Para muitas mulheres, uma corrida de aplicativo começa antes mesmo de o carro chegar. Começa na tela do celular, quando aparecem o nome do motorista, a placa do veículo e o horário da viagem.
Em poucos segundos, uma série de perguntas pode passar pela cabeça: quem está dirigindo? De onde vem? Como vai se comportar? O trajeto será tranquilo? É melhor compartilhar a localização? E, principalmente, existe algum risco naquela viagem?
A preocupação está longe de ser isolada. Uma pesquisa dos institutos Patrícia Galvão e Locomotiva, divulgada em setembro de 2026 com apoio da Uber, mostra que 94% das mulheres brasileiras se sentem inseguras diante da violência. O levantamento ouviu 1.500 pessoas com 16 anos ou mais, de todas as regiões do país, entre 22 e 30 de abril, por meio de entrevistas digitais. A margem de erro é de 2,8 pontos percentuais.
Entre as mulheres, 78% afirmaram já ter sofrido algum tipo de violência. A pesquisa aponta ainda que 98% adotam pelo menos uma estratégia para reduzir riscos no cotidiano. O medo interfere em hábitos de lazer, deslocamentos e até decisões relacionadas ao trabalho e ao estudo: 62% já mudaram hábitos de lazer para evitar situações de risco, 58% deixaram de frequentar lugares de que gostavam e 45% afirmam já ter deixado de aproveitar oportunidades de trabalho ou estudo por causa do medo da violência.
A insegurança, portanto, acompanha a mulher antes, durante e depois do deslocamento. Mas existe uma diferença importante quando ela deixa o banco traseiro e assume o volante.
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“Fico mais tranquila quando é uma mulher”
A sensação de segurança muda completamente quando uma mulher entra sozinha em um carro de aplicativo. Não significa necessariamente esperar que algo aconteça, mas significa permanecer atenta a detalhes que, para outros passageiros, sequer fazem parte da viagem: conferir a placa, observar quem está ao volante, compartilhar a localização, prestar atenção ao caminho e pensar no que fazer caso uma conversa ultrapasse determinados limites.
A maquiadora Vitória Silva diz que costuma se sentir mais tranquila quando a motorista é mulher, principalmente durante a noite. Ainda assim, ela afirma que nunca passou por uma situação diretamente desconfortável durante uma corrida.
“Fico com receio dependendo do horário do dia, principalmente no período noturno. Eu sempre fico mais ‘tranquila’ quando é uma mulher, mas normalmente acabo pegando com mais frequência com motoristas homens”, conta.
Para Vitória, a sensação de insegurança também está ligada a uma experiência que ultrapassa os aplicativos.
“Nós mulheres já passamos por vários outros desconfortos, muitos impostos pela sociedade, infelizmente. É complicado”, afirma.
A enfermeira Ariane Calixto também afirma que normalmente se sente segura, mas adota cuidados adicionais quando está sozinha à noite. Antes de entrar no carro, confere o nome do motorista e a placa do veículo e costuma compartilhar a viagem com alguém de confiança.

Durante o dia, diz que geralmente fica tranquila. À noite, porém, a presença de um homem ao volante pode aumentar sua apreensão. E o desconforto não aparece apenas quando existe uma ameaça explícita. Ariane relata que já ouviu comentários sobre sua aparência e teve motoristas tentando conduzir a conversa para assuntos pessoais.
“É uma situação que deixa a gente desconfortável, principalmente porque você está dentro do carro e não sabe como a pessoa vai reagir”, relata.
A vendedora Larissa Alencar também compartilha as viagens e permanece mais atenta quando está sozinha à noite. Ela ressalta que a cautela não significa considerar todos os motoristas perigosos, mas representa, para ela, uma forma básica de prevenção.
Em uma das corridas, um motorista perguntou onde ela morava, se vivia sozinha e se tinha namorado. Larissa tentou desconversar, mas as perguntas continuaram.
“Não aconteceu nada além disso, mas eu fiquei bastante desconfortável”, afirma.
Os três relatos têm uma característica importante: nenhuma das entrevistadas descreve uma agressão física ou uma situação que tenha terminado em violência grave. Ainda assim, todas relatam algum nível de preocupação, desconforto ou necessidade de adotar cuidados adicionais.
Essa diferença entre violência sofrida e sensação de insegurança ajuda a entender o comportamento das passageiras. Uma mulher não precisa ter sido vítima de uma agressão dentro de um aplicativo para modificar seus hábitos. O risco percebido já é suficiente para alterar a forma como ela escolhe horários, trajetos, motoristas e maneiras de avisar alguém sobre onde está.

