Rejeição e empate técnico ameaçam Flávio Bolsonaro

Senador enfrenta reações negativas e cenário eleitoral acirrado no lançamento de sua candidatura presidencial no Rio.
Redação NC News
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Flávio Bolsonaro, senador do PL e candidato à Presidência, lança hoje sua campanha em comício na orla de Copacabana sob o impacto de um episódio incômodo: vaias no QG do Bope, no Rio, e uma pesquisa Quaest que expõe um país rachado e uma disputa em empate técnico com Lula.

Vaia em reduto policial expõe fragilidade

O desconforto começa na cerimônia recente de entrega de equipamentos ao Batalhão de Operações Policiais Especiais da Polícia Militar do Rio. Parte do material é comprada com emenda parlamentar do próprio Flávio, algo que ele faz questão de ressaltar ao chegar ao QG da tropa de elite.

No momento em que decide falar rapidamente aos policiais, o gesto se volta contra o candidato.

“Só que, quando Flávio resolveu dar umas rápidas palavras à tropa da força de elite da PM fluminense, foi… vaiado”, relata o colunista Lauro Jardim.

O ruído vindo das fileiras do Bope, tradicionalmente identificado com pautas de direita e próximo ao bolsonarismo, surpreende assessores e corre pelas redes.

A cena produz um efeito simbólico imediato. O filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, que constrói sua candidatura ancorada na bandeira da segurança pública, enfrenta resistência justamente diante de uma plateia fardada. O episódio alimenta dúvidas sobre o grau de coesão do apoio policial e militar à nova liderança da família.

Quaest mostra país dividido e disputa aberta

Enquanto o vídeo das vaias circula, a pesquisa Quaest, encomendada por Globo e O Globo, ajuda a dimensionar o tamanho da batalha eleitoral. No cenário de segundo turno, Lula aparece com 43% das intenções de voto, contra 40% de Flávio Bolsonaro. “A diferença de três pontos está dentro da margem de erro”, registra o levantamento, que entrevista 2.004 pessoas entre os dias 10 e 13 deste mês.

A margem de erro geral é de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%. Na prática, o empate técnico significa que nenhum dos dois consegue se descolar com folga, mesmo após meses de exposição e de pré-campanha intensa. O cenário é de guerra de centímetros, não de goleada.

O detalhamento por segmentos revela um eleitorado repartido em faixas quase espelhadas. Entre os mais jovens, de 16 a 34 anos, há 41% para cada lado. No grupo de 35 a 59 anos, novo empate numérico: 42% para Lula, 42% para Flávio. Nas regiões Centro-Oeste e Norte, a distância também é mínima: 42% para Lula, 41% para o senador.

Entre os homens, Flávio abre vantagem e chega a 45%, contra 41% do petista. Na faixa de renda intermediária, entre 2 e 5 salários mínimos, o candidato do PL marca 43%, enquanto Lula soma 38%. A fotografia aponta uma disputa disputada voto a voto em setores socialmente estratégicos.

Nordeste com Lula, Sul com Flávio e independentes no centro

Os extremos regionais mantêm padrões já conhecidos. No Nordeste, Lula domina com folga: 61% das intenções de voto, contra 26% de Flávio Bolsonaro, uma diferença de 35 pontos. A força do petista se repete entre quem ganha até 2 salários mínimos, faixa em que ele tem 58%, ante 27% do adversário.

No recorte racial, Lula lidera entre pretos, com 52%, contra 30% de Flávio. Entre católicos, outro grupo numeroso, o petista soma 50%, enquanto o senador fica em 36%. O ex-presidente também leva vantagem entre eleitores com ensino fundamental, 52% a 31%.

Flávio reage em territórios que historicamente se alinham ao bolsonarismo. No Sul do país, aparece com 54%, contra 27% de Lula, diferença de 27 pontos. Entre evangélicos, alcança 53%, enquanto o petista tem 28%. A vantagem se repete nas faixas de maior renda e escolaridade: 48% a 34% entre quem ganha mais de 5 salários mínimos, 47% a 36% entre eleitores com ensino superior e 45% a 36% entre os que têm ensino médio.

