O jornalista salvadorenho Carlos Dada, de 55 anos, acompanha do exílio o crescimento da influência do chamado “modelo Bukele” no debate sobre segurança pública no Brasil e faz um alerta: reproduzir em um país de dimensões continentais a política adotada em El Salvador poderia levar a população carcerária brasileira a cerca de 4 milhões de pessoas.
“Fiquei preocupado que tantos candidatos no Brasil ofereçam o modelo Bukele como solução”, afirmou.
Cofundador e diretor do jornal investigativo El Faro, Dada precisou deixar El Salvador após anos de reportagens sobre o governo de Nayib Bukele. Em passagem por São Paulo para participar do Festival Piauí de Jornalismo, ele descreveu um sistema baseado, segundo sua avaliação, em detenções em massa, restrições ao direito de defesa e concentração de poder. O alerta ocorre enquanto políticos e empresários brasileiros passam a discutir a experiência salvadorenha como possível referência para o combate ao crime organizado.
O que Carlos Dada chama de “modelo Bukele”
Para o jornalista, a essência do modelo está na ampliação do poder das forças de segurança para realizar prisões em massa durante o regime de exceção adotado em El Salvador. Segundo Dada, detenções podem ocorrer sem acusação formal e, em determinados casos, sem que haja individualização prévia de uma suspeita.
“É a utilização dos corpos de segurança, no caso de El Salvador, a polícia e o Exército, com capacidade de realizar detenções arbitrárias e massivas, sem necessidade de ordens judiciais e sem necessidade de que existam acusações contra a pessoa”, afirmou.
Dada relatou que sua equipe analisou registros de detenções em que justificativas consideradas frágeis apareciam como fundamento para a prisão. Um dos exemplos citados por ele foi o registro de que uma pessoa teria “ficado nervosa” diante das autoridades.
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Prisões, advogados e julgamentos coletivos
Segundo o relato do jornalista, pessoas detidas sob o regime de exceção podem enfrentar longos períodos sem contato com familiares ou advogados. Em alguns casos, parentes sequer sabem para qual unidade prisional o detido foi levado.
Dada também criticou o funcionamento de julgamentos coletivos e a utilização de juízes anônimos. Na descrição apresentada pelo jornalista, grupos numerosos de acusados podem ser julgados simultaneamente, reduzindo a possibilidade de uma análise individualizada de cada caso.
“Suas possibilidades de sair desse buraco são nulas”, resumiu ao descrever a situação de pessoas submetidas ao sistema salvadorenho.
Cecot virou vitrine internacional do governo
O Centro de Confinamento do Terrorismo, conhecido pela sigla Cecot, tornou-se o principal símbolo internacional da política de segurança de Bukele. Imagens divulgadas pelo governo mostram pavilhões organizados, presos alinhados e uma estrutura planejada para causar impacto visual.
É justamente essa imagem que, segundo Dada, passou a ocupar o imaginário de políticos estrangeiros interessados em reproduzir a experiência salvadorenha.
“Cecot é a imagem que está na cabeça de todos aqueles que falam do modelo Bukele”, afirmou. O jornalista reconhece que a unidade apresenta uma estrutura visualmente distinta, mas argumenta que ela não representa a totalidade do sistema penitenciário do país.
O que existe fora da megaprisão
Segundo Dada, a maioria dos detidos não é enviada para o Cecot, mas para outras unidades penitenciárias de El Salvador. Ele afirma que o acesso de jornalistas e observadores independentes a parte dessas prisões é restrito.
O jornalista cita denúncias de tortura e mortes sob custódia que, segundo organizações e investigações independentes, ocorreram durante o período de endurecimento do regime de exceção. As acusações são rejeitadas pelo governo salvadorenho, que defende sua política como responsável pela redução expressiva dos índices de violência.
O contraste entre a queda dos homicídios e as denúncias de violações de direitos humanos tornou-se um dos principais pontos do debate internacional sobre o governo Bukele.
Jornalismo investigativo levou Dada ao exílio
Carlos Dada se tornou um dos principais críticos do governo salvadorenho após o El Faro publicar investigações sobre negociações entre autoridades e integrantes de gangues. As reportagens apontaram que o governo teria mantido contatos com organizações criminosas em um período anterior à atual ofensiva de encarceramento em massa.