Uma pesquisa anterior dos institutos Patrícia Galvão e Locomotiva, realizada em 2024 com 4.001 mulheres de 18 anos ou mais, mostrou que 97% sentiam medo de sofrer violência durante os deslocamentos e 71% já haviam vivido alguma situação de violência enquanto se deslocavam pela cidade. Entre os episódios relatados estavam olhares insistentes, cantadas inconvenientes, assaltos, furtos, sequestro-relâmpago, importunação sexual, preconceito, racismo, agressão física e estupro.
A maior parte dessas experiências ocorreu quando as mulheres estavam a pé ou no transporte coletivo. O estudo registrou ainda que 10% das entrevistadas já haviam vivido uma situação de violência em carro de aplicativo e 13% em carro particular. Ao mesmo tempo, o carro por aplicativo aparecia entre os meios de deslocamento percebidos como mais seguros pelas participantes.
O dado mostra que o problema não nasceu com os aplicativos. A insegurança feminina faz parte de uma questão mais ampla de mobilidade urbana. Mas, quando a corrida começa, existe uma mulher em cada lado da viagem.
De um lado, a passageira. Do outro, a motorista.
Quando a mulher está no volante
Se existe uma mulher que entra no carro pensando em quem está dirigindo, existe também uma mulher que passa horas justamente atrás do volante.
No transporte por aplicativo, essa profissional trabalha em um ambiente que combina trânsito intenso, passageiros desconhecidos, horários variados, exposição nas ruas e responsabilidade direta pela vida de quem está dentro do veículo. A presença feminina, porém, ainda é pequena.
Um levantamento da Machine, baseado em corridas e entregas registradas em 2024, 2025 e 2026, mostra que as mulheres representam 10,61% dos motoristas de transporte por aplicativo no Brasil em 2026. O percentual era de 11,53% em 2024 e 11,21% em 2025. Ou seja, pouco mais de uma em cada dez pessoas que trabalham dirigindo para aplicativos é mulher.
O número chama atenção justamente no momento em que as plataformas ampliam recursos destinados a conectar passageiras e motoristas mulheres.
Mas antes de discutir a tecnologia, é preciso entender o que acontece com quem está trabalhando. Denise Borges tem 45 anos, é motorista de aplicativo em São Paulo e está há quatro anos enfrentando o trânsito da capital. Quando questionada sobre segurança, a resposta é direta.
“Segura, nós não nos sentimos seguras. Pelo contrário, nós estamos a todo momento desprotegidas, sofrendo violência, preconceito, xingamentos.”

Para Denise, parte dessa hostilidade aparece nas situações mais comuns do trânsito. Dar seta ou tentar mudar de faixa é suficiente para provocar reações agressivas de outros condutores. Segundo ela, o fato de ser mulher pode tornar algumas dessas situações ainda mais difíceis.
Ela procura evitar confrontos porque sabe que, além de dirigir, tem outra responsabilidade dentro do carro: transportar uma pessoa em segurança.
“A responsabilidade de você estar com um ser humano dentro do carro, transportando para outro lugar, então você acaba relevando…
Mas levar o problema para casa também faz parte da rotina.
Às vezes, quando chegamos em um ambiente, a gente dá aquela descarregada, respira fundo, olha para frente e vai para a luta, para a guerra. Mas não é fácil. Nosso dia a dia não é fácil.”
Em Brasília, Cléo Souza, 42 anos, também aprendeu a transformar atenção em mecanismo de trabalho. Ela atua diretamente como motorista de aplicativo há cerca de um ano, mas sua trajetória na atividade já soma aproximadamente quatro anos e meio, com períodos de pausa.
Para ela, ser mulher ao volante exige cuidados que não podem ser ignorados.
“Ser motorista mulher exige mais atenção da gente. A gente não pode rodar em qualquer local, a qualquer horário. Então, a gente tem que sempre estar atenta.”

