Fundador da Evergrande é condenado à prisão perpétua na China por crimes financeiros

Decisão judicial agrava crise no setor imobiliário chinês e impacta mercados internacionais.
Redação NC News
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O fundador da Evergrande, Hui Ka Yan, foi condenado nesta quinta-feira (20) à prisão perpétua por crimes financeiros relacionados ao colapso do conglomerado imobiliário chinês. A sentença foi proferida por um tribunal de Shenzhen, que também determinou o confisco de todos os bens pessoais do empresário.

Hui, de 67 anos, foi considerado culpado por crimes que incluem fraude financeira, uso indevido de recursos e captação ilegal de depósitos públicos. A condenação representa o capítulo criminal mais importante da derrocada de um empresário que chegou a ser considerado o homem mais rico da China.

A Evergrande entrou em colapso depois de anos de expansão baseada em elevado endividamento. A crise da companhia se tornou um dos principais símbolos da desaceleração do mercado imobiliário chinês e deixou centenas de bilhões de dólares em dívidas.

Sentença ocorre após o colapso do maior grupo imobiliário da China

A decisão do tribunal de Shenzhen encerra uma das etapas mais importantes do processo criminal contra Hui Ka Yan.

Segundo informações divulgadas após o julgamento, o empresário se declarou culpado em abril por diferentes crimes financeiros. A Justiça chinesa também aplicou multas bilionárias à Evergrande e à sua subsidiária Hengda Real Estate: 8,82 bilhões de yuans para a Evergrande e 7 bilhões de yuans para a Hengda. Outros executivos também receberam penas de prisão.

A condenação está diretamente ligada às práticas que ajudaram a mascarar a situação financeira do grupo. O tribunal apontou fraude em larga escala envolvendo a inflação de ativos e a ocultação de passivos.

A decisão também determina o confisco dos bens pessoais de Hui e reforça a dimensão da punição aplicada ao empresário.

De símbolo do mercado imobiliário a uma empresa em liquidação

A Evergrande foi fundada em 1996 e cresceu rapidamente durante o boom imobiliário chinês. O grupo expandiu seus negócios por diferentes setores e se tornou uma das maiores incorporadoras do país.

O modelo, porém, dependia de uma estrutura altamente alavancada. A companhia acumulou uma dívida superior a US$ 300 bilhões e entrou em default em 2021, provocando uma crise que se espalhou pelo mercado imobiliário chinês.

Em janeiro de 2024, um tribunal de Hong Kong determinou a liquidação da China Evergrande Group após a empresa não apresentar um plano considerado viável para resolver sua situação financeira. As ações da companhia estavam suspensas desde aquele mês.

Em agosto de 2025, a Bolsa de Hong Kong cancelou definitivamente a listagem das ações da Evergrande. A companhia passou a figurar oficialmente como uma empresa em liquidação.

Projetos, credores e compradores ficaram no centro da crise

O colapso da Evergrande deixou consequências que vão muito além do mercado de capitais.

A empresa acumulou dívidas com bancos, fornecedores, investidores e compradores de imóveis. A dificuldade para concluir projetos habitacionais aumentou a pressão sobre autoridades chinesas, que passaram a tentar limitar os efeitos da crise sobre compradores de apartamentos e sobre o setor financeiro.

A falência da incorporadora também atingiu empresas e projetos que cresceram durante o período de expansão do grupo.

A dimensão da crise fez da Evergrande um dos principais exemplos dos riscos associados ao modelo de crescimento baseado em forte endividamento no mercado imobiliário chinês.

O fim do império também chegou ao futebol

O impacto da crise alcançou ainda o futebol chinês.

O Guangzhou FC, antigo Guangzhou Evergrande, tornou-se uma das maiores forças do futebol asiático durante o período de expansão da empresa. O clube conquistou títulos nacionais e continentais e contratou nomes de destaque internacional, incluindo Luiz Felipe Scolari, Paulinho e outros jogadores estrangeiros.

Com o agravamento da crise financeira da controladora, porém, o clube perdeu capacidade de investimento e acumulou problemas financeiros.

Em janeiro de 2025, o Guangzhou FC foi excluído das competições profissionais chinesas por não cumprir os requisitos financeiros exigidos para a temporada. O clube posteriormente foi dissolvido.

A queda do time se tornou um dos símbolos mais visíveis do fim da era de grandes investimentos de empresas imobiliárias no futebol chinês.

Condenação aumenta pressão sobre o mercado imobiliário

A prisão perpétua de Hui ocorre enquanto o setor imobiliário chinês ainda enfrenta dificuldades.

A crise da Evergrande não ficou restrita à companhia. A queda nas vendas de imóveis, o elevado endividamento de incorporadoras e a redução da confiança de compradores afetaram outras empresas do setor e contribuíram para uma desaceleração mais ampla do mercado imobiliário.

A dimensão da dívida da Evergrande fez com que sua quebra fosse acompanhada de perto por bancos, investidores e credores internacionais. O processo de liquidação busca transformar os ativos restantes em recursos para reduzir parte das perdas, mas não representa uma solução integral para todos os débitos acumulados.

A condenação de Hui, portanto, tem peso criminal e simbólico, mas não resolve por si só a complexa situação financeira deixada pela empresa.

O que a condenação representa para a China

A sentença transforma Hui Ka Yan em um dos exemplos mais contundentes da mudança de cenário no mercado imobiliário chinês.

Durante anos, incorporadoras cresceram rapidamente com acesso a crédito e forte expansão de projetos. A Evergrande levou esse modelo ao extremo, construindo um império que chegou a registrar vendas anuais próximas de US$ 100 bilhões em seu auge.

O colapso mostrou, porém, o custo de uma expansão sustentada por níveis elevados de endividamento.

Para investidores e credores, o caso reforça a importância de avaliar a qualidade dos ativos e a estrutura de financiamento das grandes incorporadoras chinesas. Para compradores de imóveis, a crise deixou uma lição ainda mais concreta: o tamanho e a fama de uma empresa não garantem que seus projetos serão concluídos.

A trajetória de Hui Ka Yan resume essa transformação. O empresário que construiu um dos maiores impérios imobiliários da China terminou condenado à prisão perpétua, enquanto a companhia que ajudou a criar permanece em processo de liquidação.

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