Dois em cada três estudantes de medicina no Brasil apresentam sintomas moderados a graves de depressão. O dado, revelado por um estudo nacional recém-divulgado, ganha contornos ainda mais urgentes após a prisão de um médico de 33 anos em Bauru (SP), que invadiu o apartamento da ex-namorada, estudante de medicina, armado e acabou baleando a si mesmo.
A combinação entre rotina exaustiva, sofrimento emocional naturalizado e episódios extremos de violência expõe uma crise silenciosa na formação e na vida profissional de médicos no país.
Pesquisa revela quadro de adoecimento na formação médica
O levantamento conduzido pelo Centro de Pesquisa e Inovação em Saúde Mental (CISM) ouviu 1.026 estudantes de 74 faculdades de medicina públicas e privadas, com idades a partir de 18 anos, do primeiro ao sexto ano. A coleta ocorre entre setembro de 2023 e setembro de 2024 e ainda repercute nesta semana no meio acadêmico.
Os pesquisadores utilizaram dois questionários padronizados para medir sofrimento psíquico. Pelo PHQ-9, que avalia sintomas depressivos recentes, 66% dos estudantes apresentaram quadros moderados a graves. Pelo GAD-7, escala para ansiedade, 50,5% tiveram sintomas relevantes. Em comparação, a média global entre estudantes de medicina é de 27,2% para depressão e 33,8% para ansiedade. O Brasil aparece bem acima desses índices.
A principal queixa dos estudantes é a falta de tempo. Preocupações com desempenho acadêmico, relacionamentos, saúde física e dificuldades de aprendizagem completam o quadro de estresse. O estudo também mediu a percepção do ambiente de aprendizagem e os fatores de pressão institucional.
O psiquiatra Rodolfo Furlan Damiano, pesquisador do CISM e um dos autores da pesquisa, aponta a cultura da medicina como parte do problema. “Infelizmente, isso faz parte do que a gente chama de currículo oculto, que é uma questão tacitamente passada de que sofrer faz parte, de que a falta de tempo faz parte. É passado de geração em geração”, afirma.
Histórias de quem adoece — e de quem consegue se proteger
A rotina de Natália Barros, 22, aluna do terceiro ano de medicina na Unifesp, ilustra os números. Ela saiu de João Pessoa para estudar em São Paulo e hoje acumula cansaço extremo, dificuldade de concentração, alterações no sono e perda de apetite. As atividades físicas e os hobbies foram as primeiras a desaparecer da agenda.
“A última vez que eu senti que tinha tempo de sobra foi nas férias, quando não fiz nada. Só vivi minha vida alheia à faculdade”, diz. Entre aulas, plantões e provas, Natália conta ter trocado a academia por uma aula de balé semanal, tentativa mínima de preservar algum espaço pessoal em meio à maratona.
Os dados do CISM mostram que estudantes de universidades privadas avaliam melhor o clima acadêmico e a relação com professores, enquanto alunos de instituições públicas relatam mais estresse com notas e avaliações. Em ambos os grupos, a sensação de tempo sempre escasso aparece como fio condutor.
A pesquisa também aponta fatores de proteção. Colaboração entre colegas, bom relacionamento com docentes e clima menos competitivo se associam a menores índices de depressão e ansiedade.
Gabriel Gaspar, 23, aluno do segundo semestre de medicina na USP, é um exemplo desse outro lado. Ele reconhece a carga pesada, mas diz conseguir preservar a saúde mental graças à vida social ativa e à experiência anterior. “A falta de tempo me afeta, mas me afeta pouco porque eu estou fazendo coisas hoje na faculdade que eu quis muito fazer”, afirma. Os quatro anos de cursinho o ajudaram, segundo ele, a criar “casca” para lidar com frustrações.
Pressão, desigualdade e o efeito do ambiente acadêmico
As diferenças na forma de ingresso também aparecem nos dados. Estudantes que entraram por ações afirmativas registram pontuações mais altas de depressão e mais estresse acadêmico. Bolsistas relatam ambiente menos colaborativo e menor engajamento nas aulas. Quando o modelo estatístico leva em conta o clima acadêmico e o estresse, porém, a condição de cotista deixa de explicar, sozinha, o pior resultado em saúde mental.
