O cacique Raoni Metuktire, de 94 anos, foi diagnosticado com um adenocarcinoma pouco diferenciado no aparelho digestório e passou a receber cuidados paliativos em uma estrutura de assistência domiciliar em Peixoto de Azevedo, no norte de Mato Grosso. A informação foi divulgada pelo Instituto Raoni, que acompanha o líder indígena junto à família e às equipes de saúde.
A decisão médica de não adotar um tratamento com intenção de cura considera a idade avançada, as condições clínicas de Raoni e os riscos associados a terapias mais agressivas. Em vez de buscar eliminar o tumor por meio de procedimentos de maior impacto, a equipe passou a priorizar o controle dos sintomas, o conforto e a qualidade de vida.
VEJA TAMBÉM:
Dor lombar é multifatorial e exige avaliação individual, explica especialista no Fala Doutor
Entenda o que aconteceu
Os primeiros sinais de agravamento da saúde de Raoni surgiram meses antes do diagnóstico. De acordo com o Instituto Raoni, ele passou a apresentar dores abdominais persistentes e precisou ser internado para investigação.
Durante os exames, os médicos identificaram uma alteração na região infra-hepática, inicialmente sugestiva de um processo expansivo intestinal ou hepático. Naquele momento, considerando a idade e o estado geral de saúde do cacique, a equipe adotou uma abordagem mais cuidadosa e direcionada ao controle dos sintomas e das demais condições clínicas.
O quadro se agravou em junho, quando Raoni apresentou vômitos intensos e foi novamente levado para atendimento médico. Os exames apontaram uma obstrução intestinal na região do duodeno provocada pelo tumor, impedindo a passagem adequada do conteúdo digestivo.
Após ser transferido para São Paulo, o cacique passou por uma gastroenteroanastomose, procedimento realizado para criar uma nova passagem para os alimentos e melhorar as condições de alimentação e conforto. Exames posteriores confirmaram o diagnóstico de câncer.
O que é o adenocarcinoma
O adenocarcinoma é um tipo de câncer que se origina em células glandulares, responsáveis pela produção de substâncias como muco e enzimas em diferentes órgãos.
No caso de Raoni, o Instituto informou que se trata de um adenocarcinoma pouco diferenciado no aparelho digestório. A expressão “pouco diferenciado” é utilizada pelos médicos para descrever células tumorais que apresentam características mais diferentes das células normais do tecido de origem.
O diagnóstico, porém, não deve ser interpretado isoladamente. A definição do tratamento depende de fatores como localização do tumor, extensão da doença, estado clínico e condições gerais do paciente.
Por que o tratamento com intenção de cura foi descartado
No caso de Raoni, a decisão médica levou em consideração um conjunto de fatores.
Aos 94 anos, o líder indígena já apresentava outras condições de saúde importantes e havia enfrentado sucessivas internações e agravamentos clínicos ao longo de 2026. O Instituto Raoni informou que as equipes médicas avaliaram que os riscos de tratamentos mais agressivos eram elevados.
Por isso, a estratégia passou a priorizar os cuidados paliativos, em vez de procedimentos voltados à tentativa de eliminar o câncer.
Essa decisão não significa que Raoni tenha deixado de receber tratamento. O objetivo passa a ser controlar sintomas, evitar sofrimento e proporcionar a melhor qualidade de vida possível diante do quadro.
Cuidados paliativos não significam ausência de tratamento
O Instituto Raoni reforçou que os cuidados paliativos não representam abandono médico.
A assistência inclui controle da dor e de outros sintomas, alimentação, hidratação, medicamentos, acompanhamento médico, enfermagem e fisioterapia. O atendimento é realizado em uma estrutura domiciliar próxima à família e ao povo de Raoni.
A abordagem também leva em consideração aspectos culturais e espirituais. Segundo o Instituto Raoni, a assistência busca respeitar a cultura Mẽbêngôkre, a língua, as escolhas e as referências espirituais do líder indígena.
LEIA TAMBÉM:
José Sarney apresenta evolução clínica favorável durante tratamento de pneumonia
Raoni enfrentou uma sequência de problemas de saúde em 2026
O diagnóstico de câncer ocorreu depois de um período especialmente delicado para o cacique. Ao longo de 2026, Raoni passou por diferentes internações, exames e complicações clínicas.
Entre os problemas relatados pelo Instituto estão doenças respiratórias e cardíacas, além de outras condições que exigiam acompanhamento constante. O histórico inclui doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), insuficiência cardíaca e cardiopatia com marcapasso, entre outras condições.
Em junho, a obstrução intestinal provocada pelo tumor levou a uma nova transferência para São Paulo. Depois do procedimento realizado no Hospital São Paulo, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), exames confirmaram o câncer.
Após a internação, Raoni retornou para Peixoto de Azevedo, onde passou a ser acompanhado por uma estrutura de assistência domiciliar organizada pela família, pelo Instituto Raoni, pelos serviços públicos de saúde e por profissionais parceiros.
Entenda o contexto
Raoni Metuktire é uma das principais lideranças indígenas do Brasil e uma referência internacional na defesa dos povos originários, dos territórios tradicionais e da preservação da Amazônia.
Ao longo de décadas, o cacique kayapó participou de mobilizações e campanhas internacionais em defesa dos povos indígenas e da floresta. Sua trajetória ganhou repercussão mundial, inclusive por sua parceria com o músico britânico Sting em ações de defesa da Amazônia.
Mesmo diante dos problemas de saúde enfrentados em 2026, Raoni permaneceu ativo até recentemente. Em abril, participou do Acampamento Terra Livre, em Brasília, considerado uma das principais mobilizações indígenas do país.
Atualmente, ele permanece em Peixoto de Azevedo (MT), próximo à família e ao seu povo, recebendo assistência médica e cuidados paliativos.
AS MAIS LIDAS DO NC NEWS:
Virginia Fonseca surge com visual ousado e web questiona se vale tudo para aparecer
Turista gaúcha denuncia abuso sexual durante festival indígena no Acre
Hospital e funerária são condenados após troca de corpo em sepultamento em SP