Casas Bahia, Marabraz e TokStok: o que está por trás da onda de recuperações judiciais que assusta o varejo brasileiro

Juros altos, crédito mais caro, queda do consumo e falta de capital de giro formaram uma tempestade perfeita que levou empresas tradicionais a pedir proteção da Justiça para evitar a falência.
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Por décadas, nomes como Casas Bahia, Marabraz e TokStok fizeram parte da rotina dos brasileiros. As duas primeiras ajudaram milhões de famílias a mobiliar a casa. A terceira era o sonho de consumo da classe média em grandes capitais como São Paulo.

Agora, essas empresas compartilham outro capítulo de suas histórias: todas recorreram à recuperação judicial para tentar sobreviver.

O movimento não é coincidência. Pelo contrário. Ele revela uma crise mais ampla que vem atingindo o varejo brasileiro e que expõe as dificuldades de um setor altamente dependente de crédito, consumo e confiança do mercado.

Para especialistas ouvidos pela reportagem, a combinação de juros elevados, crédito restrito, aumento dos custos financeiros e mudanças no comportamento do consumidor criou um ambiente especialmente hostil para empresas que já operavam com margens apertadas.

A tempestade perfeita que atingiu o varejo

Quando a taxa de juros sobe, o impacto acontece em duas frentes. Primeiro, o consumidor reduz as compras parceladas. Financiamentos ficam mais caros e a população passa a priorizar despesas essenciais. Depois, a própria empresa sofre. O custo para financiar estoques, renovar mercadorias, captar recursos e pagar dívidas aumenta significativamente. O resultado é uma pressão simultânea sobre as vendas e sobre o caixa.

“O varejo sempre trabalhou com margens muito apertadas. Pequenos desvios podem gerar grandes problemas”, explica Rodrigo Gallegos, sócio de reestruturação da Ritus Partners.

Segundo ele, muitas empresas se endividaram em um período em que o dinheiro era barato. Quando os juros dispararam e o consumo perdeu força, dívidas que antes cabiam no orçamento passaram a se tornar impagáveis.

Casas Bahia: a crise bilionária que acendeu o alerta

Entre os casos recentes, nenhum chama mais atenção que o da Casas Bahia. A companhia entrou com pedido de recuperação judicial declarando uma dívida de R$ 17,3 bilhões, distribuída entre quase 20 mil credores. A deterioração financeira já vinha acontecendo há anos, mas se acelerou nos últimos meses.

A recuperação judicial da Casas Bahia reacendeu uma lembrança recente e traumática para muitos brasileiros: o colapso da Americanas. Afinal, as duas são gigantes do varejo, dependem de crédito, fornecedores e bancos para manter suas operações e acabaram recorrendo à Justiça para renegociar dívidas.
A recuperação judicial da Casas Bahia reacendeu uma lembrança recente e traumática para muitos brasileiros: o colapso da Americanas. Afinal, as duas são gigantes do varejo, dependem de crédito, fornecedores e bancos para manter suas operações e acabaram recorrendo à Justiça para renegociar dívidas. Foto: Via Varejo

Em apenas um ano, a varejista fechou 298 lojas, o equivalente a quase 29% de toda sua estrutura física. Ao mesmo tempo, enfrentou dificuldades para obter crédito e financiar a compra de mercadorias. Com menos produtos disponíveis, os estoques encolheram e as vendas perderam força.

O resultado apareceu no balanço.

A empresa registrou prejuízo de R$ 10,1 bilhões no segundo trimestre deste ano e passou a apresentar patrimônio líquido negativo de R$ 8,27 bilhões. Na prática, isso significa que suas obrigações superam seus ativos.

O sinal de alerta ficou ainda mais forte quando a EY, auditoria responsável pela análise das demonstrações financeiras, afirmou existir incerteza relevante sobre a capacidade de continuidade operacional da companhia.

Isso não representa acusação de fraude, mas indica preocupação sobre a capacidade da empresa de permanecer funcionando caso não consiga reverter seu quadro financeiro.

Marabraz: quando a crise começa dentro de casa

O caso da Marabraz é diferente. A rede entrou em recuperação judicial com dívidas de aproximadamente R$ 140 milhões. Segundo informações apresentadas à Justiça, a origem do problema estaria ligada a disputas societárias e familiares.

Durante décadas, imóveis e galpões pertencentes aos controladores serviam como garantia para obtenção de crédito bancário. Com os conflitos entre os sócios e herdeiros, essas garantias deixaram de existir. Sem proteção adicional, bancos reduziram limites de crédito, aumentaram exigências e encareceram financiamentos.

A Marabraz entrou com pedido de recuperação judicial para renegociar dívida de R$ 140 milhões. Foto: Marabraz/Divulgação
A Marabraz entrou com pedido de recuperação judicial para renegociar dívida de R$ 140 milhões. Foto: Marabraz/Divulgação

A consequência foi um forte aperto no fluxo de caixa da companhia. É um exemplo de como uma crise empresarial nem sempre nasce apenas de fatores econômicos. Questões de governança e conflitos internos também podem comprometer a saúde financeira de uma empresa.

Tok&Stok e Mobly:  fusão não foi suficiente para evitar a crise

Outro caso que chamou atenção do mercado foi o do Grupo Toky, formado após a união entre a Tok&Stok e a Mobly. A companhia entrou em recuperação judicial com um passivo de aproximadamente R$ 1,12 bilhão.

Segundo a empresa, o cenário de forte endividamento das famílias brasileiras, somado à redução do consumo e ao crédito mais caro, afetou diretamente as vendas do setor. Nem mesmo a fusão das duas marcas foi suficiente para neutralizar os efeitos da desaceleração econômica.

