A eleição para o Governo do Rio de Janeiro em 2026 coloca diante do eleitorado três personagens que representam momentos bastante diferentes da política fluminense:
De um lado, Eduardo Paes (PSD), político experiente que construiu sua carreira entre a Câmara dos Deputados e a Prefeitura do Rio e agora tenta transformar sua força na capital em uma vitória estadual.
De outro, Douglas Ruas (PL), deputado de 37 anos que ascendeu rapidamente dentro da política de São Gonçalo e chegou à presidência da Assembleia Legislativa.
E, completando o cenário, Anthony Garotinho (Republicanos), ex-governador e uma das figuras mais conhecidas da política do estado, que tenta retornar ao Palácio Guanabara mais de duas décadas depois de deixar o cargo.
As diferenças entre os três vão além da idade ou do partido. Cada candidato chega à eleição carregando uma história própria, uma base eleitoral específica e um punhado de controvérsias que podem influenciar a disputa. Enquanto Eduardo Paes tenta consolidar o discurso de gestor experiente, Ruas busca se apresentar como uma alternativa de renovação ligada ao campo conservador e Garotinho enfrenta novamente o peso de seu passado polêmico.
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Eduardo Paes
Eduardo da Costa Paes nasceu no Rio de Janeiro em 14 de novembro de 1969, filho de um advogado e de uma professora. Formado em Direito pela PUC-Rio, com especialização em Políticas Públicas e Governo pela UFRJ, começou a construir sua carreira política ainda no início dos anos 1990, quando se aproximou do grupo de Cesar Maia, então uma das principais forças políticas do Rio de Janeiro. Paes integrou a Juventude Cesar Maia e rapidamente deixou de ser apenas um jovem militante para ocupar espaço dentro da administração municipal.
Foi pelas mãos de Cesar Maia que Paes entrou efetivamente na máquina pública. Tornou-se subprefeito da Barra da Tijuca e de Jacarepaguá e, posteriormente, secretário municipal do Meio Ambiente. Em 1996, aos 26 anos, foi eleito vereador do Rio pelo então PFL. Dois anos depois, chegou à Câmara dos Deputados. A ascensão foi rápida: em poucos anos, o jovem político que havia começado nos bastidores da política carioca já ocupava um espaço relevante na política nacional.

A relação com Cesar Maia, porém, não duraria para sempre. Paes rompeu politicamente com seu antigo padrinho e passou a construir uma trajetória própria, inclusive mudando de partido diversas vezes. Passou pelo PV, PFL, PTB e PSDB antes de chegar ao PMDB, em 2007. Essa capacidade de transitar entre diferentes grupos e siglas se tornaria uma das características mais marcantes de sua carreira.
Em 2006, Paes deu o primeiro passo explícito em direção ao cargo que hoje novamente disputa: concorreu ao Governo do Rio de Janeiro. A campanha terminou com pouco mais de 5% dos votos, resultado que o deixou distante do segundo turno. Na segunda etapa da eleição, apoiou Sérgio Cabral, que acabou eleito governador.
Este apoio mudaria para sempre o rumo de sua carreira e o seu espaço na política nacional.
Sérgio Cabral, a Prefeitura e o caminho de volta ao Estado
Depois da vitória de Cabral, Paes foi convidado para integrar o governo estadual e assumiu a Secretaria de Turismo, Esporte e Lazer, em janeiro de 2007. A aproximação com Cabral foi decisiva para que Paes deixasse definitivamente o campo tucano e ingressasse no PMDB, então uma das maiores forças políticas do Rio.
A relação entre os dois políticos foi estratégica. Cabral precisava consolidar seu grupo político na capital, enquanto Paes precisava de uma estrutura partidária capaz de viabilizar sua candidatura à Prefeitura do Rio. Em 2008, mesmo enfrentando resistências dentro do próprio PMDB, Paes foi escolhido candidato e venceu Fernando Gabeira no segundo turno, com 50,8% dos votos válidos.

