Uma mansão no Lago Sul, em Brasília, que aparece nas investigações envolvendo a lobista Roberta Luchsinger e Fábio Luís da Silva, o Lulinha, foi alugada em nome de um terceiro: o dentista Rafael Nicolau Fioruci Arbex.
Segundo apuração do jornal O Globo, Roberta participou das negociações para alugar o imóvel, mas não apareceu como locatária no contrato intermediado pela imobiliária responsável pela negociação. O documento também teria incluído uma cláusula de confidencialidade.
O nome do dentista chama atenção porque Arbex foi testemunha de Fernando Bittar no processo da Lava-Jato relacionado ao sítio de Atibaia.
Quem assinou o contrato da mansão?
A casa fica em um condomínio fechado às margens do Lago Sul, uma das regiões mais valorizadas de Brasília.
O imóvel tem três quartos e cerca de 2.110 metros quadrados. A imobiliária TRK, responsável pela primeira intermediação da locação, informou ao jornal que Roberta visitou a propriedade e participou das conversas sobre o aluguel.
Apesar disso, quem apareceu como locatário no contrato foi Rafael Nicolau Fioruci Arbex. A imobiliária afirmou ainda que Roberta nunca foi locatária em nenhum contrato intermediado pela empresa.
Depois dessa primeira locação, segundo a TRK, eventuais novos contratos e tratativas passaram a ser conduzidos diretamente entre o proprietário e os envolvidos.

Fonte: O GLOBO / Imobiliária TRK.
O que diz a imobiliária
Em resposta, a TRK afirmou que, em 2024, fez apenas a intermediação da primeira locação da casa e que o locatário registrado no contrato era Rafael Nicolau Fioruci Arbex.
A empresa também declarou que Roberta participou das tratativas, mas “nunca foi locatária em nenhum contrato intermediado pela TRK”.
Segundo a imobiliária, após essa primeira locação, as negociações seguintes passaram a ocorrer diretamente entre o proprietário e os envolvidos, sem participação da empresa.
Dentista foi testemunha de Bittar na Lava-Jato
O nome de Rafael Nicolau Fioruci Arbex chama atenção por sua relação anterior com Fernando Bittar, amigo de longa data de Lulinha e proprietário formal do sítio de Atibaia investigado pela Lava-Jato.
Bittar era o dono formal da propriedade que foi utilizada pela família do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Durante o processo, a Polícia Federal apontou que o sítio havia passado por obras de reforma realizadas por empreiteiras como Odebrecht, OAS e Schahin, além do pecuarista José Carlos Bumlai. Segundo perícia da PF citada no processo, os serviços custaram cerca de R$ 1,2 milhão, em valores da época.
Lula afirmou que não tinha relação com a propriedade. Em 2019, ele chegou a ser condenado pela Justiça Federal no caso, mas a condenação foi posteriormente anulada pelo Supremo Tribunal Federal, em 2021.
Arbex foi ouvido em 2018 pela 13ª Vara Federal de Curitiba como testemunha de Fernando Bittar.
Na ocasião, segundo O GLOBO, o dentista afirmou que morava gratuitamente no sítio a convite de Bittar. Ele também negou que a família de Lula frequentasse o local.
No depoimento, Arbex disse conhecer Lulinha e Fernando Bittar havia cerca de 25 anos. A relação entre as famílias também aparece no histórico pessoal: Lilian, mulher de Bittar, é prima do dentista.
Proprietário diz ter assinado contrato de confidencialidade
O proprietário da casa também foi procurado pela equipe de O GLOBO.
Segundo informações divulgadas pela colunista Bela Megale, o imóvel teria sido alugado por R$ 28 mil.
O proprietário, no entanto, não quis fornecer informações sobre a locação. Ele afirmou ter assinado um contrato de confidencialidade.
A existência da cláusula ajuda a explicar por que os detalhes sobre quem efetivamente utilizava a residência não aparecem de forma direta no primeiro contrato de aluguel.
O que dizem as defesas
O advogado Roberto Podval, que representa Roberta Luchsinger, foi procurado mas não respondeu até o fechamento da reportagem. O espaço permanece aberto para manifestação.
Já a defesa de Lulinha, comandada pelo advogado Marco Aurélio Carvalho, afirma que o filho do presidente Lula nunca morou na mansão do Lago Sul.
A defesa também sustenta que Lulinha não cometeu irregularidades e não participou de reuniões com empresários ligados à lobista.
A versão apresentada pela defesa contrasta com relatos obtidos durante as investigações sobre a utilização da residência.
Foto publicada por Roberta nas redes sociais
Em 18 de dezembro de 2025, quando Roberta Luchsinger foi alvo de uma das etapas da Operação Compliance Zero, que investiga fraudes relacionadas ao INSS, ela publicou uma imagem nas redes sociais que chamou a atenção dos investigadores.
Na foto, aparecem os pés de uma pessoa diante da piscina da casa localizada em Brasília. Na legenda, Roberta escreveu:
“Aos mentirosos, apenas a justiça”.

A imagem foi publicada por Roberta em um story do Instagram e corresponde à residência do Lago Sul.
Funcionários relatam reuniões discretas na casa
Três funcionários de Roberta relataram que a lobista realizava reuniões discretas no imóvel.
Segundo esses relatos, a residência não era utilizada como moradia permanente. Uma empregada doméstica que trabalhou durante sete meses na casa afirmou que Roberta e Lulinha frequentavam o imóvel pelo menos duas vezes por mês.
A funcionária, Zildeni Souza, também relatou que Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola e ex-chefe de gabinete do presidente Lula, teria participado de um dos encontros.
Os relatos fazem parte do conjunto de informações analisadas nas investigações e são atribuídos às testemunhas ouvidas no caso.
Joias também aparecem nas investigações
Roberta também aparece nas investigações por despesas que teria realizado em benefício de Marcola.
A lobista comprou uma joia avaliada em cerca de R$ 9 mil para que o ex-chefe de gabinete de Lula desse o presente no Dia das Mães. A compra estaria entre outras despesas de Marcola pagas por Roberta.
De acordo com a defesa dele, os gastos custeados pela lobista chegaram a aproximadamente R$ 249 mil. Marcola afirmou que já devolveu o dinheiro a Roberta.
O que a investigação tenta esclarecer
A relação entre a locação da casa, Roberta Luchsinger, Lulinha e outras pessoas citadas nas investigações passou a ser analisada pelas autoridades dentro de um conjunto maior de apurações.
O ponto central é entender quem efetivamente utilizava o imóvel, qual era a finalidade dos encontros realizados no local e qual a relação entre as pessoas que frequentavam a residência.
A documentação da primeira locação indica Rafael Nicolau Fioruci Arbex como locatário, enquanto a imobiliária confirma que Roberta participou das negociações.
Ao mesmo tempo, relatos de funcionários e uma publicação feita pela própria lobista nas redes sociais colocam a residência no centro das investigações sobre sua atuação e seus contatos.