Depois das publicações, Dada e outros jornalistas passaram a relatar pressões, campanhas de difamação e ameaças. O jornalista afirma que a situação se tornou insustentável para a equipe e levou integrantes do veículo a deixar o país.
Hoje no exílio, ele acompanha à distância a política salvadorenha e afirma não ter segurança para retornar ao país.
Ministro de Bukele levou discurso de segurança ao Brasil
A preocupação de Dada também envolve a aproximação entre autoridades salvadorenhas e setores políticos e empresariais brasileiros. O ministro da Justiça e Segurança Pública de El Salvador, Gustavo Villatoro, esteve recentemente em São Paulo para apresentar a experiência do país.
O jornalista criticou o tom utilizado pelo representante do governo Bukele.
“Ele apresentou o combate à insegurança em termos quase bíblicos. Disse estar combatendo seres da escuridão. Isso é pura demagogia”, afirmou.
Para Dada, existe uma contradição no discurso de guerra total contra as gangues diante das investigações do El Faro sobre negociações anteriores entre integrantes do governo e organizações criminosas.
O cálculo de 4 milhões de presos no Brasil
Um dos pontos centrais do alerta feito pelo jornalista é a diferença de escala entre El Salvador e Brasil. Segundo dados citados por Dada, cerca de um em cada 50 salvadorenhos está preso. Se uma proporção semelhante fosse aplicada à população brasileira, o país poderia chegar a aproximadamente 4 milhões de pessoas encarceradas.
O Brasil já possui uma das maiores populações prisionais do mundo, com pouco menos de 1 milhão de pessoas privadas de liberdade. Uma expansão dessa magnitude multiplicaria a pressão sobre um sistema que já enfrenta problemas como superlotação, déficit de vagas e presença de organizações criminosas dentro dos presídios.
O debate sobre a possibilidade de adaptação do modelo também foi levantado recentemente pelo promotor Lincoln Gakiya, especialista no combate ao crime organizado, que questionou como medidas de exceção poderiam ser aplicadas dentro das garantias previstas pela legislação brasileira.
Segurança pública vira tema central da eleição
A discussão ganhou espaço no cenário eleitoral brasileiro. O candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL), por exemplo, já declarou que defende um “padrão Bukele” no combate à criminalidade e prometeu criar mais de 500 mil vagas no sistema prisional caso seja eleito.
O senador também se reuniu com Gustavo Villatoro, ministro salvadorenho responsável pela área de Justiça e Segurança Pública, e afirmou que a experiência de El Salvador serve de inspiração para propostas brasileiras.
Outros setores políticos também passaram a incorporar o endurecimento penal e a guerra ao crime organizado como elementos centrais de seus discursos, transformando a política de Bukele em uma referência cada vez mais presente no debate eleitoral.
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Entenda o contexto
Nayib Bukele chegou à Presidência de El Salvador prometendo romper com a incapacidade histórica do Estado de enfrentar as gangues que durante décadas dominaram parte do território e transformaram o país em um dos mais violentos do mundo. A queda expressiva dos homicídios tornou-se a principal vitrine de seu governo e impulsionou sua popularidade dentro e fora do país.
O custo institucional dessa estratégia, porém, é alvo de intenso debate. Organizações de direitos humanos e jornalistas independentes denunciam detenções arbitrárias, restrições ao direito de defesa, mortes sob custódia e perseguição a críticos. O governo salvadorenho, por sua vez, sustenta que as medidas extraordinárias foram necessárias para recuperar o controle do país diante do poder das gangues.
É essa disputa que agora chega com força ao Brasil. De um lado, políticos enxergam nos resultados de segurança de El Salvador uma resposta para o avanço das facções. De outro, críticos alertam que importar o modelo sem considerar suas consequências jurídicas e democráticas pode significar ampliar o poder do Estado de prender e reduzir garantias individuais.
Para Carlos Dada, discutir apenas a queda dos homicídios é insuficiente. O jornalista defende que o debate brasileiro considere também o funcionamento do sistema prisional, as denúncias de violações e o impacto que medidas de exceção podem provocar em uma democracia. Nos próximos meses, a disputa sobre até onde o Estado pode ir para combater o crime deve ocupar um espaço cada vez maior na campanha eleitoral.
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