A vitória marcou uma virada definitiva. O antigo aliado de Cesar Maia passava a comandar a cidade que havia servido como laboratório político de sua carreira.
Os dois mandatos seguintes transformaram Paes em uma das figuras mais conhecidas da política brasileira. Entre 2009 e 2016, sua administração esteve diretamente envolvida na preparação do Rio para os grandes eventos esportivos internacionais, principalmente a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016. Projetos como o Porto Maravilha e a expansão dos corredores de BRT passaram a fazer parte da imagem de sua gestão.
A relação com o grupo de Sérgio Cabral, contudo, se tornaria um dos capítulos mais delicados de sua trajetória. O governador e seu grupo político acabariam envolvidos em uma série de investigações de corrupção que culminaram na prisão de Cabral e na derrocada de uma das estruturas políticas mais poderosas do Rio. Paes, que havia sido aliado e integrante do governo estadual, passou a ser cobrado politicamente por essa proximidade.
Seu nome também apareceu posteriormente em investigações e delações relacionadas a supostos pagamentos ilegais e financiamento eleitoral. Paes negou as acusações. Parte das investigações conduzidas no âmbito da 7ª Vara Federal do Rio acabou atingida por decisões judiciais posteriores que anularam provas e diligências. O histórico, entretanto, permaneceu como um dos pontos explorados por seus adversários.

A própria gestão olímpica deixou marcas controversas. O desabamento de um trecho da Ciclovia Tim Maia, em 2016, que matou duas pessoas, provocou críticas à fiscalização das obras e atingiu diretamente a administração municipal. O episódio passou a integrar a lista de problemas associados ao período em que Paes comandou a cidade.
Mesmo depois de deixar a Prefeitura, Paes continuou mirando o Palácio Guanabara. Em 2018, voltou a disputar o governo estadual, desta vez pelo DEM, mas perdeu no segundo turno para Wilson Witzel. A derrota não encerrou sua carreira. Em 2020, Paes retornou à Prefeitura ao derrotar Marcelo Crivella e, quatro anos depois, foi reeleito no primeiro turno.
O período consolidou sua imagem como administrador capaz de conduzir grandes projetos urbanos. Porto Maravilha, BRTs e intervenções de infraestrutura passaram a fazer parte do legado associado às suas administrações. Ao mesmo tempo, obras e decisões daquele período provocaram críticas sobre custos, prioridades e impactos urbanos.
Agora, pela terceira vez, tenta chegar ao governo estadual.

Controvérsias e o desafio de 2026
A longa carreira também trouxe uma série de controvérsias. Paes foi citado em investigações e delações relacionadas a supostos pagamentos ilegais em campanhas eleitorais, acusações que sempre negou. Parte das investigações conduzidas no âmbito da 7ª Vara Federal do Rio acabou posteriormente atingida por decisões judiciais que anularam provas e diligências.
Outro episódio que marcou sua passagem pela Prefeitura foi o desabamento de um trecho da Ciclovia Tim Maia, em 2016, que matou duas pessoas. O acidente provocou críticas à fiscalização e à qualidade da obra e levou Paes a assumir responsabilidade política pelo episódio.
Em 2026, porém, o principal ponto de desgaste eleitoral é outro: a decisão de deixar a Prefeitura do Rio antes do fim do mandato para disputar o governo estadual. A saída permitiu que seu vice, Eduardo Cavaliere, assumisse o cargo e abriu espaço para adversários acusarem Paes de ter abandonado uma promessa de permanecer até o fim da gestão.
Apesar das críticas, o ex-prefeito chega à disputa como líder nas pesquisas. Seu principal desafio será transformar a força construída na capital em votos na Baixada Fluminense, no interior e em regiões onde o campo conservador possui maior presença.

Douglas Ruas
Douglas Ruas dos Santos tem 37 anos e representa uma das ascensões mais rápidas da política fluminense. Nascido em São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio, é filho do prefeito Capitão Nelson, uma das principais lideranças políticas do município. Formado em Direito, com pós-graduação em Gestão Pública, também é servidor concursado da Polícia Civil do Rio de Janeiro. Antes de chegar à Assembleia Legislativa, construiu sua carreira principalmente dentro da administração pública.
Sua entrada na política institucional aconteceu em São Gonçalo. Ruas foi subsecretário de Trabalho entre 2017 e 2018 e, posteriormente, ocupou o cargo de superintendente regional do Instituto Estadual do Ambiente (Inea). Em 2021, durante a administração do pai, assumiu a Secretaria de Gestão Integrada e Projetos Especiais do município.

