A primeira-dama Rosângela “Janja” Lula da Silva enfrenta vaias de opositores enquanto discursa em comício de Luiz Inácio Lula da Silva na Boca Maldita, em Curitiba, e reage com defesa do voto e ataques à desinformação. Lula e aliados aproveitam o ato para mirar Sergio Moro e candidatos ligados ao PL em meio à disputa eleitoral de 2026.
Vaias, QR Code e disputa de narrativas
O episódio ocorre em um dos cenários políticos mais simbólicos para o petismo. Na Boca Maldita, histórico ponto de comícios no centro de Curitiba, Janja apresenta ao público um QR Code que leva a uma página com comparações entre os governos Lula e o governo anterior, parte do esforço do PT para modernizar a comunicação e disputar a narrativa econômica.
Enquanto incentiva os presentes a acessar o material, a primeira-dama critica adversários que, segundo ela, estariam “com raiva, com ódio”. É nesse momento que um grupo em prédios próximos começa a vaiá-la. A militância reage de imediato, com gritos e gestos, incluindo dedos do meio apontados para as janelas de onde vêm as provocações.
Janja decide não recuar. Interrompe por instantes a fala, retoma a apresentação do comparativo e, em tom de desafio, transforma o incômodo em combustível político. “Vamos vencer eles é no voto. É no voto que eles vão ver o que que é bom”, afirma, ao microfone, arrancando aplausos da plateia que ocupa a rua.
‘Ódio, mentira e misoginia’ em disputa
Com as vaias ainda audíveis, a primeira-dama tenta enquadrar o episódio como sintoma do clima de radicalização. “Não liga não. Deixa lá eles com o ódio, com mentira, com a fake news, com a misoginia, com o ódio contra as mulheres. Deixa eles lá, porque nós vamos vencer eles é no voto”, diz, enfatizando o apelo à urna como resposta ao que chama de ataques e desinformação.
A assessoria da campanha de Lula minimiza o episódio, classificando a manifestação como ação de um pequeno grupo e destacando que a maior parte do público responde com aplausos. Ainda assim, o contraste entre o entusiasmo da militância e as vaias que ecoam dos prédios vizinhos expõe, em tempo real, a polarização que marca a reta eleitoral deste ano.
No palanque, o gesto de proteção a Lula se mistura à biografia compartilhada. Janja resgata a prisão do presidente em Curitiba durante a operação Lava Jato, classificada por ela como injusta, e volta a mirar o ex-juiz Sergio Moro, hoje candidato no Paraná. “Não vou citar aqui o nome do algoz dele, é tudo que ele quer”, afirma, sem pronunciar o nome do ex-magistrado, mas deixando clara a referência.
Lula reage, chama adversário de ‘mentiroso e frouxo’
O presidente usa o ato para reforçar o discurso de vítima de perseguição judicial e, ao mesmo tempo, atacar adversários que agora enfrenta nas urnas. Ele lembra que ficou 580 dias preso na Superintendência da Polícia Federal em Curitiba, entre 7 de abril de 2018 e 8 de novembro de 2019, condenado no caso do tríplex do Guarujá, em processo posteriormente anulado pelo Supremo Tribunal Federal.
Sem citar diretamente Sergio Moro ou Flávio Bolsonaro, Lula testa o limite das alusões. “Não quero falar mal dos outros candidatos, mas aqui tem um que não vale o que come”, dispara, sob forte reação da plateia. Em outro momento, chama um adversário de “mentiroso e frouxo”, num recado que o público interpreta como dirigido ao ex-juiz e a nomes ligados ao PL.
O comício também serve para o petista conectar o embate jurídico do passado com escândalos que atingem a oposição no presente. Lula explora novas revelações do chamado caso Master, que envolve o Banco Master e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, para tentar colar em Flávio Bolsonaro a imagem de proximidade com esquemas financeiros suspeitos. Usa números de supostos prejuízos bilionários e negócios com empresas ligadas ao empresário conhecido como “Careca do INSS” para contrapor o discurso moralista dos adversários.