O Grupo Toky, formado após a união entre a Tok&Stok e a Mobly entrou em recuperação judicial com um passivo de aproximadamente R$ 1,12 bilhão. Foto: Distribuição
O Grupo Toky, formado após a união entre a Tok&Stok e a Mobly entrou em recuperação judicial com um passivo de aproximadamente R$ 1,12 bilhão. Foto: Distribuição

Nos primeiros meses após o pedido, a companhia enfrentou rupturas de estoque e desafios operacionais, reflexo da cautela de fornecedores e da dificuldade de acesso a novos financiamentos. A aposta do grupo é que a recuperação judicial permita reorganizar as dívidas e recuperar o fôlego financeiro necessário para manter as operações e preservar marcas que continuam entre as mais conhecidas do segmento de móveis e decoração no país.

Estrela: uma marca histórica pressionada pela transformação digital

A fabricante de brinquedos Estrela também entrou para a lista de empresas em recuperação judicial. Neste caso falamos de um grupo industrial, não varejista. Contudo, os passivos que somam R$ 491,6 milhões não poderiam deixar de ser destacados.

Parte  da crise está associada à transformação do mercado de brinquedos e entretenimento. Nas últimas décadas, crianças passaram a dividir sua atenção entre brinquedos físicos, celulares, videogames, aplicativos e plataformas digitais. Além da mudança de hábitos, a concorrência internacional aumentou significativamente.

A fabricante de brinquedos Estrela entrou em recuperação judicial com passivos que somam R$ 491,6 milhões. Foto: Distribuição
A fabricante de brinquedos Estrela entrou em recuperação judicial com passivos que somam R$ 491,6 milhões. Foto: Distribuição

O plano apresentado pela companhia prevê renegociação das dívidas e descontos para parte dos credores, numa tentativa de reorganizar a estrutura financeira e manter a operação funcionando.

Recuperação judicial virou solução ou virou rotina?

Para a advogada Liv Machado Fallet, sócia do escritório Tauil & Chequer, a recuperação judicial deixou de ser vista apenas como sinônimo de fracasso empresarial. Segundo ela, a legislação amadureceu muito nos últimos vinte anos, oferecendo maior segurança jurídica para empresas, credores e investidores.

“A recuperação judicial passou a ser vista como uma ferramenta legítima de reestruturação”, afirma.

Isso não significa, porém, que o mecanismo funcione automaticamente. A especialista alerta que existem casos em que a recuperação judicial apenas prolonga problemas sem resolver suas causas.

O erro que muitas empresas cometem

Na avaliação dos especialistas, existe um padrão recorrente entre empresas que fracassam mesmo após obter proteção judicial. Elas renegociam dívidas, ganham prazo para pagar credores, mas não mudam a operação.

“A recuperação judicial compra tempo. Se a empresa não aproveitar esse tempo para corrigir o negócio, o problema volta”, resume Rodrigo Gallegos.

É por isso que os planos mais bem-sucedidos normalmente incluem fechamento de unidades deficitárias, venda de ativos, redução de custos, revisão da estratégia comercial e até mudanças profundas no modelo de negócios. A renegociação da dívida é apenas uma parte da solução.

Americanas e Casas Bahia: semelhanças terminam no tribunal

Desde que a Casas Bahia entrou com o pedido, muitos consumidores passaram a compará-la à Americanas. Mas os especialistas afirmam que as origens das crises são bastante diferentes. Na Americanas, a recuperação judicial ocorreu após a descoberta de uma fraude contábil que abalou a confiança de bancos, investidores e fornecedores.

Na Casas Bahia, até o momento, não existe qualquer elemento público semelhante. O caso é visto pelo mercado como resultado de deterioração financeira gradual, aumento do endividamento, dificuldades operacionais e pressão dos juros elevados.

“São casos completamente distintos na origem”, afirma Gallegos.

A diferença é importante porque também influencia as soluções. Enquanto a Americanas precisou reconstruir a confiança após a revelação de irregularidades, a Casas Bahia precisa provar que ainda consegue gerar caixa e tornar sua operação sustentável.

O risco de um efeito cascata

Quando uma gigante entra em recuperação judicial, os impactos costumam ir além da própria empresa. Fornecedores que venderam mercadorias e ainda não receberam podem enfrentar dificuldades financeiras.

Em alguns casos, a falta desse pagamento afeta o caixa dessas empresas menores, criando um efeito dominó na cadeia produtiva. Os bancos também reavaliam o risco do setor inteiro. Com isso, o crédito tende a ficar mais caro e mais difícil para outras empresas do mesmo segmento.

“Não significa que todas serão afetadas da mesma forma. Mas o mercado fica mais cauteloso”, explica Gallegos.

O que esperar daqui para frente

Apesar do cenário difícil, especialistas afirmam que empresas como a Casas Bahia ainda possuem ativos valiosos. A marca é conhecida nacionalmente, a estrutura logística continua relevante e a base de clientes permanece expressiva. Mas tradição sozinha não resolve problemas financeiros.

A sobrevivência dessas companhias dependerá da capacidade de executar uma reestruturação profunda, recuperar margens de lucro e reconquistar a confiança de credores, fornecedores e investidores.

A onda de recuperações judiciais observada em 2026 mostra que o problema vai muito além de uma empresa específica. Ela revela um varejo que passou anos operando no limite e que agora enfrenta a conta acumulada de um período marcado por crédito caro, consumo enfraquecido e custos crescentes.

 

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