No eleitorado feminino, considerado decisivo por todas as campanhas, Lula lidera com 44%, enquanto Flávio registra 35%. A diferença, porém, diminui em relação ao levantamento anterior, e a margem de erro entre mulheres é de 3 pontos percentuais, o que sugere espaço para disputa nesse segmento.

Candidatura mimetiza Jair e mira o terço independente

A pesquisa aponta ainda o grupo que pode decidir a eleição: os eleitores independentes, que não se declaram nem lulistas, nem bolsonaristas, nem alinhados à esquerda ou à direita. De acordo com a análise da Quaest, esse contingente representa cerca de um terço do eleitorado e hoje pende levemente para o senador.

“Entre os eleitores que se declaram independentes — nem lulistas, nem bolsonaristas, nem de esquerda, nem de direita —, Flávio Bolsonaro tem 35%, contra 29% de Lula”, registra o levantamento. Outros 9% estão indecisos, e 27% dizem que, nessa disputa, votariam em branco, anulariam ou não compareceriam às urnas.

O avanço de Flávio nesse público veio após meses de exposição e ligação constante com a imagem do pai. Reportagem do Estadão descreve o movimento como um gesto calculado:

“Flávio Bolsonaro dá pontapé em campanha mimetizando o pai, com leite condensado, Copacabana e motoci”.

O comício de hoje na orla repete esse repertório, com bandeiras verde-amarelas, motociatas e símbolos que marcaram o bolsonarismo desde a ascensão de Jair.

O cálculo é claro: herdar o capital político do ex-presidente, especialmente no Sul, entre evangélicos, eleitores com renda mais alta e parte da classe média escolarizada, e tentar esticar essa influência até o terço independente do eleitorado. A vaia no Bope, porém, mostra que a transferência não é automática nem imune a ruídos.

Segurança pública em xeque e corrida até o último voto

O constrangimento no QG do Bope repercute entre policiais, analistas e rivais políticos. O gesto público de rejeição, em uma tropa que costuma ser cortejada por candidatos de direita, fragiliza a narrativa de Flávio como herdeiro natural da bandeira da segurança. A cena alimenta discursos de adversários sobre desgaste da marca Bolsonaro em parte das forças de segurança.

Ao mesmo tempo, o empate técnico da Quaest confirma que a disputa pela Presidência, neste momento, não está resolvida. De um lado, Lula sustenta redutos históricos, sobretudo no Nordeste e entre eleitores de menor renda. De outro, Flávio se apoia em segmentos que já garantiram vitórias expressivas ao bolsonarismo e tenta demonstrar capacidade própria de mobilização.

O comportamento do chamado terço independente, descrito por Felipe Nunes e outros analistas, vira a variável central da campanha. É sobre ele que miram discursos de moderação, promessas econômicas, acenos ao centro político e rearranjos de alianças. Empresários, lideranças religiosas e máquinas regionais ajustam estratégias na tentativa de influenciar esse bloco volátil.

As próximas semanas tendem a intensificar a polarização. Debates, novos levantamentos da Quaest e de outros institutos, além de episódios imprevistos como a vaia no Bope, podem redesenhar margens que hoje são estreitas. O que se desenha, neste domingo de largada oficial de campanha, é uma eleição em que cada constrangimento público, cada gesto simbólico em Copacabana ou em um quartel, pode custar — ou garantir — a diferença de 3 pontos que hoje separa Lula e Flávio dentro da margem de erro.

Flávio Bolsonaro foi vaiado pelo Bope por quê?

Flávio Bolsonaro é vaiado no QG do Bope ao tentar discursar durante cerimônia de entrega de equipamentos, parte comprada com emenda sua, num ambiente em tese simpático ao bolsonarismo, o que transforma um ato de prestação de contas em demonstração de incômodo da tropa e sinaliza desgaste político em reduto-chave da segurança pública.

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