Um estudo publicado nesta sexta-feira (14) na revista Nature Medicine aponta que exames de sangue podem, no futuro, ajudar a estimar a idade biológica de diferentes órgãos do corpo. A pesquisa utilizou inteligência artificial para analisar mais de 25 mil amostras de tecidos de aproximadamente mil pessoas e identificou que órgãos como pulmão, rim, pâncreas e cérebro apresentam ritmos diferentes de envelhecimento.
Inteligência artificial cria “relógios” dos órgãos
Os pesquisadores treinaram sistemas de inteligência artificial com imagens microscópicas de tecidos humanos para identificar alterações associadas ao envelhecimento. A partir desses padrões, foram desenvolvidos os chamados “relógios teciduais”, capazes de estimar a idade biológica de determinados órgãos.
O modelo apresentou margem média de erro de aproximadamente cinco anos. As estimativas também foram associadas a marcadores conhecidos do envelhecimento e à presença de algumas doenças crônicas.
A descoberta reforça a ideia de que a idade registrada no documento não necessariamente corresponde ao estado biológico de todos os tecidos do organismo.
Órgãos podem envelhecer em ritmos diferentes
Os resultados indicam que o envelhecimento não acontece de maneira uniforme no corpo. Alguns órgãos começam a apresentar alterações relacionadas à idade mais cedo, enquanto outros seguem trajetórias diferentes ao longo da vida.
Pulmão, rim, pâncreas e glândula adrenal apresentaram sinais de envelhecimento entre os 20 e 40 anos. No caso do útero, os pesquisadores identificaram uma mudança mais acentuada por volta do período da menopausa.
A análise também encontrou relações entre determinadas doenças e alterações no envelhecimento de órgãos específicos. Diabetes, por exemplo, apareceu associado a mudanças no pâncreas, enquanto doenças renais foram relacionadas a alterações em diferentes tecidos.
Exame de sangue pode facilitar análise
Como a coleta direta de tecidos de órgãos internos é invasiva e nem sempre possível, os cientistas procuraram uma forma menos agressiva de obter essas informações.
Para isso, relacionaram os dados obtidos nas amostras de tecidos com informações genéticas presentes no sangue. A partir dessa combinação, desenvolveram um modelo capaz de estimar a idade biológica dos órgãos por meio de dados sanguíneos.
A ferramenta também identificou padrões associados a doenças como Alzheimer, doença de Crohn, fibrose cística e acidente vascular cerebral (AVC).
Resultado ainda não pode ser usado como diagnóstico
Apesar dos resultados, a tecnologia ainda está em fase de pesquisa e não significa que um exame de sangue convencional já consiga determinar com precisão a idade de cada órgão.
Os pesquisadores destacam a necessidade de novos estudos para validar o método e avaliar como ele poderia ser utilizado na prática clínica.
A expectativa é que, caso a tecnologia seja confirmada, uma análise desse tipo possa ajudar no acompanhamento do envelhecimento dos órgãos e na identificação de alterações relacionadas a doenças de maneira menos invasiva.
Entenda o contexto
O estudo amplia a discussão sobre a chamada idade biológica, conceito que considera o estado real do organismo além da idade cronológica. A pesquisa sugere que diferentes órgãos podem apresentar sinais de envelhecimento em momentos distintos e que essas diferenças podem estar relacionadas a doenças e fatores do cotidiano.
A utilização de inteligência artificial permite identificar padrões microscópicos que seriam difíceis de avaliar apenas pela observação humana. Ao relacionar essas informações com dados obtidos no sangue, os pesquisadores abriram uma possibilidade para desenvolver métodos menos invasivos de avaliação da saúde dos órgãos.
O próximo passo será confirmar a precisão da ferramenta em estudos maiores e verificar se as estimativas podem contribuir efetivamente para prevenção, acompanhamento ou tratamento de doenças.