O mercado brasileiro de fertilizantes entrou em uma fase de movimentos diferentes entre os principais nutrientes. Enquanto a ureia, um dos nitrogenados mais utilizados na agricultura, perdeu valor, os fertilizantes fosfatados continuam pressionados pelo custo elevado do enxofre, uma de suas principais matérias-primas.
A ureia recuou 14% e voltou para a faixa de US$ 415 por tonelada, segundo análise da Consultoria Agro do Itaú BBA, divulgada nesta quinta-feira (20).
A notícia é positiva para o produtor, mas precisa ser interpretada com cuidado: a redução não aconteceu de maneira uniforme em todo o mercado de fertilizantes.
Por que a ureia caiu?
A ureia faz parte do grupo dos fertilizantes nitrogenados e é uma importante fonte de nitrogênio para as plantas.
A queda recente das cotações melhora a relação de troca para o produtor e pode abrir espaço para novas compras, especialmente para aqueles que ainda não fecharam todo o volume necessário para a próxima safra.
O movimento também ocorre em um mercado internacional que continua bastante sensível a oferta, demanda, logística e questões geopolíticas.
O Brasil depende fortemente das importações para abastecer sua agricultura. Por isso, o comportamento das cotações internacionais rapidamente chega ao mercado brasileiro.
O problema está nos fosfatados
Enquanto a ureia recuou, o cenário é diferente para os fertilizantes fosfatados.
Produtos como MAP e SSP continuam enfrentando pressão de custos, principalmente em razão do preço do enxofre.
O enxofre é uma matéria-prima importante para a fabricação de fertilizantes fosfatados. Quando ele sobe, o impacto pode ser transmitido para toda a cadeia de produção desses insumos.
É justamente essa combinação que explica o contraste atual: ureia mais barata, mas fósforo ainda pressionado.
E por que isso importa para a safra?
Fertilizantes estão entre os componentes mais importantes da formação do custo agrícola.
Antes de plantar, o produtor precisa tomar uma série de decisões: quanto comprar, quando comprar, qual formulação utilizar e quanto da necessidade da lavoura será antecipada.
Por isso, uma mudança de preço pode alterar diretamente a relação de troca, ou seja, quanto da produção será necessário para pagar determinada quantidade de fertilizante.
Quando o insumo fica mais barato em relação ao preço da commodity produzida, a situação tende a melhorar para o agricultor.
Mas, quando um dos nutrientes permanece caro, o alívio pode ser apenas parcial.
O produtor brasileiro continua exposto ao mercado internacional
A dependência externa é um dos pontos mais importantes dessa equação.
O Brasil possui uma agricultura de grande escala, mas ainda importa parcela significativa dos fertilizantes utilizados nas lavouras.
Isso significa que fatores que acontecem a milhares de quilômetros das propriedades brasileiras podem interferir no custo de produção.
Uma alteração na oferta de enxofre, uma restrição às exportações de um grande produtor, um problema logístico ou uma tensão geopolítica podem repercutir no preço pago pelo produtor brasileiro.
Foi exatamente esse tipo de vulnerabilidade que ficou evidente nos últimos anos.
Geopolítica também entra na conta
O mercado de fertilizantes é global e bastante concentrado.
Regiões como Oriente Médio, Rússia, China e Norte da África têm participação importante na produção e no comércio internacional de diferentes nutrientes e matérias-primas.
Por isso, a agricultura brasileira acompanha não apenas o preço da soja, do milho ou do algodão, mas também decisões tomadas por governos, empresas e produtores em outros continentes.
A logística também pesa.
Os fertilizantes precisam chegar aos portos brasileiros e depois ser distribuídos até as regiões produtoras. Qualquer aumento de frete ou dificuldade de abastecimento pode acrescentar custos antes mesmo de o produto chegar à propriedade.
Nem sempre esperar é a melhor estratégia
Com a queda da ureia, o produtor que ainda precisa comprar parte do insumo passa a ter uma oportunidade de melhorar sua relação de troca.
Mas o cenário dos fosfatados recomenda cautela.
A própria análise do Itaú BBA destaca que a combinação entre oferta internacional restrita e enxofre mais caro mantém esses produtos sob pressão.
Por isso, o planejamento das compras ganha importância.
Não se trata simplesmente de comprar tudo antecipadamente ou esperar uma queda.
A decisão depende da cultura, da região, da necessidade de cada propriedade, do espaço disponível para armazenamento e, principalmente, da relação entre preço do fertilizante e preço esperado da produção.
E o impacto chega ao alimento
O preço do fertilizante pode parecer uma questão distante do consumidor, mas está na origem de uma parcela importante do custo de produção agrícola.
Quando o custo de adubação sobe, aumenta a pressão sobre a margem do produtor.
Se essa pressão se prolonga, pode influenciar decisões de plantio, investimento e tecnologia.
No longo prazo, isso pode repercutir sobre a oferta de determinadas culturas e, consequentemente, sobre os preços ao longo da cadeia.
Por outro lado, quando os fertilizantes ficam mais competitivos, o produtor ganha espaço para preservar margem e manter investimentos na lavoura.
Um mercado de olho no próximo movimento
O cenário atual não permite falar simplesmente em “fertilizantes mais baratos”.
A leitura mais correta é outra: alguns nutrientes estão oferecendo alívio, enquanto outros continuam pressionando a conta da safra.
A ureia voltou para a faixa de US$ 415 por tonelada, mas o enxofre mantém os fosfatados em um ambiente mais apertado.
Para o produtor brasileiro, acompanhar essa diferença pode fazer a diferença entre uma compra bem planejada e um custo maior de produção.
Porque, no campo, não basta saber se o adubo subiu ou caiu. É preciso saber qual adubo, quanto ele representa na lavoura e como está a relação com o preço daquilo que será colhido.
Fonte: Consultoria Agro do Itaú BBA.