Foi nesse período que começou a construir a imagem de gestor que hoje sustenta sua candidatura ao governo estadual. À frente da secretaria, participou da elaboração de projetos estratégicos, da captação de recursos e da articulação entre a Prefeitura de São Gonçalo, o Governo do Estado e o governo federal.
A experiência administrativa foi transformada em capital eleitoral em 2022. Candidato pelo PL, Ruas recebeu 175.977 votos para deputado estadual, a segunda maior votação daquele ano para a Alerj. O resultado colocou Ruas como um dos principais nomes do estado.
Na Assembleia, passou a defender pautas relacionadas à segurança pública, defesa do consumidor e desenvolvimento regional, mas ficou pouco tempo no Legislativo. Em 2023, o governador Cláudio Castro o convidou para assumir a Secretaria de Estado das Cidades, uma das pastas mais importantes da estrutura administrativa estadual por lidar diretamente com obras e investimentos nos municípios.

Da Secretaria das Cidades à presidência da Alerj
À frente da Secretaria das Cidades, Ruas passou a percorrer diferentes regiões do Rio e a administrar um amplo portfólio de obras. Segundo a própria Alerj, sua gestão contemplou 73 municípios, com mais de R$ 2 bilhões em investimentos, incluindo pavimentação e drenagem, pontes, equipamentos esportivos e culturais, mobilidade urbana e requalificação de espaços públicos.
Politicamente, a secretaria tinha uma importância que ia além das obras. A pasta permitia a Ruas estabelecer relações com prefeitos, vereadores e lideranças municipais de diferentes regiões do estado. Para um deputado de primeiro mandato que pretendia ampliar sua influência para além de São Gonçalo, era uma posição estratégica.
Ao mesmo tempo, sua atuação na secretaria trouxe questionamentos. A concentração de investimentos em São Gonçalo, município administrado por seu pai, tornou-se alvo de críticas de adversários. O argumento utilizado pelos opositores era de que a presença de Ruas no governo estadual poderia beneficiar politicamente seu principal reduto eleitoral e fortalecer a própria família no município.

A questão familiar acompanha Ruas desde o início da carreira. Sua entrada na administração de São Gonçalo foi questionada por adversários sob alegação de nepotismo, enquanto a prefeitura sustentou a legalidade da nomeação. Para o perfil eleitoral, o ponto importante é mostrar que a carreira de Ruas nasceu dentro de uma estrutura política familiar, mas ganhou posteriormente dimensão estadual.
Em março de 2026, Ruas deixou a Secretaria das Cidades e retornou à Alerj para reassumir o mandato. Pouco depois, sua carreira deu outro salto.
Em abril, foi eleito presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Na votação realizada em 17 de abril, recebeu 44 votos favoráveis, uma abstenção e 25 ausências. O cargo colocou Ruas no centro de uma das maiores crises institucionais da história recente do estado.

