Angústia interminável: como a tecnologia tenta reconstruir os últimos passos de desaparecidos em SP

Estado registrou 10.449 desaparecimentos no primeiro semestre de 2026, o equivalente a mais de 23% das ocorrências registradas em todo o país. Caso de Helber Alves de Souza, de 27 anos, mostra o drama de famílias que continuam em busca de respostas
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O Brasil registrou 43.828 desaparecimentos no primeiro semestre de 2026, segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública. O número equivale a uma média de 242 casos por dia e coloca o período como o maior primeiro semestre da série histórica iniciada em 2015.

São Paulo concentra uma parcela significativa desses registros. Foram 10.449 desaparecimentos no estado entre janeiro e junho, o equivalente a mais de 23% das ocorrências registradas em todo o país. A média paulista chegou a cerca de 57 casos por dia.

Por trás desses números estão casos que continuam sem resposta. Em São Paulo, um deles é o de Helber Alves de Souza, de 27 anos, desaparecido desde 23 de dezembro de 2025. O jovem foi visto pela última vez na região da Cidade Jardim, na Zona Oeste da capital, e a família ainda tenta descobrir o que aconteceu naquela noite.

O dia do desaparecimento 

Helber é o caçula de três irmãos e trabalhava com audiovisual, fotografia, filmagem e comunicação. Aos 27 anos, também era pai de Helena, de sete anos, com quem tinha uma relação próxima. Na noite de 23 de dezembro de 2025, ele foi até a casa da irmã, Kelly Alves Souza, e deixou o local sem dizer para onde iria.

A família conseguiu reconstruir parte do trajeto por meio da localização da conta Google de Helber. Os dados apontaram que ele esteve na região da Estação Cidade Jardim, onde imagens de câmeras o registraram sozinho por cerca de duas horas. A última imagem conhecida mostra o jovem deixando a estação em direção a um canteiro lateral. Depois disso, não houve novos registros. Segundo Kelly, também não foram identificadas movimentações no celular ou nas contas bancárias.

“O que a gente tem de informação sobre o Helber se encerra naquela madrugada do dia 24. Depois disso, a polícia não passou mais nenhuma informação para a família, não apareceu nenhum novo rastro, ele não foi visto em outro lugar, o celular não voltou a funcionar e também não houve movimentação nas contas. De fato, aquele é o último sinal que a gente tem dele”, relembra Kelly.

Kelly com seu irmão – Foto: Arquivo pessoal

A preocupação aumentou no dia de Natal

Durante o dia 24, a família ainda acreditava que Helber poderia estar na casa de algum amigo ou ter saído para resolver alguma coisa. A situação mudou no fim da tarde, quando Kelly tentou entrar em contato com o irmão para saber se ele iria buscar Helena, como havia combinado.

A mensagem não foi entregue. A família passou a noite de Natal tentando localizar Helber e, no dia seguinte, começou a procurar as autoridades e a divulgar o desaparecimento.

“A gente percebeu que alguma coisa estava errada quando chegou o dia 24 e ele não apareceu para buscar a Helena. Ele era muito responsável com ela e costumava cumprir os combinados que tinha com a filha. Quando mandei mensagem e ela nem chegou, eu, minha mãe e a família da Helena ficamos muito preocupados. No dia 25, começamos a procurar a polícia, os amigos e também a divulgar a foto dele”, conta Kelly.

As imagens de Helber passaram a circular pelas redes sociais nos dias seguintes, com ajuda de amigos e páginas que divulgaram o caso. Mesmo com a mobilização, nenhuma informação levou ao paradeiro do jovem.

O que aconteceu na delegacia?

Segundo Kelly, a família tentou registrar o desaparecimento no dia 25 de dezembro, mas recebeu inicialmente a orientação de aguardar. Diante da preocupação, o boletim de ocorrência foi registrado pela internet e, alguns dias depois, os familiares foram até uma delegacia para prestar depoimento e acompanhar a investigação. A partir de informações encontradas nas contas e equipamentos de Helber, a família também conseguiu reconstruir parte dos últimos passos do jovem, que teria seguido sozinho para a região da Cidade Jardim.

“A gente ouviu que deveria aguardar porque era Natal e poderia ser que ele estivesse passeando ou na casa de alguém. Só que eu não queria esperar, porque alguma coisa estava diferente. Então fizemos o boletim de ocorrência online naquela noite. Depois, fomos até a delegacia, fomos ouvidos e começamos a acompanhar a investigação de fato.”

Kelly afirma ainda que, nos primeiros meses, a família recebia informações da polícia quando surgiam possíveis pistas. Segundo ela, porém, o contato diminuiu com o passar do tempo e hoje o acompanhamento ocorre principalmente por meio dos advogados.

