O ministro da Fazenda, Dario Durigan, subiu o tom contra a forma como o mercado financeiro e as apostas foram regulados no Brasil nos últimos anos. Em entrevista nesta sexta-feira (21), ele classificou o cenário deixado pelo governo anterior como uma “anarquia regulatória” e defendeu uma atuação mais rígida do Estado.
Ao falar sobre as bets, Durigan foi ainda mais direto: afirmou que é contrário aos jogos de aposta e disse que não gosta desse tipo de atividade.
O que Durigan chamou de “anarquia regulatória”?
Segundo o ministro, a falta de regras mais rígidas em determinados setores criou brechas que acabaram trazendo problemas para o país.
Durigan citou principalmente fintechs, empresas que utilizam tecnologia para oferecer serviços financeiros, e o mercado de apostas.
“A gente olha a situação de fintech, a situação da desregulação que foi feita e depois a gente vê o que acontece com Banco Master, com Reag, dentro da Operação Carbono Oculto.”
Na avaliação do ministro, esses episódios seriam exemplos das consequências do que chamou de “anarquia regulatória promovida pelo governo anterior e Banco Central anterior”.
Operação Carbono Oculto entrou no debate
Um dos casos citados por Durigan foi a Operação Carbono Oculto, deflagrada em agosto de 2025 pela Receita Federal, Ministério Público de São Paulo e Polícia Federal.
A investigação mirou um esquema bilionário de lavagem de dinheiro e sonegação fiscal ligado ao Primeiro Comando da Capital (PCC), com participação de empresas do setor financeiro.
O ministro utilizou o caso para defender uma fiscalização mais rigorosa sobre empresas que atuam no sistema financeiro.
Desde o início do governo Lula, algumas regras para fintechs foram endurecidas. Entre as mudanças está o enquadramento dessas empresas como instituições de pagamento, aumentando o controle sobre as operações.
E as bets? Durigan não escondeu a posição
Quando o assunto passou para as empresas de apostas, o ministro deixou de lado qualquer tom de dúvida.
Durigan afirmou ser contrário aos jogos e disse que o Estado precisa proteger a população.
“A minha posição em relação ao jogo é bastante diferente desse ex-ministro da economia [Paulo Guedes] que você mencionou.”
Na sequência, defendeu que o mercado não pode funcionar sem limites.
“Nós temos de ter cuidado com a nossa população e não deixar as coisas correrem soltas.”
E resumiu sua posição:
“A minha posição é contrária ao jogo. Não gosto do jogo.”
A declaração coloca Durigan em uma posição claramente crítica ao setor de apostas, justamente em um momento em que o mercado de bets passou por um processo de regulamentação e fiscalização mais intenso no Brasil.
Por que as bets viraram um problema regulatório?
As apostas esportivas e os jogos on-line cresceram rapidamente no país nos últimos anos. Com a expansão do mercado, aumentaram também os debates sobre publicidade, proteção de consumidores, lavagem de dinheiro, endividamento e acesso de pessoas vulneráveis às plataformas.
A discussão deixou de ser apenas sobre esporte e entretenimento. Passou também a envolver saúde financeira das famílias, fiscalização tributária e segurança do sistema financeiro.
É nesse ponto que a fala de Durigan ganha peso: para o ministro, a questão não é simplesmente permitir ou proibir uma atividade econômica, mas definir até onde o Estado deve atuar para impedir abusos.
O debate também envolve os juros
A crítica de Durigan à regulação apareceu durante uma entrevista em que o ministro também falou sobre os juros elevados no Brasil.
Ele voltou a criticar o custo do crédito, principalmente as taxas cobradas no cartão e no crediário. O rotativo do cartão chegou a 442,4% ao ano, segundo dados do Banco Central divulgados em julho.
Para Durigan, juros elevados dificultam a vida das famílias e precisam ser enfrentados junto com outros problemas estruturais da economia.
Isso conecta os dois temas levantados pelo ministro: de um lado, um mercado financeiro que precisa de regras mais claras; de outro, consumidores que enfrentam crédito extremamente caro.
O que muda daqui para frente?
A tendência é que o governo continue ampliando a fiscalização sobre setores considerados mais vulneráveis a irregularidades.
No caso das fintechs, o objetivo é aumentar o controle sobre as operações financeiras. No mercado de apostas, a regulamentação busca estabelecer limites para empresas, publicidade e consumidores.
A posição pessoal de Durigan, porém, vai além da fiscalização: ele é contrário aos jogos de aposta.
O debate deve continuar especialmente porque as bets já ocupam um espaço relevante no mercado brasileiro e envolvem interesses econômicos, arrecadação, publicidade e proteção ao consumidor.
ENTENDA O CONTEXTO
A fala de Dario Durigan ocorre em meio a uma discussão mais ampla sobre quanto o Estado deve regular setores que cresceram rapidamente no Brasil.
O ministro responsabiliza decisões tomadas no período anterior por parte dos problemas atuais e defende uma atuação mais rígida.
A oposição política, por outro lado, tende a questionar essa interpretação e o alcance das medidas adotadas pelo governo.
No caso das bets, a discussão é ainda mais sensível: regular significa permitir a atividade dentro de determinadas regras, enquanto a posição pessoal de Durigan é contrária aos jogos.
O ponto central agora é saber até onde o governo pretende avançar na fiscalização e quais serão os efeitos dessas regras sobre empresas, consumidores e o mercado financeiro.