Credores barram empréstimo de US$ 2,45 bilhões e colocam futuro da Latam Brasil em risco

Credores rejeitam proposta de empréstimo crucial que pode impactar as operações da Latam no Brasil.
Redação NC News
ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x

Credores da Latam Airlines Brasil contestaram, em Nova York, o plano de financiamento bilionário apresentado pela companhia como essencial para manter as operações. O grupo afirmou que o empréstimo era caro, desnecessário e foi estruturado sem transparência suficiente, aumentando a pressão sobre o futuro da empresa.

Impasse em plena recuperação judicial

A disputa se trava no tribunal que supervisiona a recuperação judicial da empresa nos Estados Unidos e expõe o ponto mais sensível do plano: o caixa para manter aviões no ar. Com dívida de US$ 18 bilhões, a Latam depende de novos recursos para pagar fornecedores, salários e combustíveis, enquanto tenta manter a malha de voos no Brasil e na América Latina.

O comitê que representa os credores sem garantia formaliza a objeção em documentos enviados ao juiz responsável pelo caso. No texto, o grupo resume a crítica em uma frase dura: é “uma proposta muito grande, muito cara e não é suportada por um processo de divulgação justo e adequado”.

Os credores pedem que o tribunal freie o pacote de financiamento e pressione a companhia aérea a buscar alternativas mais baratas. Também colocam em dúvida a real necessidade do valor total de US$ 2,45 bilhões, sugerindo que a empresa tenta se capitalizar além do estritamente essencial para a continuidade das operações.

Quem banca o socorro e o que está em jogo

A proposta da Latam combina dinheiro novo de acionistas e investidores financeiros. A companhia já garante US$ 900 milhões em um bloco inicial de financiamento, oferecido pelos acionistas Cueto Group e Qatar Airways. Em seguida, anuncia um segundo pilar: US$ 1,3 bilhão aportado pela empresa de investimentos Oaktree, com possibilidade de mais US$ 250 milhões de outros acionistas.

O desenho do acordo, porém, acende o alerta dos credores sem garantia. O ponto mais sensível é a cláusula que permite a Oaktree e demais participantes do pacote converterem a dívida em participação acionária quando a Latam deixar a recuperação judicial. Essa conversão ocorre com um desconto implícito de 32% no valor das ações, o que tende a diluir o capital de acionistas que não participarem do financiamento.

Para os credores, essa estrutura transfere valor de forma desproporcional aos investidores que topam colocar dinheiro agora, em detrimento dos demais envolvidos no processo. O comitê sustenta que o tribunal não deveria autorizar, em bloco, um mecanismo que redefine a distribuição futura do capital da empresa sem, na visão deles, dados suficientes sobre alternativas.

Número do empréstimo também é alvo de crítica

Além da forma do financiamento, o tamanho do cheque entra no centro da briga. Os credores afirmam que assessores financeiros da própria Latam estimam que US$ 2,15 bilhões bastariam para assegurar a continuidade das operações. A diferença de US$ 300 milhões, argumentam, não estaria justificada em plano detalhado.

O questionamento mira a linha de defesa da companhia aérea, que sustenta precisar de liquidez robusta para atravessar a fase mais aguda da crise trazida pela pandemia e pela desaceleração prolongada do setor. A Latam, maior grupo aéreo da América Latina, sente o impacto direto na venda de passagens, no fluxo de caixa e na demanda por voos corporativos e internacionais.

Sem o empréstimo nas condições propostas, a empresa admite, nos bastidores, risco relevante para o cronograma de recuperação. A objeção dos credores, porém, implica que qualquer solução terá de passar por ajustes no valor total, nas taxas cobradas e nas regras de conversão em ações.

Risco para voos, empregos e concorrência

O entrave financeiro extrapola a batalha de planilhas em Nova York e chega ao dia a dia de passageiros, funcionários e fornecedores. A Latam é um dos principais canais de deslocamento aéreo no Brasil e na região, o que torna sua estabilidade fator de peso para a malha doméstica, voos internacionais, conexões e programas de fidelidade.

Caso o juiz rejeite o pacote como está e não surja alternativa rápida, a companhia pode ter de cortar capacidade de forma mais agressiva, rever rotas e negociar prazos mais duros com fornecedores. Isso atinge prestadores de serviços em aeroportos, empresas de manutenção, leasing de aeronaves e cadeias logísticas ligadas ao turismo e aos negócios.

Para os empregados, cada rodada de incerteza reacende o temor de novos cortes. Em processos de recuperação desse porte, a preservação de empregos depende diretamente da velocidade e da credibilidade dos acordos financeiros. A oposição dos credores aumenta a pressão por um plano que equilibre a sobrevivência da empresa com a proteção de seus créditos.

Silêncio oficial e próximos passos no tribunal

Até agora, Latam e Oaktree optam pelo silêncio público, o que indica cautela diante de uma negociação que segue em curso e sob escrutínio judicial. O tribunal em Nova York deve analisar a objeção dos credores e ouvir as partes em novas audiências, antes de autorizar ou não o pacote nas condições atuais.

Nos bastidores, a sinalização é que uma saída intermediária ganha força: reduzir o montante do empréstimo para algo próximo dos US$ 2,15 bilhões recomendados por assessores financeiros, ajustar custos e renegociar a mecânica de conversão em ações. Isso poderia reduzir a diluição de acionistas e aumentar a aceitação entre credores.

Se não houver acordo, o cenário fica mais duro. Uma solução de última hora pode envolver venda de ativos relevantes, redução ainda maior da frota ou até discussão sobre cenários extremos, como a falência de parte das operações. A forma como o tribunal equilibra interesses de credores, investidores e acionistas se torna referência para outros casos de grandes empresas aéreas em crise.

Enquanto o impasse não se resolve, passageiros continuam buscando o site oficial da Latam para comprar passagens, fazer check-in e gerenciar reservas. A confiança do público, medida na venda diária de bilhetes e na ocupação dos voos, passa a ser tão estratégica quanto qualquer planilha de financiamento apresentada ao juiz.

Carregar Comentários