Cléo também procura controlar a relação com os passageiros.
“O que eu procuro fazer é conversar o menos possível, para não dar muita abertura para os passageiros terem uma liberdade maior com você.”
Não se trata, segundo ela, de estabelecer uma relação hostil com quem entra no carro, mas de evitar que uma conversa ultrapasse limites ou crie uma intimidade que possa deixar a motorista desconfortável.
A estratégia individual também aparece em outras decisões: escolher as regiões onde vai trabalhar, observar os sinais antes de aceitar uma corrida e compartilhar a localização com alguém de confiança.
Esses cuidados encontram respaldo nos dados levantados pela 99 em parceria com a Think Eva. A pesquisa ouviu mais de 878 motoristas parceiras e potenciais motoristas em Fortaleza, Rio de Janeiro, Porto Alegre, São Paulo, Salvador e Belo Horizonte. Entre as entrevistadas, 76% disseram sentir que ser mulher aumenta os riscos durante o trabalho. Assaltos e locais vazios aparecem entre as principais preocupações, citados por 74,9%; segurança no trânsito aparece para 60%; assédio por passageiros, para 56,5%; assédio sexual, para 51%; e situações envolvendo outros motoristas, para 41%.
A mesma pesquisa mostra a dimensão econômica da atividade. Sete em cada dez motoristas entrevistadas são mães, 79% dizem que dirigir pela plataforma é a principal fonte de renda da casa e 57% afirmam que essa é a única fonte de renda.
É nesse ponto que a experiência de Denise ganha outra dimensão.
Ela já enfrentou situações de preconceito no trânsito e também relata ter sido impedida de estacionar em determinado local por ser motorista de aplicativo. Mas uma das experiências que mais a marcou não envolveu uma discussão com outro motorista ou uma ameaça de passageiro.
Em novembro, por volta das 19h, Denise transportava dois adolescentes pela Marginal. A chuva estava forte, a água acumulada dificultava a visibilidade e o ar-condicionado do veículo não conseguia “dar conta da situação”. Ela precisou parar no acostamento.
Denise conta que ficou durante horas esperando por ajuda, enquanto assistia inúmeros veículos continuarem passando e nenhum sinal de auxílio.
“Eu tive que parar no acostamento e sair na chuva, pedir socorro. Ali eu fiquei por horas, ali me afetou muito e eu me senti muito desprotegida.”

Ela permaneceu durante horas esperando ajuda enquanto outros veículos passavam pela via. A situação só terminou quando um homem parou para ajudá-la, retirou o carro do local e a orientou. Denise conseguiu concluir a corrida, deixou os passageiros no destino e só depois encontrou um lugar para parar. O impacto da situação a acertou em cheio.
“Depois eu encostei, esperei, chorei muito e aí depois eu segui minha viagem.”
O episódio mostra que a vulnerabilidade da motorista não aparece apenas diante de um passageiro agressivo ou de uma abordagem criminosa, mas também está presente quando uma mulher precisa enfrentar sozinha uma pane, uma situação de risco ou simplesmente a sensação de estar desamparada.
Cléo, por sua vez, encontrou uma forma coletiva de lidar com parte desses momentos.
Ela participa de um grupo de apoio entre motoristas chamado Tamo Junto Motorista, utilizado pelas profissionais para compartilhar localização e pedir ajuda quando enfrentam problemas durante o trabalho.
“Às vezes você vai para um local onde você não se sente seguro, a gente manda a localização. E é onde um fica acompanhando a localização do outro.”
A rede também é acionada para situações consideradas mais simples, do tipo que pode deixar uma motorista vulnerável quando está sozinha, como um pneu furado.
“Qualquer coisa que acontece, a gente pede socorro lá. Como empurrou um pneu, acabou a gasolina. E tudo isso, a gente está lá sempre se apoiando.”
Para Cléo, esse tipo de rede faz diferença porque a atividade exige que a motorista tome decisões de segurança que muitas vezes precisam ser rápidas. Ela defende que nenhuma mulher ignore uma situação que pareça estranha, mesmo que isso signifique desistir de uma corrida.
“Passou, não se sentiu segura com o passageiro? Cancele. É melhor você perder uma corrida do que você se arriscar.”
A orientação também reflete sua forma de trabalhar: compartilhar a localização com alguém de confiança, escolher regiões nas quais se sinta mais segura e prestar atenção aos sinais antes mesmo de iniciar uma viagem. Medidas essas que se assemelham muito com a das passageiras.
“Não deixe, não precisa ter medo, mas também não ignore os sinais.”
O preconceito não está apenas em situações consideradas banais, mas às vezes em comentários “inocentes” ou pressupostos mentirosos acerca do gênero da profissional.