A ascensão de Ruas à presidência da Alerj ocorreu em um momento de vacância no comando do Executivo estadual. Com a saída de Cláudio Castro e outras mudanças na linha sucessória, surgiu a discussão sobre quem deveria assumir temporariamente o Governo do Rio.
Como presidente da Assembleia, Ruas sustentou que deveria ocupar o Palácio Guanabara, invocando sua posição na linha sucessória. O Supremo Tribunal Federal, entretanto, manteve o desembargador Ricardo Couto, presidente do Tribunal de Justiça do Rio, como governador interino.
Ruas chegou a recorrer ao STF duas vezes para tentar assumir o governo, mas os pedidos foram rejeitados por Cristiano Zanin e Luiz Fux. O episódio transformou uma questão institucional em uma vitrine nacional para o então presidente da Alerj.
Um candidato de direita em busca do eleitor bolsonarista
Ruas chega à eleição apoiado pelo PL e com uma identidade política claramente posicionada à direita. Em sabatina realizada pela Folha/UOL, declarou-se favorável à anistia dos condenados pelos atos de 8 de janeiro, contrário à legalização do aborto e às câmeras corporais nas polícias e também contrário às apostas esportivas. Na mesma entrevista, afirmou que a segurança pública é o principal desafio do estado.
Sua relação com Cláudio Castro, entretanto, é um capítulo mais delicado.
Ruas foi secretário durante o governo Castro, mas, já candidato, evitou fazer uma avaliação direta do ex-governador. Em agosto, afirmou que Castro não estaria em seus palanques e criticou problemas da antiga gestão, especialmente na área de segurança pública. A posição ganhou peso depois que Castro passou a enfrentar novas investigações.
Ruas busca se distanciar constantemente da imagem negativa de Castro. O ex-governador, além de investigado em grandes escândalos e inelegível para o Senado, também enfrenta forte rejeição; Ao mesmo tempo, o trunfo de Ruas é a influência do PL no estado.
Na pesquisa Datafolha divulgada em 11 de setembro, Ruas aparece com 25% das intenções de voto, contra 43% de Eduardo Paes e 10% de Anthony Garotinho. Entre os eleitores que se identificam como bolsonaristas, entretanto, sua vantagem é expressiva: chegou a 48%, contra 27% de Paes.
Ruas enfrenta a maré de aprovação de Paes em um momento de instabilidade política e uma “maré de azar” da direita bolsonarista, onde tem a garantia dos votos dos fiéis, mas precisa, acima de tudo, conquistar os eleitores não tão à direita como ele.

Anthony Garotinho
Antes de ser governador, deputado federal ou candidato à Presidência da República, Anthony Garotinho construiu sua principal ferramenta política diante de um microfone. Radialista de Campos dos Goytacazes, sua cidade natal, ele desenvolveu uma comunicação direta e popular que ajudaria a transformá-lo em um dos políticos mais conhecidos do Rio de Janeiro.
Sua entrada na política aconteceu justamente em Campos, onde foi prefeito por dois mandatos. Filiado inicialmente ao PDT e próximo de Leonel Brizola, Garotinho construiu uma imagem associada à defesa de políticas sociais e a um discurso voltado para as camadas populares. Em 1998, depois de ter perdido a eleição para governador em 1994, conseguiu chegar ao Palácio Guanabara.

O governo iniciado em 1999 ajudou a consolidar sua projeção nacional. Garotinho passou a investir em programas sociais, serviços públicos subsidiados e iniciativas de atendimento direto à população, ao mesmo tempo em que fortalecia sua presença entre setores evangélicos. A comunicação simples, a capacidade de falar para públicos populares e o estilo personalista fizeram dele uma figura de forte apelo eleitoral.
A força construída no Rio chegou a ultrapassar as fronteiras do estado. Em 2002, já fora do governo estadual, Garotinho disputou a Presidência pelo PSB e terminou a eleição em terceiro lugar, com 15,18 milhões de votos, equivalentes a 17,87% dos votos válidos. Ficou atrás de Luiz Inácio Lula da Silva e José Serra, mas à frente de Ciro Gomes.

O resultado transformou Garotinho em um dos principais nomes da política nacional naquele momento. Sua candidatura mostrou que o ex-radialista de Campos havia conseguido construir uma base eleitoral muito além do estado que governara.
A família Garotinho e a construção de um grupo político
A história de Garotinho também não pode ser separada da trajetória política de sua família. Depois de deixar o governo para disputar a Presidência, sua esposa, Rosinha Garotinho, venceu a eleição para governadora em 2002. Posteriormente, ela também comandaria a Prefeitura de Campos.
Garotinho ainda ocupou cargos de destaque, entre eles o de secretário de Segurança Pública durante a administração de Rosinha e o de deputado federal. Ao longo dos anos, sua atuação passou a combinar a força eleitoral construída pelo discurso popular com uma estrutura política concentrada especialmente no Norte Fluminense.

Esse modelo produziu fidelidade eleitoral, mas também uma sucessão de conflitos e acusações. A trajetória do grupo familiar foi marcada por investigações, processos eleitorais e disputas judiciais, fazendo com que Garotinho se tornasse uma das figuras mais polarizadoras da política fluminense.
É justamente aí que aparece uma das características mais importantes de sua carreira: Garotinho raramente passa despercebido. Para seus apoiadores, é um político que enfrentou grupos tradicionais e sempre manteve uma comunicação próxima das camadas populares. Para seus adversários, sua trajetória representa um modelo de política personalista, marcado por confrontos, alianças circunstanciais e sucessivas batalhas judiciais.
O próprio nome pelo qual ficou conhecido, “Garotinho”, nasceu de sua carreira no rádio e acabou se transformando em uma das marcas eleitorais mais fortes do estado.

