A Polícia Federal investiga, nesta quinta-feira (10), um esquema de desvio de emendas parlamentares ligadas ao filme “Dark Horse”, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro. O deputado Mario Frias (PL-SP) e a produtora Karina Ferreira da Gama estão no centro da operação, que mira o uso de dinheiro público para financiar a produção.
Operação vasculha quatro estados e mira emendas de R$ 2 milhões
A operação, batizada de “Make Up”, cumpre 49 mandados de busca e apreensão em São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e Distrito Federal. A investigação tramita no Supremo Tribunal Federal (STF) sob relatoria do ministro Flávio Dino, que autoriza as medidas. Não há mandados de prisão.
Os investigadores apuram se cerca de R$ 2 milhões em emendas indicadas por Frias, então deputado, foram desviados para entidades comandadas por Karina Gama, como o Instituto Conhecer Brasil (ICB) e a Associação Nacional de Cultura (ANC). As entidades teriam subcontratado empresas sem comprovar a prestação dos serviços, em um arranjo descrito como possível organização criminosa que mistura agentes públicos e privados.
Auditoria da Controladoria-Geral da União identifica gastos não comprovados ligados às emendas. A PF fala em movimentações de “centenas de milhões de reais” entre empresas associadas ao grupo investigado e aponta tentativas de ocultar os rastros financeiros até julho deste ano.
Compra de SUV em dinheiro vivo acende alerta de lavagem
Um ponto que se destaca na decisão de Flávio Dino é a compra, por Karina Gama, de um SUV híbrido BYD Song Plus 1.5 automático, modelo 2025, por R$ 102.190 pagos integralmente em dinheiro vivo. O valor ultrapassa o limite que obriga comunicação automática ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).
A transação entra no radar não apenas pelo uso de espécie, difícil de rastrear, mas também pela discrepância em relação ao preço de referência. Segundo a PF, a tabela Fipe indicava R$ 184.858 para o mesmo modelo. A diferença, de R$ 82.668, aparece registrada na decisão, sem explicação sobre a origem do desconto ou do dinheiro.
O pagamento em espécie, isoladamente, não configura crime. Os investigadores, porém, enxergam a operação como peça de um mosaico que inclui repasses públicos a entidades ligadas à produtora, contratos milionários e uma rede de empresas com fluxos financeiros cruzados.
Filme vira nó de dinheiro público, capital privado e política
“Dark Horse” é produzido pela Go Up Entertainment, da qual Karina Gama é sócia. Mario Frias atua como roteirista e produtor-executivo. O ator norte-americano Jim Caviezel interpreta Jair Bolsonaro. O projeto, ainda em fase de produção, se apresenta como cinebiografia do ex-presidente.
Paralelamente ao caso das emendas, outro inquérito corre no STF sob relatoria do ministro André Mendonça. Essa frente investiga repasses do ex-banqueiro Daniel Vorcaro para o financiamento do filme, em montante que alcança R$ 61 milhões, segundo documentos do processo.
A apuração ganha fôlego com a delação premiada do empresário Antonio Carlos Freixo Junior, o “Mineiro”, homologada pela Corte. Ele detalha repasses de 12,3 milhões de dólares para o projeto, por meio de um fundo no exterior. No relato, descreve operações para “gerar” dinheiro vivo, entregue em malas, e aportes em cotas de um fundo administrado por advogado ligado à família Bolsonaro.
Crimes sob suspeita e impacto sobre o setor cultural
Os inquéritos miram um pacote de crimes: peculato, falsidade documental, lavagem de dinheiro, organização criminosa e fraudes em licitações. A tese central é que emendas parlamentares destinadas a entidades do terceiro setor serviram como canal para irrigar negócios associados ao filme, com contrapartidas pouco claras e contratação de empresas de fachada.
O Instituto Conhecer Brasil, presidido por Karina, também está sob investigação do Ministério Público e da Polícia Civil em São Paulo, por um contrato de R$ 108 milhões firmado com a Prefeitura paulistana. Esse caso corre em paralelo, mas reforça a pressão sobre a produtora e suas organizações.
No campo cultural, o episódio acende alerta sobre o uso político de recursos de emendas em projetos audiovisuais. Produtores avaliam, em reservado, que a operação tende a endurecer a liberação de verbas parlamentares para filmes e séries, especialmente quando ligados a figuras públicas e campanhas eleitorais.
Reação de Flávio Bolsonaro e disputa no STF
O senador e presidenciável Flávio Bolsonaro reage com virulência à operação. Ele chama a ação de “fajuta” e a classifica como “tentativa de golpe”. “O nome da operação tinha que ser ‘tentativa de golpe’”, afirma, ao acusar o ministro Flávio Dino de interferência política no processo eleitoral.
Flávio nega qualquer irregularidade no financiamento da obra. “Com toda a tranquilidade do mundo, mais uma vez: não tem nada de errado com o filme do Bolsonaro. Foi tudo redondinho, investimento privado num filme privado”, diz. Ele anuncia que vai pedir ao presidente do STF, ministro Edson Fachin, a abertura de uma investigação sobre Dino.
O embate aprofunda a tensão entre o bolsonarismo e o Supremo. A relatoria de Dino no caso das emendas e de Mendonça no inquérito dos repasses privados coloca o filme no centro de uma disputa que mistura controle de recursos públicos, dinheiro internacional e cálculo eleitoral.
As buscas desta quinta-feira não encerram o caso. A PF ainda precisa cruzar dados apreendidos, laudos da CGU, extratos bancários e depoimentos da delação para reconstruir o fluxo do dinheiro. O desfecho pode ir de arquivamento parcial a denúncias criminais formais, com impacto direto na carreira política dos envolvidos e em futuras regras para financiar produções culturais com dinheiro público.
O que a Polícia Federal investiga sobre o filme Dark Horse?
A Polícia Federal investiga um suposto esquema em que cerca de R$ 2 milhões em emendas de Mario Frias teriam sido desviados para entidades ligadas à produtora de “Dark Horse”, que então subcontrataram empresas sem comprovar serviços, em conexão com repasses privados de até R$ 61 milhões e suspeita de lavagem de dinheiro.
Qual a relação entre o financiamento do filme Dark Horse e o suposto desvio de emendas?
O elo central é a acusação de que emendas parlamentares indicadas por Mario Frias irrigaram entidades presididas por Karina Gama, que, segundo a PF e a CGU, teriam papel tanto em projetos custeados com dinheiro público quanto na engrenagem do filme “Dark Horse”, misturando verbas oficiais, aportes privados e serviços não comprovados.
Quais são as acusações envolvendo a produtora do filme Dark Horse?
A produtora Karina Gama e suas entidades são apontadas como beneficiárias de emendas de R$ 2 milhões sem comprovação adequada de gasto, envolvidas na compra em espécie de um SUV de R$ 102.190 e no recebimento de parte de repasses internacionais de 12,3 milhões de dólares, em um conjunto que sustenta suspeitas de peculato, lavagem e organização criminosa.
O que Flávio Bolsonaro disse sobre a operação da PF relacionada ao filme Dark Horse?
Flávio Bolsonaro chamou a operação da PF de “fajuta” e “tentativa de golpe”, afirmou que “o nome da operação tinha que ser ‘tentativa de golpe’” e insistiu que “não tem nada de errado com o filme do Bolsonaro”, classificando o projeto como “investimento privado num filme privado” e acusando o ministro Flávio Dino de interferência política.