Flávio recua de prestação de contas de Dark Horse e decisão fica com produtora

Campanha afirma que candidato não tem acesso a todos os dados financeiros do filme sobre Jair Bolsonaro e admite precipitação ao anunciar que faria a divulgação pública das contas
Redação NC News
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O candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) não deverá mais fazer pessoalmente a prestação de contas pública de “Dark Horse”, filme sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro. A responsabilidade pela eventual divulgação detalhada dos gastos ficará com a Go Up Entertainment, produtora responsável pela obra.

A mudança ocorre depois de Flávio ter sinalizado, em maio, que buscaria dar transparência às contas do longa, em meio à repercussão de um áudio no qual ele pedia recursos ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro para financiar a produção. Segundo interlocutores ouvidos pela imprensa, a justificativa agora é que Flávio não possui acesso a todos os dados necessários para apresentar as contas.

Nos bastidores, integrantes da campanha admitem que o candidato se precipitou ao anunciar uma prestação de contas pública sem ter controle sobre as informações financeiras. A campanha sustenta que Flávio não administra os recursos da produção e que cabe à produtora decidir sobre a publicidade dos dados.

Por que Flávio Bolsonaro mudou de posição?

A explicação apresentada por interlocutores da campanha é que o candidato não possui todos os dados necessários para detalhar as receitas e despesas de “Dark Horse”.

A produção é realizada pela Go Up Entertainment, empresa de Karina Ferreira da Gama. Segundo a versão da campanha, foi a produtora quem assinou os contratos para executar o projeto e, por isso, seria dela a responsabilidade pela prestação de contas.

A posição representa uma mudança em relação ao discurso adotado quando a controvérsia ganhou força.

Em maio, Flávio afirmou que havia pedido à produtora uma prestação de contas e disse que queria que os recursos relacionados a Vorcaro fossem identificados e ficassem à disposição das autoridades.

O que já foi revelado sobre as contas do filme?

Parte das informações financeiras já apareceu em documentos apresentados dentro de uma investigação que tramita na Justiça de São Paulo.

Segundo documento anexado ao inquérito, “Dark Horse” custou R$ 75 milhões. Desse total, aproximadamente R$ 54 milhões teriam sido gastos no exterior e R$ 20,9 milhões no Brasil.

O material, porém, não apresenta recibos e notas fiscais que permitam verificar detalhadamente cada despesa. Também não há, nesse documento, discriminação de determinados custos, como os cachês dos artistas.

Documento aponta custo de R$ 75 milhões para “Dark Horse”, mas não detalha recibos, notas fiscais e despesas como cachês.

Como Daniel Vorcaro entrou nessa história?

A controvérsia ganhou dimensão política em maio, após a divulgação de um áudio em que Flávio Bolsonaro solicitava recursos a Daniel Vorcaro para a produção do filme sobre o pai.

Flávio afirmou posteriormente que um fundo ligado a Vorcaro havia repassado mais de US$ 12 milhões para o projeto e sustentou que os recursos eram privados.

Na ocasião, o senador também declarou que o dinheiro havia sido integralmente investido no filme e defendeu a apresentação de documentos para comprovar a destinação dos valores.

As versões apresentadas publicamente sobre os aportes, porém, geraram questionamentos e pedidos de investigação.

O que dizem os responsáveis pelo filme?

A Go Up Entertainment chegou a afirmar que não havia recebido diretamente recursos do Banco Master ou de empresas das quais Vorcaro tivesse participação.

Mário Frias, produtor executivo do filme, também negou inicialmente dinheiro de Vorcaro na obra. Posteriormente, reconheceu o recebimento de recursos da Entre Investimentos e Participações, afirmando que a relação jurídica havia sido estabelecida com essa empresa.

Essas diferentes declarações estão entre os pontos que alimentaram os questionamentos sobre a origem e o caminho percorrido pelo dinheiro.

O filme está sendo investigado?

Existem diferentes frentes envolvendo empresas, pessoas e recursos relacionados ao caso, e é importante não tratá-las como uma única investigação.

A Go Up Entertainment apresentou informações sobre “Dark Horse” em um inquérito relacionado à Operação Wi-Fi Livre, que apura suspeitas envolvendo contratos do Instituto Conhecer com a Prefeitura de São Paulo. Esse inquérito não investiga diretamente o filme.

Em outra frente, o Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União pediu que o TCU apurasse possíveis irregularidades no financiamento da produção, incluindo a origem dos recursos e eventual uso de dinheiro público.

Também houve pedidos políticos para que outras autoridades investigassem o caso. A existência de investigação ou pedido de apuração não significa comprovação de irregularidade.

Por que o caso virou problema para a campanha?

“Dark Horse” deixou de ser apenas um projeto cinematográfico sobre Jair Bolsonaro e passou a ocupar espaço no debate da eleição presidencial.

Em maio, integrantes da campanha de Flávio chegaram a planejar uma auditoria nas contas do filme como estratégia para responder à crise provocada pela divulgação do áudio envolvendo Vorcaro.

Na semana passada, Flávio afirmou que considerava a controvérsia uma “página virada” e disse que uma prestação de contas já havia sido feita, embora não tenha apresentado naquele momento o detalhamento dos valores recebidos e das despesas.

Agora, a campanha afirma que uma eventual divulgação mais ampla depende da produtora.

O que acontece agora?

A principal dúvida passa a ser se a Go Up Entertainment divulgará publicamente documentos mais detalhados sobre as contas de “Dark Horse”.

O material já apresentado informa o custo global e a divisão entre despesas realizadas no Brasil e no exterior, mas não contém documentação detalhada de todos os gastos.

Politicamente, o tema também pode continuar acompanhando Flávio durante a campanha presidencial, especialmente diante dos questionamentos sobre o financiamento da produção e da relação com Vorcaro.

ENTENDA O CONTEXTO

“Dark Horse” é uma cinebiografia sobre a trajetória pessoal e política do ex-presidente Jair Bolsonaro.

O financiamento da produção ganhou repercussão após a divulgação de um áudio em que Flávio Bolsonaro aparecia solicitando recursos a Daniel Vorcaro.

Diante da repercussão, Flávio anunciou que buscaria uma prestação de contas da produção e integrantes de sua pré-campanha chegaram a discutir uma auditoria.

Documentos apresentados posteriormente apontaram um custo de R$ 75 milhões, sendo cerca de R$ 54 milhões gastos no exterior e R$ 20,9 milhões no Brasil. O material não traz, porém, recibos e notas fiscais detalhando todas as despesas.

Agora, a campanha afirma que Flávio não possui ingerência sobre a administração financeira do filme e que a responsabilidade pela prestação de contas cabe à produtora.

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