TTEN3 tem queda de 86% no lucro no segundo trimestre

Resultado foi pressionado pelo desempenho da indústria de soja e biodiesel, apesar do avanço da receita
Redação NC News
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A 3tentos (TTEN3) divulga nesta semana um tombo de 86,3% no lucro líquido ajustado do segundo trimestre, para R$ 14,4 milhões, mesmo com forte aumento de receita. O desempenho expõe a pressão sobre a indústria de processamento de soja, milho, biodiesel e etanol de milho da companhia gaúcha.

O resultado reacende dúvidas sobre a capacidade de geração de caixa no curto prazo e coloca os projetos industriais no centro do radar de investidores. A empresa, porém, insiste que a “fotografia” do semestre é mais justa e que a mudança no perfil das vendas é transitória.

Receita dispara, margem encolhe

No trimestre, a receita operacional líquida sobe 31,9%, para R$ 4,70 bilhões. O avanço robusto, porém, não se converte em rentabilidade. O Ebitda ajustado com hedge cai 64,3%, para R$ 78,7 milhões, e a margem Ebitda encolhe de 6,2% para apenas 1,7%.

A margem líquida ajustada também derrete, passando de 2,9% para 0,3%. Na prática, a 3tentos transforma muito mais faturamento em muito menos lucro. O principal foco de pressão vem da indústria, que processa soja e milho e produz farelo, óleo, biodiesel e, agora, etanol de milho.

A 3tentos aumentou a receita em 31,9% no 2º trimestre, mas viu a rentabilidade despencar. O EBITDA ajustado caiu 64,3%, enquanto a margem líquida recuou de 2,9% para 0,3%.

“O que foi o principal ofensor do resultado do segundo tri é basicamente a rentabilidade do segmento da indústria”, afirma o CEO João Marcelo Dumoncel, em conversa com analistas. A receita das operações industriais até cresce 4,7%, para R$ 2,01 bilhões, mas os preços dos produtos caem e corroem a margem.

Indústria encalhada e custo antecipado

O farelo de soja, um dos principais itens da cesta industrial, tem queda de 12% no preço na comparação anual. O biodiesel recua 3%. A combinação de preços mais baixos com custos elevados reduz drasticamente o ganho por tonelada processada.

A situação se agrava com atrasos em projetos de expansão. A planta de etanol de milho no Vale do Araguaia, em Mato Grosso, começa a operar só nos últimos dias de junho, bem depois do cronograma esperado. Ampliações nas unidades de esmagamento de soja e biodiesel também entram em funcionamento mais tarde que o planejado.

Dumoncel admite que a conta chega antes da receita. “Nós já estávamos gastando muito, a estrutura estava toda montada, e o operacional, a receita, o resultado, acabou não vindo porque teve esse atraso”, diz. Na prática, a empresa carrega folha, manutenção e depreciação de plantas parcialmente ociosas.

A manutenção da mistura obrigatória de biodiesel em 15%, sem o aumento esperado para 16%, limita ainda mais o fôlego. O setor, incluindo a 3tentos, expande capacidade em antecipação a uma demanda que não se confirma. Parte desse investimento extra ainda não encontra mercado pleno.

Grão ganha peso e puxa margem para baixo

Fora da indústria, os números são mais positivos. A receita de insumos agrícolas avança 24,6%, para R$ 487,3 milhões, apoiada na venda de fertilizantes, defensivos e sementes. A área de grãos, que compra soja e milho do produtor e revende, dispara 76%, para R$ 2,20 bilhões.

Esse salto, porém, é sintoma de um descompasso. Como as plantas industriais processam menos do que o previsto, a 3tentos passa a vender diretamente ao mercado uma fatia maior dos volumes comprados dos agricultores, em vez de transformá-los em farelo, óleo ou biocombustível.

As vendas de grãos passam a responder por quase 47% da receita do trimestre, frente a algo em torno de 30% em condições normais. A simples comercialização tem margem muito mais estreita que o processamento. O efeito é aritmético: mesmo com mais faturamento, a margem média da companhia desce vários degraus.

“Não é que a margem do grão em si está pior do que seria uma expectativa. É que a participação do grão no total da receita foi maior do que seria o normal da companhia, o que é transitório também”, argumenta Dumoncel. A leitura interna é que o mix atual distorce a percepção de resultado.

“Foto do trimestre” versus filme do semestre

Ao apresentar os números, a direção tenta deslocar o foco para o desempenho acumulado do ano. No primeiro semestre, a receita cresce 26,1%, para R$ 8,91 bilhões. O Ebitda ajustado com hedge sobe 12,8%, para R$ 472,9 milhões, e o lucro líquido ajustado avança 14,5%, para R$ 245,3 milhões.

O CEO insiste que o semestre é mais representativo num negócio altamente sazonal, dependente de janelas de plantio e colheita. “Muitas vezes a foto do trimestre acaba sendo distorcida por um atraso de colheita, um atraso de plantio, um deslocamento de receita mínimo que seja”, afirma.

A argumentação aponta para um ruído de calendário. Parte da receita que normalmente entraria no segundo trimestre migra para o terceiro, enquanto custos da expansão já pesam agora. A questão, para o mercado, é se esse descasamento é realmente pontual ou sinaliza dificuldades mais estruturais na maturação dos projetos.

Impacto para o mercado e próximos passos

A piora nas margens tende a pressionar as ações TTEN3 no curto prazo, sobretudo diante da sequência de investimentos intensivos em capital. Investidores olham com cautela o recuo do Ebitda ajustado para R$ 78,7 milhões, em contraste com uma receita próxima de R$ 5 bilhões no trimestre.

A companhia aposta que a plena operação das plantas de etanol de milho, esmagamento de soja e biodiesel, ao longo dos próximos trimestres, devolve parte da rentabilidade perdida. A normalização da mistura de biodiesel, se vier mais adiante, também seria um gatilho relevante para o setor.

A curto prazo, a 3tentos indica que deve reforçar o foco em eficiência industrial, acelerar ramp-up das unidades e buscar melhor captura de margem na comercialização de grãos. O ajuste fino entre compra de soja e milho, capacidade de processamento e venda direta será decisivo.

Produtores rurais, especialmente de soja e milho nas regiões onde a empresa atua, sentem os reflexos desse ajuste na forma e no ritmo das compras. A reação da companhia ao choque de margem pode redefinir volumes, prazos e condições de comercialização ao longo da próxima safra.

No horizonte, a trajetória da 3tentos dependerá da velocidade de maturação dos projetos industriais e do comportamento dos preços de farelo, óleo e biocombustíveis. O segundo semestre funciona como teste decisivo para comprovar se o tombo no lucro é um tropeço de calendário ou o sinal de um período mais longo de compressão de margens.

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