As prisões de Garotinho
Poucos políticos brasileiros têm uma trajetória tão marcada por idas e vindas entre o poder e a Justiça quanto Anthony Garotinho. Entre 2016 e 2019, o ex-governador foi preso cinco vezes, em processos diferentes ou em desdobramentos de investigações que atravessaram sua carreira política. A primeira ocorreu em novembro de 2016, no âmbito da Operação Chequinho, que investigava suspeitas de compra de votos em Campos dos Goytacazes por meio do programa Cheque Cidadão.

Em setembro de 2017, Garotinho voltou a ser detido, novamente relacionado ao caso. Dois meses depois, em novembro, veio uma terceira prisão, desta vez na Operação Caixa D’Água, que investigava suspeitas envolvendo financiamento eleitoral e supostos repasses da JBS.
A quarta prisão aconteceu em 3 de setembro de 2019, quando Garotinho e sua mulher, a ex-governadora Rosinha Garotinho, foram detidos em uma operação do Ministério Público do Rio que investigava suspeitas de superfaturamento em contratos da Prefeitura de Campos com a Odebrecht para programas habitacionais. Na ocasião, o UOL registrou que aquela era a quarta prisão de Garotinho desde 2016 e a segunda de Rosinha.

Menos de dois meses depois, em 29 de outubro de 2019, uma nova decisão do Tribunal de Justiça do Rio derrubou o habeas corpus concedido anteriormente ao casal e determinou novamente a prisão de Garotinho — a quinta vez desde 2016. Os processos e as medidas cautelares tiveram diferentes desdobramentos judiciais, e as prisões não podem ser tratadas, por si só, como prova de culpa definitiva.
O contexto ajuda a dimensionar o tamanho da crise institucional vivida pelo Rio. Garotinho não foi um caso isolado. Em poucos anos, o estado viu uma sucessão inédita de ex-governadores e integrantes da cúpula política serem presos:
Sérgio Cabral foi preso em novembro de 2016, no avanço da Lava Jato no Rio, e permaneceu detido por cerca de seis anos, até dezembro de 2022.

Luiz Fernando Pezão, que sucedeu Cabral no governo estadual, foi preso em novembro de 2018. Rosinha, por sua vez, acabou presa junto com Garotinho em 2017 e novamente em 2019.

Em março de 2019, a Agência Brasil chegou a registrar que cinco ex-governadores do Rio, incluindo Garotinho, Rosinha, Cabral e Pezão, haviam sido presos ou estavam envolvidos em processos criminais, retrato de uma crise política que atingiu praticamente toda uma geração que comandou o estado.
Esse período deixou uma marca profunda na imagem de Garotinho. O político que havia chegado ao Palácio Guanabara com forte apelo popular, disputado a Presidência da República e construído uma das maiores máquinas eleitorais do interior fluminense passou a ser associado também a uma sequência de investigações, prisões e batalhas judiciais. É uma contradição central de sua trajetória: o mesmo personagem conhecido pelo carisma, pela comunicação direta e pela capacidade de mobilizar eleitores também se tornou um dos nomes mais recorrentes nas páginas policiais da política fluminense.

As batalhas judiciais e a tentativa de voltar ao Palácio Guanabara
Mas outro processo passou a ameaçar diretamente seu projeto de voltar ao governo estadual.
Em setembro de 2026, o Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro indeferiu, por unanimidade, o registro da candidatura de Garotinho ao governo. O tribunal apontou uma condenação por ato doloso de improbidade administrativa, com dano ao erário e enriquecimento ilícito de terceiros, além da suspensão dos direitos políticos. A decisão ainda pode ser contestada no Tribunal Superior Eleitoral.
A condenação está relacionada a um processo envolvendo a destinação de recursos da Secretaria de Saúde durante o governo de Rosinha. Segundo as informações apresentadas no processo, a acusação envolve R$ 234,4 milhões que teriam sido desviados para organizações não governamentais. Garotinho contesta a interpretação sobre o período de inelegibilidade e afirma que continuará buscando o direito de disputar a eleição.

