O Grupo Casas Bahia já eliminou cerca de 43 mil postos de trabalho desde 2010, em meio a um processo de reestruturação marcado por mudanças no varejo, digitalização, juros elevados e dificuldades financeiras.
O levantamento foi realizado com base nos balanços divulgados pela companhia. Em 2010, o grupo tinha 63.320 funcionários. Atualmente, segundo informações apresentadas no pedido de recuperação judicial, são aproximadamente 20 mil trabalhadores.
A redução ocorre em um momento especialmente delicado para a empresa. No domingo (16), o Grupo Casas Bahia entrou com pedido de recuperação judicial para renegociar dívidas estimadas em R$ 17,3 bilhões.

Corte de 3 mil funcionários em agosto
A crise voltou a provocar uma forte redução no quadro de trabalhadores neste mês.
Em agosto, a companhia anunciou a demissão de aproximadamente 3 mil funcionários e o fechamento de quase 300 lojas. As medidas fazem parte do processo de reestruturação da varejista.
A empresa também informou que pretende adaptar sua estrutura ao atual tamanho da operação.
Como a crise começou
Segundo a própria companhia, parte dos problemas atuais tem origem no período posterior à associação com o Ponto Frio, iniciada em 2010.
A integração das operações ocorreu em meio à transformação do mercado varejista, que passou a exigir investimentos cada vez maiores em tecnologia, logística e comércio eletrônico.
A partir de 2019, a empresa intensificou os investimentos na digitalização e no marketplace.
Pandemia e juros altos agravaram cenário
A situação se tornou ainda mais difícil durante a pandemia de Covid-19, quando as lojas físicas precisaram ser fechadas temporariamente.
Naquele período, a empresa acelerou a estratégia digital. O cenário financeiro, porém, mudou rapidamente.
A Selic, que estava em 2% ao ano, chegou a 13,75% em 2021 e alcançou 15% em 2025, aumentando o custo do crédito e pressionando empresas altamente endividadas.
Com juros elevados e inflação, o poder de compra das famílias também foi pressionado, afetando diretamente o consumo de móveis e eletrodomésticos.
Demissões já haviam aumentado em 2023
Em 2023, a Casas Bahia adotou uma série de medidas para tentar reduzir custos.
Entre elas estava o fechamento de 55 lojas consideradas deficitárias. Naquele período, foram realizados 8,6 mil desligamentos, além de uma redução superior a R$ 1 bilhão nos estoques.
A empresa também diminuiu investimentos e reorganizou seus centros de distribuição.
Crise não atinge todo o varejo
Apesar da situação da Casas Bahia, especialistas apontam que os problemas não representam necessariamente uma crise generalizada em todo o varejo brasileiro.
Segundo dados citados pelo Metrópoles, o número de empresas do setor em recuperação judicial aumentou de 819 para 986 entre junho de 2025 e junho de 2026, alta de 20,4%. Ainda assim, o varejo apresenta uma proporção menor de recuperações judiciais em relação a outros grandes setores da economia.
O consultor especializado em varejo Alberto Serrentino avalia que a dificuldade está mais concentrada em grandes empresas altamente endividadas.
“O varejo está crescendo no Brasil”, diz Serrentino. “Existem várias empresas em dificuldade, com muitas delas tomando medidas extremas como a recuperação judicial, e essa situação está relacionada ao longo ciclo de juros altos.”
Casas Bahia se manifesta
Procurada pelo Metrópoles, a Casas Bahia não quis comentar especificamente os números dos cortes, mas enviou uma nota sobre o processo de reorganização.
“A companhia informa que o processo de reorganização envolve diferentes frentes e períodos, e os documentos apresentados no pedido de recuperação judicial contemplam informações mais amplas sobre os desligamentos realizados. Destaca ainda, que medidas adotadas foram necessárias para adequar a estrutura ao novo dimensionamento da operação. A companhia mantém seu foco na execução do plano e na continuidade de suas operações.”
Recuperação judicial
O pedido de recuperação judicial busca permitir que a companhia reorganize suas finanças e negocie com os credores enquanto mantém as operações.
A situação ocorre após a empresa registrar prejuízo de R$ 10,1 bilhões no segundo trimestre de 2026, além de anunciar o fechamento de 298 lojas.
A recuperação judicial não significa, por si só, que a empresa deixará de funcionar. O objetivo é criar um plano para reorganizar as dívidas e permitir a continuidade da atividade empresarial.