Cléo lembra de uma situação em que uma criança entrou no carro e comentou com o pai que uma mulher não conseguiria dirigir. Em outra ocasião, ao buscar um passageiro no aeroporto, ouviu que não seria bom ter uma mulher fazendo aquela viagem, pois ela não ajudaria a carregar a bagagem.
A resposta dela é direta:
“A gente não está lá para carregar a mala. A gente não é chofer. A gente está lá para levar ele em segurança para o local de destino.”
Para ela, são manifestações de um preconceito que pode aparecer de forma mais sutil, mas que se repete no cotidiano.
“Ele é presente no nosso dia a dia. E na maioria das vezes ele vem de uma forma mais sutil.”
Denise também identifica essa diferença de tratamento no trânsito. Segundo ela, a presença de uma mulher ao volante pode provocar uma reação diferente de outros motoristas.
“O machismo está aí. Independente de ser no trânsito, quando se vê uma mulher no volante ou em qualquer outro ambiente, já tem um olhar diferente.”
Em uma cidade como São Paulo, essa diferença pode aparecer em pequenas agressões repetidas: buzinas, fechadas, xingamentos, provocações e disputas por espaço.
“Quando se trata de mulher, eles apertam bastante, eles baixam o vidro, eles xingam.”

Os relatos das duas motoristas ajudam a explicar por que a permanência feminina na atividade envolve mais do que a decisão de ligar o aplicativo e aceitar corridas. Há uma adaptação constante aos horários, aos locais, aos passageiros e ao próprio comportamento de outros condutores.
E, apesar dos riscos, a atividade continua sendo uma fonte de renda importante.
Denise conta que já trabalhou em horários ainda mais extremos, chegando a sair de casa às 3h, 4h ou 4h30 da manhã. Hoje, reduziu esse tipo de jornada. O trabalho, porém, continua relacionado a um objetivo que vai além da renda diária: pagar a faculdade e sustentar a filha.
“Eu pago a minha faculdade através do meu trabalho, tenho uma filha. Eu não vou desistir, porque eu tenho um sonho. Eu quero me formar.”
Depois de quatro anos rodando por São Paulo, ela não vê a atividade como seu único destino, mas sim uma necessidade ligada a um objetivo pessoal. Ao mesmo tempo, Denise afirma que continua gostando de dirigir.
“É muito gratificante quando você faz o seu trabalho com responsabilidade, com educação e com cuidado à vida.”
Cléo também não resume a atividade ao medo. Sua experiência é marcada pela criação de estratégias para continuar trabalhando sem ignorar os próprios limites.
É por isso que sua orientação para outras mulheres não é simplesmente evitar a profissão.
“Conquiste o seu, corre atrás.”
O conselho vem acompanhado de uma ressalva que resume parte da experiência relatada pelas duas motoristas:
“Qualquer sinal que você perceber que algo não está certo, peça ajuda.”
Grande demanda, pouca oferta
Os relatos de Denise e Cléo ajudam a explicar uma das principais contradições do transporte por aplicativo quando o assunto é a presença feminina. De um lado, existe uma parcela de passageiras que afirma se sentir mais confortável quando encontra uma mulher ao volante. Do outro, as próprias motoristas relatam que trabalhar no setor exige cuidados adicionais justamente por serem mulheres.
O resultado é um mercado em que existe demanda por mais motoristas femininas, mas a participação delas continua reduzida: segundo levantamento da Machine, as mulheres representam 10,61% dos motoristas de transporte por aplicativo no Brasil em 2026, contra 11,53% em 2024 e 11,21% em 2025.