“No começo, quando aparecia alguma informação, a polícia entrava em contato com a gente. Isso funcionou mais ou menos nos dois primeiros meses. Depois, eu deixei de receber ligações e mensagens. Hoje, o contato acaba acontecendo mais por meio dos advogados, que procuram a delegacia para tentar acompanhar o andamento do caso”, pontua a irmã de Helber.

Tecnologia também entrou na busca

Em uma cidade com milhões de habitantes e uma extensa rede de monitoramento, a tecnologia passou a ser uma das ferramentas utilizadas na tentativa de localizar pessoas desaparecidas.

O Smart Sampa, da Prefeitura de São Paulo, reúne atualmente 50 mil câmeras instaladas em pontos estratégicos da capital, segundo a Secretaria Municipal de Segurança Urbana.

O sistema utiliza inteligência artificial e reconhecimento facial como ferramentas de apoio para localizar pessoas desaparecidas.

As imagens captadas pelas câmeras são cruzadas com o banco de dados da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania (SMDHC). Quando o sistema identifica uma possível correspondência com uma pessoa cadastrada como desaparecida, é gerado um alerta.

Segundo a Secretaria Municipal de Segurança Urbana, o sistema gera alertas quando há 85% de compatibilidade com pessoas cadastradas como desaparecidas. Antes de qualquer abordagem, porém, os alertas passam por validação humana.

A Prefeitura também busca ampliar a integração com outros bancos de dados. A atual gestão firmou um termo de cooperação com os Ministérios Públicos de São Paulo e do Rio de Janeiro para integração com o Sistema Nacional de Localização e Identificação de Desaparecidos (SINALID).

Segundo a Secretaria Municipal de Segurança Urbana, o Smart Sampa opera de acordo com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), com controle de acesso, rastreabilidade das operações e uso restrito a agentes autorizados.

Pessoas localizadas

O Smart Sampa mantém um painel público com dados sobre as pessoas localizadas pelo sistema. Até 21h30 desta quarta-feira (19), o Prisômetro registrava 250 pessoas desaparecidas localizadas.

A Secretaria Municipal de Segurança Urbana informou à reportagem que, desde o início da operação, o Smart Sampa já contribuiu para a localização de cerca de 248 pessoas desaparecidas. A diferença em relação ao painel público pode estar relacionada à atualização dos dados em momentos diferentes.

O número mostra a participação da tecnologia nas buscas, mas não significa que todos os desaparecimentos possam ser solucionados por meio das câmeras.

Uma cidade monitorada não significa cobertura total

A existência de milhares de câmeras não significa que todos os trajetos de uma pessoa possam ser reconstruídos.

A identificação depende de fatores como o local onde a pessoa passou, a cobertura dos equipamentos, a qualidade das imagens, o tempo de permanência em cada ponto e a possibilidade de cruzamento das informações disponíveis.

No caso de Elber, as imagens ajudaram a estabelecer que ele esteve na região da Cidade Jardim. Mas, até o momento, segundo a família, elas não foram suficientes para explicar o que aconteceu depois que ele deixou a estação.

Oito meses depois e a busca continua

Helber desapareceu há quase oito meses. Nesse período, a família procurou informações, divulgou imagens, buscou registros e percorreu diferentes regiões da capital na tentativa de encontrar alguma pista. Para Kelly, a ausência do irmão também aparece nos detalhes da rotina.

“Eu sinto falta de tudo. Sinto falta do domingo em família, dos convites de sexta-feira, das coisas que ele fazia com os amigos. Quando a Helena vem para a minha casa, também existe aquela lembrança, porque antes era ele quem a trazia. Não é só a falta do irmão. São todos os detalhes, o amor e a troca que existiam. Tudo faz falta”, desabafa Kelly.

A família continua procurando por Helber e espera que alguma nova informação possa ajudar a esclarecer o que aconteceu naquela madrugada.

Helber Alves de Souza, de 27 anos, desaparecido desde 23 de dezembro de 2025 – Foto: Arquivo pessoal

Entenda o contexto

O Brasil registrou 43.828 desaparecimentos no primeiro semestre de 2026, uma média de 242 casos por dia. No mesmo período, 28.870 pessoas foram localizadas, segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública.

Em São Paulo, foram 10.449 desaparecimentos entre janeiro e junho, o maior número entre os estados brasileiros.

Na capital paulista, o Smart Sampa é uma das ferramentas utilizadas para auxiliar na localização de pessoas desaparecidas. O sistema reúne 50 mil câmeras e utiliza inteligência artificial e reconhecimento facial para gerar alertas que passam por validação humana.

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