O episódio coloca uma situação incomum na campanha: Garotinho continua sendo eleitoralmente relevante, mas sua própria presença nas urnas depende de uma decisão judicial definitiva sobre sua candidatura.
Mesmo assim, as pesquisas mostram que seu nome ainda possui força. No Datafolha divulgado em 11 de setembro, Garotinho aparecia com 10% das intenções de voto, atrás de Eduardo Paes, com 43%, e Douglas Ruas, com 25%. Na Quaest divulgada dias antes, tinha 8%, contra 39% de Paes e 18% de Ruas.
É essa combinação que torna Garotinho particularmente interessante nesta eleição: ele não é simplesmente um ex-governador tentando voltar ao poder. É um político que já disputou a Presidência, governou o Rio, construiu uma marca eleitoral própria, ajudou a consolidar uma das famílias políticas mais conhecidas do estado e atravessou décadas de disputas políticas e judiciais.
Em 2026, tenta transformar toda essa experiência em uma nova candidatura ao Palácio Guanabara enquanto precisa, ao mesmo tempo, convencer o eleitor e a Justiça Eleitoral de que ainda pode estar na disputa.

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A eleição para o Governo do Rio de Janeiro em 2026 reúne três personagens com trajetórias políticas bastante diferentes. Eduardo Paes chega à disputa com a experiência de quatro passagens pela Prefeitura do Rio, uma ampla exposição pública e o peso de uma administração conhecida por grandes projetos de infraestrutura e transformação urbana. Douglas Ruas representa uma geração mais jovem da política fluminense e construiu uma ascensão rápida a partir de São Gonçalo, passando pela administração municipal, pela Assembleia Legislativa, pela Secretaria de Estado das Cidades e, em 2026, pela presidência da Alerj. Já Anthony Garotinho tenta transformar décadas de experiência eleitoral e seu histórico de forte comunicação popular em uma tentativa de retorno ao Palácio Guanabara.
O cenário, porém, vai além da disputa entre experiência, renovação e tradição. A eleição acontece em um estado marcado por profundas mudanças políticas nas últimas décadas, crises fiscais, problemas de segurança pública, disputas entre grupos políticos e uma sucessão de investigações que atingiram nomes de praticamente todas as principais forças que passaram pelo comando do Rio. Garotinho, Rosinha Garotinho, Sérgio Cabral e Luiz Fernando Pezão, em diferentes momentos, estiveram no centro de processos e prisões que simbolizaram a crise de credibilidade enfrentada pela política fluminense.
Em 2026, a corrida também é influenciada pela polarização nacional. Paes busca se apresentar como um administrador experiente e tenta ampliar sua força para além da capital, enquanto Ruas procura consolidar-se como o principal representante do campo bolsonarista no estado. Garotinho, por sua vez, aposta no conhecimento de seu nome e na relação construída durante décadas com o eleitorado, especialmente no interior. As pesquisas mais recentes colocam Paes na liderança, Ruas em segundo e Garotinho em terceiro, mas a composição do eleitorado e a possibilidade de segundo turno mantêm aberta a disputa política.
O componente judicial acrescenta outra camada à eleição. Enquanto Garotinho tenta reverter no Tribunal Superior Eleitoral a decisão do TRE-RJ que negou seu registro de candidatura, Paes e Ruas entram na disputa com trajetórias políticas igualmente marcadas por alianças, disputas e controvérsias, ainda que em contextos completamente diferentes. O resultado definirá não apenas quem ocupará o Palácio Guanabara, mas também qual grupo político terá condições de reorganizar o poder no estado nos próximos anos.
Mais do que uma simples eleição entre três candidatos, a disputa de 2026 coloca frente a frente três formas de fazer política no Rio: a experiência administrativa construída na capital, a ascensão de uma nova geração formada dentro da máquina política estadual e o retorno de um veterano que conhece profundamente o eleitorado fluminense. É nesse cruzamento entre passado, presente e futuro que está uma das eleições mais importantes da política do Rio de Janeiro.
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