A pesquisa realizada pela 99 em parceria com a Think Eva ajuda a dimensionar essa diferença entre oferta e demanda. Entre as motoristas ouvidas, 93% afirmaram perceber que as passageiras se sentem mais seguras quando a motorista é mulher. Ao mesmo tempo, 76% disseram sentir que o fato de serem mulheres aumenta os riscos durante o trabalho.
A atividade, portanto, apresenta duas necessidades simultâneas: ampliar as possibilidades de escolha para as passageiras e criar condições para que mais mulheres consigam trabalhar como motoristas sem assumir sozinhas os riscos relacionados à atividade.
As plataformas passaram a incorporar essa demanda aos próprios serviços. Em junho de 2026, a Uber ampliou nacionalmente o Uber Mulher, permitindo que usuárias solicitem viagens com motoristas mulheres. A ferramenta possui diferentes modalidades, entre elas a possibilidade de reservar antecipadamente uma corrida com motorista mulher e ativar uma preferência por profissionais do sexo feminino.
A disponibilidade, porém, depende da quantidade de motoristas e da demanda em cada localidade. A Uber também mantém o U-Elas, recurso que permite a motoristas mulheres e pessoas não binárias escolher receber viagens apenas de passageiras mulheres.
A 99 adotou uma estratégia semelhante. O 99Mulher permite que motoristas parceiras ativem uma opção para receber chamadas apenas de passageiras mulheres. A empresa também reúne recursos específicos de proteção, como monitoramento de rota, compartilhamento de viagem, central de segurança e ferramentas voltadas à identificação de situações de risco.
Entre os mecanismos destinados às passageiras estão Pítia e Athena: a primeira pode direcionar mulheres em situações de risco para motoristas mulheres ou profissionais com melhor avaliação, enquanto a segunda utiliza mensagens preventivas relacionadas ao comportamento durante a corrida.
A 99 afirma que destinou R$ 75 milhões à segurança em 2025 e que possui mais de 50 funcionalidades relacionadas ao tema. Para 2026, a companhia anunciou a projeção de R$ 145 milhões em investimentos na área, com foco em tecnologia, prevenção, monitoramento e resposta a situações de risco. Os valores e os resultados divulgados são informações da própria empresa e fazem parte da estratégia apresentada pela plataforma para ampliar a segurança de passageiros e motoristas.