Na prática, os pesquisadores concluem que não é o fato de ser cotista que adoece, mas o ambiente mais hostil e desigual ao qual muitos desses alunos estão expostos. Discriminação, carga financeira e jornadas de deslocamento longas se somam às demandas do curso.
O estudo pressiona faculdades e conselhos profissionais a abandonar a ideia de que sofrimento é parte inevitável da formação. Programas de apoio psicológico, revisão de currículos e combate à cultura de competição extrema passam a ser discutidos em centros acadêmicos e diretórios estudantis.
Invasão em Bauru expõe o risco após o diploma
Enquanto o meio universitário discute prevenção, um episódio violento em Bauru revela que o problema não se encerra com a formatura. O médico Diogo Pereira Borges, 33, ex-militar e com registro profissional em três estados, é preso após invadir o apartamento da ex-namorada, uma estudante de medicina de 24 anos.
Imagens de câmeras de segurança mostram Diogo escalando as grades da fachada até o 6º andar de um prédio residencial para surpreender a jovem, que dormia. Ele carrega uma arma de fogo de uso restrito. A ex-namorada relata que o relacionamento havia terminado há uma semana. “O relacionamento havia terminado há uma semana e ele não aceitava o fim”, disse em depoimento.
Dentro do apartamento, segundo a investigação, o médico tranca a porta e efetua dois disparos contra si mesmo. Um tiro atinge o abdômen; o outro passa de raspão pela cabeça. A estudante não se fere. Ele é socorrido, internado sob escolta policial e tem a prisão decretada preventivamente.
O caso levanta uma série de alertas. A combinação de acesso a armas, histórico militar, formação médica e um quadro provável de sofrimento psíquico reacende o debate sobre avaliação e acompanhamento psicológico também entre profissionais já formados, e não apenas entre estudantes.
Pressão por mudanças em universidades e conselhos
O estudo do CISM e o episódio de Bauru convergem para uma mesma constatação: a saúde mental na medicina se torna tema central de segurança pública e de qualidade do cuidado em saúde. Futuros médicos chegam à graduação já pressionados, atravessam seis anos de rotina extrema e entram no mercado carregando traços persistentes de adoecimento.
Hospitais-escola, faculdades e conselhos profissionais começam a discutir medidas mais duras. Entre elas, programas obrigatórios de apoio psicológico, flexibilização de cargas horárias em momentos críticos, incentivo à vida social e acompanhamento sistemático de profissionais envolvidos em episódios de violência ou em afastamentos por transtornos mentais.
Especialistas defendem que a resposta passe por duas frentes. De um lado, mudar o ambiente: menos competitividade tóxica, mais cooperação e tutoria, rotinas que incluam sono e lazer como parte legítima da formação. De outro, criar protocolos claros para identificar sinais de risco entre estudantes e médicos, com triagem e encaminhamento rápido para tratamento.
As próximas semanas devem intensificar a pressão sobre universidades, conselhos e órgãos reguladores. O desafio é transformar diagnósticos já consolidados em políticas concretas que impeçam que histórias de sofrimento silencioso terminem em abandono de curso, perda de profissionais ou episódios extremos de violência.
O que o estudo revela sobre a saúde mental de estudantes de medicina?
O estudo do Centro de Pesquisa e Inovação em Saúde Mental, com 1.026 estudantes de 74 faculdades, revela que 66% têm sintomas de depressão moderada a grave e 50,5% apresentam ansiedade significativa, índices muito acima das médias globais e associados à falta de tempo, pressão acadêmica intensa e ambiente competitivo.
O que aconteceu no caso do médico que invadiu o apartamento da ex em Bauru?
O médico Diogo Pereira Borges, de 33 anos, escalou as grades até o 6º andar de um prédio em Bauru, invadiu o apartamento da ex-namorada de 24 anos com uma arma de uso restrito, trancou a porta e efetuou dois disparos contra si mesmo, foi ferido, preso preventivamente e permanece internado sob escolta.