Fernando Roberto Moreira Salles ocupa hoje uma posição rara no Brasil: é um bilionário do sistema financeiro e da mineração, com fortuna estimada em US$ 9,9 bilhões, que escolhe a poesia e a cultura como eixo de sua vida pública.
Integrante da família que controla o Itaú Unibanco e 70% da CBMM, líder mundial em nióbio, ele também é poeta, editor, dramaturgo, ex-diretor do Instituto Moreira Salles e sócio da Companhia das Letras.
Do banco de Poços de Caldas ao império financeiro
A história que sustenta a fortuna de Fernando começa muito antes dele. O embrião do que viria a ser o Unibanco surge em 1924, em Poços de Caldas (MG), e se consolida sob a liderança de seu pai, o banqueiro e diplomata Walther Moreira Salles. Em paralelo, em São Paulo, o Banco Central de Crédito, criado em 1943 por Alfredo Egydio de Souza Aranha, dá origem ao Itaú.
Essas duas trajetórias se encontram em 2008, quando a fusão do Itaú com o Unibanco cria o Itaú Unibanco, hoje principal banco privado do país. A partir daí, a família Moreira Salles se firma como uma das forças centrais do sistema financeiro brasileiro, influenciando o mercado de crédito, as políticas de expansão bancária e decisões de investimento em larga escala.
É dentro desse arranjo que se consolida o patrimônio de Fernando. “Uma fortuna estimada em US$ 9,9 bilhões coloca Fernando Roberto Moreira Salles entre os brasileiros mais ricos da lista global da Forbes de 2026”, registra a revista Let’s Go Bahia. O número o coloca num grupo restrito de brasileiros com influência direta sobre setores estratégicos da economia.
Nióbio e poder industrial global
O poder da família, porém, não se limita aos balanços bancários. Os Moreira Salles controlam 70% da CBMM, empresa que ocupa a liderança mundial na produção e comercialização de produtos de nióbio, metal estratégico para indústrias aeroespacial, automobilística e eletrônica.
Desse total, 40% estão vinculados à holding Brasil Warrant, enquanto 30% correspondem a investimento direto da família. “Fernando, Pedro, João e Walter Moreira Salles estão entre os controladores da Brasil Warrant, com participações iguais”, aponta documentação societária da própria mineradora. O desenho concentra a decisão sobre um insumo sensível em um pequeno núcleo familiar.
A associação entre Itaú Unibanco e CBMM faz da família um ator de peso duplo: financeiro e industrial. Em um país em que o acesso a crédito e a capacidade de exportar bens de alto valor agregado definem a competitividade, essa combinação dá aos Moreira Salles uma voz relevante em negociações com governos, grandes empresas e investidores internacionais.
Entre Botafogo, livros e o Instituto Moreira Salles
Nascido no Rio de Janeiro, Fernando Moreira Salles cresce circulando entre o universo dos bancos e o mundo das artes. No bairro de Botafogo, berço de parte da elite intelectual carioca, ele se aproxima da literatura e da crítica cultural, caminho que se tornaria central em sua trajetória.
À frente da entidade, Fernando ajuda a consolidar um dos principais polos culturais do país, com acervos de fotografia, música, literatura e cinema espalhados por cidades como Rio de Janeiro e São Paulo.
A atuação se estende à edição de livros. Como sócio da Companhia das Letras, Fernando se envolve na curadoria de obras e autores que renovam a literatura brasileira. Na poesia, publica títulos como “Habite-se”, em 2005, e “A Chave do Mar”, em 2010, nos quais trata de memória, perda e pertencimento, temas distantes da aridez dos relatórios financeiros.
Família, cinema e o Oscar inédito
A influência cultural dos Moreira Salles não se esgota em Fernando. Um de seus irmãos, o cineasta Walter Salles, leva o sobrenome para os palcos internacionais. “Um dos irmãos de Fernando, o cineasta Walter Salles, dirigiu Ainda Estou Aqui, adaptação do livro de Marcelo Rubens Paiva”, registra a mesma reportagem.
O filme, que conta a história de Eunice Paiva e de sua família sob a ditadura, conquista em 2025 o Oscar de Melhor Filme Internacional. “O longa conquistou, em 2025, o Oscar de Melhor Filme Internacional, primeira vitória brasileira na categoria”, assinala a publicação. Na mesma temporada, Fernanda Torres ganha o Globo de Ouro de Melhor Atriz em Filme de Drama “por sua interpretação de Eunice”.
O reconhecimento amplia o alcance simbólico da família. Se o banco molda o sistema financeiro e a CBMM pesa no tabuleiro industrial global, o cinema de Walter e a literatura apoiada por Fernando ajudam a projetar narrativas brasileiras em disputas internacionais de prestígio.
Concentração de poder e legado cultural
No ambiente empresarial, a combinação de Itaú Unibanco e CBMM é frequentemente vista como sinônimo de solidez e visão de longo prazo. A presença dos Moreira Salles em conselhos e estruturas de controle sugere continuidade, o que agrada investidores e sócios. A contrapartida é o debate recorrente sobre concentração de poder econômico em poucas famílias.
A centralização não se limita aos negócios. No campo cultural, o peso do Instituto Moreira Salles, da Companhia das Letras e das produções associadas ao grupo cria um ecossistema em que financiamento, curadoria e difusão passam, muitas vezes, pelos mesmos sobrenomes. Para artistas e acadêmicos, isso garante infraestrutura e visibilidade; para críticos, acende alertas sobre diversidade de vozes.
Fernando, que transita entre essas esferas, se torna símbolo dessa ambivalência. De um lado, representa a possibilidade de um herdeiro de banco investir tempo e recursos em poesia, teatro e preservação de acervos; de outro, encarna a permanência de dinastias que atravessam décadas no comando de setores-chave da economia e da cultura.
Neste momento, com a fortuna de US$ 9,9 bilhões e a participação decisiva na CBMM preservadas, os Moreira Salles seguem como protagonistas silenciosos de discussões sobre crédito, mineração e produção cultural. O desfecho dessa história ainda em andamento passa por uma questão central: até que ponto a combinação entre patrimônio bilionário e compromisso cultural pode se converter em um legado mais amplo de democratização econômica e de acesso à arte no Brasil.