Presidente de grupo de hospitais é afastado após denúncias de crimes sexuais e relatos de intimidação

Fernando José Moredo, de 85 anos, é acusado por ao menos quatro funcionárias; Justiça de São Paulo revogou decisão que permitia sua permanência no comando do Grupo Trasmontano durante a apuração
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O presidente do Grupo Trasmontano Saúde, Fernando José Moredo, de 85 anos, foi novamente afastado do comando da instituição após uma decisão da Justiça de São Paulo.

O empresário é alvo de acusações feitas por ao menos quatro funcionárias, que relatam episódios de cunho sexual que teriam ocorrido ao longo de anos.

A decisão judicial ocorreu depois que representantes da empresa relataram que Moredo teria adotado abordagens intimidatórias contra funcionários envolvidos na apuração, além de ameaçar rescindir contratos de denunciantes e tentar interferir na condução do procedimento interno. As acusações ainda estão em fase de apuração e não representam uma condenação.

Justiça havia autorizado retorno ao cargo

O caso ganhou um novo capítulo nesta semana. Na segunda-feira (17), Moredo foi impedido por funcionários de entrar no Hospital Igesp, onde mantém seu escritório. A polícia chegou a ser acionada.

No dia seguinte, uma decisão do juiz Fernando José Cúnico, da 40ª Vara Cível de São Paulo, havia permitido que o empresário voltasse a exercer a presidência do grupo até a conclusão da apuração.

A situação mudou na quinta-feira (20).

Segundo informações apresentadas à Justiça, após retornar ao hospital, Moredo teria constrangido colaboradores envolvidos na investigação, ameaçado rescindir contratos de denunciantes e articulado nomeações dentro da instituição.

Diante dos novos relatos, o magistrado revogou a decisão anterior e retirou a garantia de permanência do empresário no cargo.

Quatro funcionárias fizeram denúncias

As acusações começaram a ser apresentadas no fim de maio. Uma comissão interna foi criada para analisar os relatos e decidiu pela destituição de Moredo da presidência.

Ao menos quatro depoimentos foram gravados durante a apuração interna. Novos relatos também chegaram ao Ministério Público, que recebeu uma notícia-crime relacionada ao caso.

As funcionárias descrevem comentários de teor sexual, tentativas de toques indesejados e perguntas sobre a intimidade de suas vidas matrimoniais. Alguns relatos também mencionam episódios com conotação racista.

Segundo os depoimentos, os comportamentos teriam se repetido durante anos.

Uma das testemunhas afirmou que os episódios teriam se estendido por quase 25 anos. O relato aponta que funcionárias chegaram a adotar estratégias para evitar ficar sozinhas com o presidente, inclusive interrompendo reuniões individuais.

Também teria havido preocupação em evitar que jovens aprendizes permanecessem sozinhas com Moredo.

De acordo com o depoimento, um grupo de funcionárias teria sido chamado pelo empresário de “as virgenzinhas” ou “minhas virgens lindas”.

Algumas mulheres também afirmaram que comunicaram episódios a superiores, mas teriam sido desestimuladas a levar as denúncias adiante.

Defesa nega acusações e fala em complô

A defesa de Fernando José Moredo nega as acusações e afirma que o empresário é vítima de um complô articulado pela primeira denunciante.

Segundo os advogados, a funcionária teria procurado outras trabalhadoras para apresentar declarações falsas com o objetivo de afastá-lo da presidência.

Moredo também apresentou uma representação contra a primeira denunciante na Polícia Civil, atribuindo a ela o crime de denunciação caluniosa.

O advogado Miguel Silva afirmou que as denúncias teriam sido motivadas por uma disputa interna.

“São denúncias direcionadas para afastar o sr. Fernando do cargo de presidente.”
A defesa também sustenta que não teve acesso integral aos documentos e às gravações utilizados na apuração interna.

O que acontece agora?

A Justiça determinou anteriormente a suspensão do procedimento interno para que a defesa pudesse analisar os documentos relacionados às acusações.

A decisão também determinou o afastamento de um integrante da comissão, que havia sido acusado de ameaçar de morte o presidente do grupo.

Agora, com a revogação da decisão que garantia a permanência de Moredo no cargo, a disputa judicial continua. A defesa informou que pretende recorrer da decisão.

O Ministério Público também recebeu novos relatos sobre o caso, e a apuração segue em andamento.

Importante: até o momento, as acusações descritas na reportagem são objeto de investigação. Não há condenação definitiva contra Fernando José Moredo pelos fatos relatados.

Fundado em 1932, o Grupo Trasmontano Saúde surgiu para prestar assistência a imigrantes portugueses em São Paulo.

A instituição controla unidades do Hospital Igesp, incluindo dois hospitais e cinco unidades de pronto atendimento, além de atuar no setor de planos de saúde e na área de ensino médico.

Moredo está à frente da organização há cerca de 30 anos e participou do processo de expansão do grupo.

Grupo Trasmontano se manifesta

Em nota, o Grupo Trasmontano confirmou a existência das acusações de assédio sexual envolvendo um de seus executivos e afirmou que os fatos são apurados pelo Ministério Público de São Paulo em procedimento que tramita sob sigilo.

A empresa informou que, por questões éticas e legais e para preservar a independência das investigações, não vai se manifestar sobre o mérito das acusações enquanto a apuração estiver em andamento.

O grupo também afirmou ter adotado medidas internas desde que tomou conhecimento dos fatos e reforçou o compromisso com um ambiente de trabalho seguro, ético e respeitoso. A companhia disse ainda que colaborará integralmente com as autoridades e que não divulgará informações que possam identificar as supostas vítimas.

Por fim, o Grupo Trasmontano reafirmou o compromisso com a transparência, a legalidade e a correta apuração dos fatos.

ENTENDA O CONTEXTO

O caso envolve três frentes principais: as denúncias apresentadas por funcionárias, a investigação interna conduzida pelo grupo e a disputa judicial sobre o afastamento de Moredo.

Enquanto as denunciantes relatam episódios de assédio e comportamentos de natureza sexual que teriam ocorrido durante anos, a defesa afirma que as acusações são falsas e foram articuladas por uma funcionária contrariada.

A Justiça, por sua vez, passou a analisar também os relatos de que o empresário teria tentado interferir na apuração depois de retornar ao hospital.

O caso ainda está em andamento e poderá ter novos desdobramentos tanto na esfera judicial quanto nas investigações sobre as denúncias.

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