Gleisi endurece críticas e reforça narrativa de perseguição
Gleisi Hoffmann, ex-ministra e candidata ao Senado pelo PT, adota o tom mais duro do palanque. Ao comentar o período em que Lula esteve preso, chama Moro de “algoz desqualificado” e o acusa de ter “roubado para colocá-lo injustamente na cadeia”. O ataque mira a credibilidade do ex-juiz, personagem central na política paranaense e peça-chave da campanha adversária no Estado.
As falas de Gleisi, de Janja e de Lula se complementam na tentativa de reescrever, aos olhos do eleitor, a narrativa da Lava Jato: de símbolo de combate à corrupção a instrumento de perseguição política e judicial. O resgate de datas, como o início da prisão de Lula em 7 de abril de 2018, e o número de 580 dias de encarceramento, busca dar concretude à ideia de injustiça sofrida.
Ao mesmo tempo, o presidente insiste em temas sociais que servem de contraponto ao confronto. Fala em aumento da renda, necessidade de “salário bom” e investimentos que “gerem retorno para as famílias e para o Estado”. O discurso procura conectar o presente — com inflação acumulada ainda pressionando o custo de vida — à promessa de melhora concreta se a atual linha de governo for mantida.
Clima eleitoral tende a seguir tenso
O choque entre vaias e aplausos no centro de Curitiba sinaliza que a campanha entra em fase em que cada ato de rua se transforma em teste de força e resistência. Para o PT, a cena de uma primeira-dama alvo de opositores, mas aplaudida por milhares, alimenta a narrativa de que o bolsonarismo continua forte, porém minoritário, e precisa ser derrotado no voto.
Adversários de Lula, em especial ligados a Sergio Moro e ao PL de Flávio Bolsonaro, veem no episódio a prova de que a rejeição ao presidente permanece alta em redutos conservadores como o Paraná. Precisam agora decidir se amplificam as vaias como símbolo de resistência ou se tentam se afastar da imagem de hostilidade à primeira-dama, que pode afastar eleitorado moderado.
A tendência, no curto prazo, é de mais tensão em atos de campanha. A militância petista sai de Curitiba com a sensação de ter reagido à altura e com um novo bordão na ponta da língua: “vamos vencer no voto”. Os adversários, por sua vez, ganham mais um episódio para explorar nas redes sociais, em um ambiente em que vídeos de segundos redefinem narrativas inteiras.
Até o fim da disputa, comícios como o de hoje na Boca Maldita tendem a funcionar como termômetro da polarização. Caberá às campanhas decidir se buscam desescalar o conflito ou se apostam em confrontos simbólicos cada vez mais duros, com impacto direto sobre o clima político e social do país.
O que aconteceu com Janja durante o ato de Lula em Curitiba?
Janja Lula da Silva é vaiada por um pequeno grupo de opositores em prédios próximos à Boca Maldita, no centro de Curitiba, enquanto apresenta um QR Code com comparações entre os governos Lula e o anterior; ela reage em defesa do voto, critica ódio e fake news e recebe aplausos da militância.
Quem é Janja, esposa de Lula, e qual sua formação?
Rosângela “Janja” Lula da Silva é a primeira-dama do Brasil, socióloga de formação, com trajetória ligada a movimentos sociais e atuação anterior em empresa estatal de energia; ela ganha projeção nacional ao lado de Lula, assumindo papel político crescente em defesa da democracia, de pautas feministas e de políticas sociais.
Janja tem filhos com Lula?
Janja Lula da Silva não tem filhos com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva; o casamento dos dois é formado por um casal já adulto em suas trajetórias pessoais, com Lula trazendo filhos de relações anteriores e a primeira-dama concentrando sua exposição pública no papel político, social e institucional ao lado do presidente.
Qual foi a reação de Janja ao ser vaiada em Curitiba?
Janja Lula da Silva reage às vaias em Curitiba pedindo que os apoiadores não deem importância aos gritos dos prédios, acusando os opositores de ódio, mentira, fake news e misoginia, e reforçando que “vamos vencer eles é no voto”, postura que transforma o ataque em defesa da democracia e mobiliza a militância no ato.