O Ministério Público de São Paulo (MPSP) denunciou cinco pessoas por suspeita de participação em um esquema clandestino de coleta e comercialização de sangue de gatos em Monte Alto, no interior do estado. A denúncia foi apresentada em 2 de setembro e aguarda análise da Justiça.
Segundo a investigação, os animais eram captados em diferentes cidades do interior paulista, sedados e submetidos à retirada de sangue em condições consideradas inadequadas pelas autoridades. O material seria posteriormente comercializado para utilização em transfusões veterinárias.
Entre os denunciados está a médica veterinária Thaís Daniele Antonussi, de 34 anos. Também foram denunciados Renato Franco, Celso Truguilo Alves, Everton Leite Silva e José Luiz de Lima.
A denúncia atribui aos cinco crimes relacionados a maus-tratos contra animais e associação criminosa, embora as acusações e a participação individual de cada investigado ainda dependam da análise judicial e do andamento do processo.
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Como funcionava o esquema, segundo a investigação
A apuração policial aponta que o grupo recrutava gatos para a retirada de sangue. Segundo os investigadores, tutores, principalmente pessoas de baixa renda, receberiam cerca de R$ 50 por animal levado para o procedimento.
Depois da coleta, as bolsas de sangue poderiam ser comercializadas por valores entre R$ 500 e R$ 800, conforme informações apresentadas na investigação.
O sangue seria destinado ao abastecimento de um banco de sangue ligado à clínica atribuída à veterinária Thaís Antonussi.
A investigação afirma ainda que os procedimentos aconteciam sem a estrutura considerada necessária para esse tipo de atividade. Os animais seriam submetidos a sedação ou anestesia geral sem monitoramento adequado e sem avaliação prévia de fatores como peso, idade e condições de saúde.
Também não haveria licença da Vigilância Sanitária ou supervisão de um médico veterinário habilitado nos locais onde parte das coletas teria sido realizada.
O caso veio à tona em 2025
A investigação começou em 4 de outubro de 2025, quando autoridades receberam uma denúncia sobre uma oferta de dinheiro para quem fornecesse gatos para coleta de sangue.
Agentes foram até uma residência em Monte Alto e encontraram animais desacordados. No imóvel, havia pessoas usando luvas e roupas associadas a procedimentos veterinários.
Um dos envolvidos afirmou ser estudante de medicina veterinária, enquanto outros disseram atuar como auxiliares. Na ocasião, seis gatos foram encontrados sedados.
A operação resultou na prisão de três pessoas. Segundo a investigação, um estudante teria recebido R$ 300 pelos procedimentos, enquanto dois auxiliares receberiam R$ 100 cada.
No local, foram apreendidos 108 tubos contendo sangue de gato, além de seringas, agulhas, frascos com anticoagulante, celulares e imagens de animais sedados.
A investigação também identificou problemas nas condições do imóvel utilizado para os procedimentos.
Um dos gatos testou positivo para FIV
Após a operação, amostras de sangue de três gatos foram submetidas a exames.
Um deles apresentou resultado positivo para FIV, o vírus da imunodeficiência felina. A doença afeta o sistema imunológico dos gatos e não é considerada transmissível aos seres humanos.
O resultado reforçou, segundo as autoridades envolvidas no caso, a preocupação com a ausência de avaliação prévia da condição de saúde dos animais antes das coletas.
Os demais animais passaram por exames e acompanhamento.
Cinco denunciados nesta nova etapa
A denúncia apresentada agora pelo Ministério Público surgiu após a conclusão de uma nova etapa do inquérito policial, encerrado em 11 de agosto de 2026.
Nessa fase, o órgão acusador incluiu entre os denunciados integrantes apontados como pertencentes ao núcleo veterinário e comercial do suposto esquema.
Thaís Daniele Antonussi, Renato Franco e Celso Truguilo Alves respondem, segundo a acusação, por seis episódios de maus-tratos e por associação criminosa.
Everton Leite Silva e José Luiz de Lima são acusados de associação criminosa e já haviam sido relacionados à investigação anterior por suspeitas de maus-tratos.
A Justiça de Monte Alto recebeu a nova denúncia em 10 de setembro, e o caso tramita na 2ª Vara da cidade.
Sangue de animais pode ser usado em transfusões
A investigação não questiona a utilização de sangue animal em procedimentos veterinários de forma regular.
Transfusões podem ser necessárias em situações de emergência e no tratamento de animais que apresentam determinadas condições clínicas.
O que está sob investigação é a forma como o sangue teria sido obtido e comercializado no caso de Monte Alto.
Segundo as autoridades, os procedimentos investigados teriam ocorrido fora das condições consideradas adequadas e sem os controles necessários para garantir a segurança dos animais e do material coletado.
Polícia identificou diferentes funções
Segundo a Polícia Civil, a investigação reuniu laudos periciais, análises de celulares, documentos financeiros, depoimentos e outros elementos.
A corporação afirma ter identificado diferentes funções dentro da estrutura investigada, incluindo financiamento, coordenação, captação dos animais e realização das coletas.
O objetivo agora é esclarecer a participação individual dos cinco denunciados e verificar a extensão das atividades investigadas.
O que dizem os envolvidos
A reportagem da Folha informou que não conseguiu identificar as defesas dos cinco denunciados.
Em relação à veterinária Thaís Antonussi, mensagens foram enviadas pela reportagem por meio de contatos disponíveis publicamente, mas não houve resposta até a publicação.
O Conselho Regional de Medicina Veterinária de São Paulo informou que realizou fiscalizações nos estabelecimentos relacionados ao caso, constatou irregularidades e adotou medidas administrativas.
É importante ressaltar que a denúncia do Ministério Público não representa uma condenação. Os cinco envolvidos passam a responder às acusações caso a Justiça receba formalmente a denúncia nos termos previstos na legislação, e terão direito à defesa durante o processo.
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Entenda O Contexto
O caso começou em outubro de 2025, quando uma denúncia sobre a oferta de dinheiro para a coleta de sangue de gatos levou as autoridades até uma residência em Monte Alto. Seis animais foram encontrados desacordados e, segundo a investigação, submetidos a procedimentos de coleta em condições inadequadas.
A operação revelou uma estrutura que, segundo a Polícia Civil, envolvia diferentes pessoas e funções. O sangue recolhido seria posteriormente destinado a uma clínica veterinária, enquanto os animais seriam obtidos mediante pagamentos aos tutores.
A investigação avançou ao longo dos meses seguintes e reuniu elementos como documentos, mensagens, registros financeiros, depoimentos e laudos. Com a conclusão de uma nova etapa do inquérito, o Ministério Público apresentou uma denúncia contra cinco pessoas em setembro de 2026.
As acusações incluem maus-tratos e associação criminosa. A Justiça de Monte Alto recebeu a nova denúncia em 10 de setembro, dando início à tramitação judicial dessa etapa do caso.
O episódio também levantou uma discussão sobre a diferença entre a utilização legítima de sangue animal em transfusões veterinárias e a obtenção clandestina do material. A coleta para fins médicos pode ser necessária para salvar animais, mas precisa seguir protocolos de segurança, avaliação clínica e supervisão profissional.
Até o momento, as acusações contra os cinco denunciados ainda serão analisadas no processo. A eventual responsabilidade criminal de cada um dependerá das provas e das decisões da Justiça.
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