Mas a criação de modalidades específicas dentro de grandes aplicativos não é a única resposta que surgiu para essa demanda. No Brasil, a Lady Driver construiu sua operação justamente a partir da proposta de conectar mulheres passageiras e motoristas mulheres. A empresa começou a operar em 2017 e mantém um modelo no qual mulheres dirigem para mulheres, apresentando a segurança feminina como elemento central da plataforma.
Segundo informações divulgadas pela própria empresa, o serviço também foi ampliado para outras modalidades, como transporte de crianças e adolescentes e corridas destinadas ao atendimento de familiares.
A existência da Lady Driver ajuda a mostrar que a demanda por motoristas mulheres não surgiu apenas como uma funcionalidade adicional dentro dos grandes aplicativos. Ela também criou espaço para um modelo de negócio especializado em mobilidade feminina.
Enquanto Uber e 99 passaram a oferecer opções voltadas às mulheres dentro de plataformas que atendem a um público amplo, a Lady Driver estruturou sua identidade em torno da relação entre passageiras e motoristas mulheres. É uma diferença de modelo, mas as três iniciativas respondem a uma mesma questão: para parte das usuárias, saber quem está ao volante pode influenciar diretamente a decisão de aceitar uma corrida.
A dificuldade aparece quando essa preferência encontra a realidade do mercado de trabalho. Se apenas pouco mais de uma em cada dez pessoas que dirigem por aplicativos é mulher, a possibilidade de escolher uma motorista depende da existência de profissionais disponíveis naquele momento e naquele local.
A própria Uber informa que a oferta do Uber Mulher varia conforme a quantidade de motoristas e a demanda de cada cidade. Assim, a criação da ferramenta não significa que uma motorista mulher estará necessariamente disponível para toda passageira que fizer essa escolha.
Para as profissionais, entretanto, a discussão não termina na possibilidade de receber passageiras mulheres. Cléo considera que as plataformas ainda podem avançar nos mecanismos de proteção, principalmente quando a motorista precisa pedir ajuda durante uma situação de emergência.
“As plataformas poderiam estar investindo mais em questão de segurança. Tanto para o motorista quanto para os passageiros. Um botão que o motorista pudesse pedir socorro. Um botão mais discreto.”
A preocupação está relacionada ao momento em que esse recurso precisaria ser utilizado. Uma motorista que se sente ameaçada dentro do próprio carro pode estar ao lado do passageiro, dirigindo ou tentando evitar uma reação que agrave a situação. Para Cléo, o mecanismo precisa ser acessível sem exigir uma sequência de comandos que aumente a exposição da profissional.
“Como você vai entrar no aplicativo para pedir ajuda com o passageiro do seu lado te ameaçando?”

A crítica coloca um limite importante para as soluções tecnológicas: não basta que uma ferramenta exista; ela precisa funcionar em uma situação real de emergência. Compartilhamento de localização, monitoramento, gravação, códigos de segurança e botões de emergência ampliam as possibilidades de prevenção e resposta, mas não substituem a avaliação da própria motorista, a atuação das autoridades e as condições de segurança no ambiente onde a corrida acontece.
A experiência de Cléo também mostra por que a segurança precisa ser pensada para as duas pontas da viagem. A passageira pode escolher uma motorista mulher, compartilhar o trajeto e utilizar mecanismos de emergência. A motorista, por sua vez, também precisa ter meios para avaliar o risco antes de aceitar uma corrida, interromper uma viagem quando necessário e pedir ajuda sem colocar a própria segurança em risco.
O crescimento dessas ferramentas, portanto, não elimina o problema identificado pelas entrevistas. Ele mostra que o mercado reconheceu uma demanda específica das mulheres e passou a criar mecanismos para atendê-la, mas a baixa participação feminina entre os motoristas e os relatos de insegurança indicam que a questão permanece maior do que a tecnologia disponível nos aplicativos.
Segurança não começa nem termina na corrida
A preocupação das mulheres com os deslocamentos não se restringe aos aplicativos.
A pesquisa de 2024 dos institutos Patrícia Galvão e Locomotiva mostrou que 97% das entrevistadas tinham medo de sofrer violência durante deslocamentos. A maioria das situações relatadas ocorreu a pé ou no transporte coletivo, e as entrevistadas apontaram a necessidade de melhorias em policiamento, iluminação e infraestrutura urbana.
A pesquisa mais recente, divulgada em setembro de 2026, mostra que o medo continua interferindo diretamente na rotina. Além dos 98% que adotam alguma estratégia para reduzir riscos, 45% das mulheres afirmam já ter deixado de aproveitar oportunidades de trabalho ou estudo por causa do medo da violência.
O dado ajuda a dimensionar o que aparece nas entrevistas. Denise precisa escolher horários e já reduziu os períodos em que trabalhava de madrugada. Cléo escolhe locais onde se sente mais segura, compartilha sua localização e mantém uma rede de apoio. Vitória, Ariane e Larissa adotam medidas de proteção antes ou durante as corridas.
São comportamentos diferentes diante de uma mesma questão: a necessidade de administrar o risco durante um deslocamento que deveria ser apenas parte da rotina.

