bebê:
“Então, a compressão no centro do peito, igual vocês vão ver na imagem, e vamos revezando os cinco tapas e as cinco compressões, cinco tapas, cinco compressões. Mas atualmente a técnica de compressão trocou pra gente abraçar esse bebê por trás e no centro do peito dele fazer a compressão com dois dedinhos, que se mostrou mais eficaz nessa população.”, complementa

E se você estiver sozinho e se engasgar?
Esse talvez seja um dos cenários mais assustadores: não existe outra pessoa para ajudar. A orientação é pedir socorro imediatamente. Em Belo Horizonte e em todo o Brasil, o SAMU pode ser acionado pelo 192 e o Corpo de Bombeiros pelo 193.
Se conseguir falar, explique que está engasgado. Se não conseguir, mantenha a ligação aberta e siga as orientações do serviço de emergência. Enquanto isso, a própria pessoa pode realizar compressões abdominais. Uma alternativa é posicionar a região acima do umbigo contra uma superfície firme, como o encosto de uma cadeira, e realizar movimentos para dentro e para cima. A superfície não deve ter quinas ou partes que possam causar ferimentos.
O que não fazer em caso de egasgo?
Em uma situação de desespero, alguns comportamentos podem piorar o quadro. Não é recomendado colocar a mão dentro da boca da vítima sem enxergar o objeto. Também não se deve tentar retirar algo “no escuro”.
E, principalmente, não se deve esperar para ver se um engasgo grave vai passar sozinho. Se a pessoa não consegue tossir, falar ou respirar, a situação é uma emergência.