Os dados oficiais mostram que a violência contra mulheres continua sendo um problema grave. Entre janeiro e julho de 2026, o Brasil registrou 848 vítimas de feminicídio, segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública. O número representa uma redução de 3,2% em relação ao mesmo período de 2025, quando foram registrados 876 casos.
Isso não significa que uma corrida de aplicativo represente, por si só, um risco de feminicídio ou de violência grave. Os relatos das entrevistadas não sustentam essa conclusão. O que eles mostram é algo mais cotidiano: a necessidade de permanecer alerta, estabelecer limites e criar mecanismos de proteção mesmo em situações que não chegam a configurar crime.
No cotidiano, passageiras e motoristas adotam diferentes medidas para reduzir os riscos durante as corridas. Antes de entrar no veículo, a passageira pode conferir a placa, o nome e a foto do motorista e compartilhar o trajeto com alguém de confiança. Entre as motoristas, os cuidados envolvem avaliar o local de embarque, observar o comportamento do passageiro e, em situações de insegurança, compartilhar a própria localização com pessoas próximas.
A preferência por viajar com uma mulher ou receber passageiras mulheres também aparece como uma estratégia de proteção. Pesquisa do Instituto Patrícia Galvão e do Locomotiva mostra que, entre usuárias de transporte por aplicativo, 72% consideram viajar com motorista mulher uma medida que aumenta a segurança, enquanto compartilhar a rota e contar com suporte e registro da viagem estão entre os recursos mais valorizados.E ambas sabem que, em determinadas situações, cancelar uma corrida pode ser uma decisão de segurança.
A tecnologia pode reduzir parte desses riscos. Pode identificar trajetos, compartilhar localização, oferecer canais de emergência, permitir escolhas e aproximar mulheres nas duas pontas da corrida. Mas os relatos mostram que a questão é maior.
Para uma passageira, segurança significa conseguir chegar ao destino sem ser constrangida ou ameaçada. Para uma motorista, significa conseguir trabalhar sem ser desrespeitada, assediada ou colocada em uma situação de risco por causa da atividade profissional.
Cléo aprendeu a combinar experiência, cautela e apoio de outras motoristas em busca de formar um ecossistema sustentável e uma rede de segurança que atinja o máximo de pessoas possíveis, dentro de suas limitações.

Denise resume sua relação com o trabalho a partir da responsabilidade que assumiu ao longo dos quatro anos nas ruas de São Paulo e seus objetivos atuais e futuros, representando grande parte da sociedade brasileira que precisa se virar para correr atrás de seus sonhos.

Nenhuma das duas descreve a profissão como livre de riscos, mas também nenhuma fala em abandonar.
Para essas mulheres, o trabalho nos aplicativos representa uma fonte de renda e, em alguns casos, uma alternativa diante das dificuldades de acesso a outras oportunidades profissionais. O desafio é conciliar a necessidade de trabalhar com os riscos e situações de insegurança que fazem parte da rotina de quem está nas ruas.
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Entenda O Contexto
A relação das mulheres com os aplicativos de transporte faz parte de um problema mais amplo de segurança nos deslocamentos urbanos. Pesquisa dos institutos Patrícia Galvão e Locomotiva divulgada em setembro de 2026 mostra que 94% das mulheres brasileiras se sentem inseguras diante da violência e que 98% adotam pelo menos uma estratégia para reduzir riscos no cotidiano. O levantamento ouviu 1.500 pessoas com 16 anos ou mais, de todas as regiões do país, entre 22 e 30 de abril, com margem de erro de 2,8 pontos percentuais.
A pesquisa também mostra que o medo interfere em decisões concretas. 62% das mulheres já mudaram hábitos de lazer, 58% deixaram de frequentar lugares de que gostavam e 56% já preferiram utilizar algum meio de transporte em vez de caminhar, mesmo quando o destino era próximo. O impacto chega ao trabalho e aos estudos: 45% afirmam já ter deixado de aproveitar oportunidades nessas áreas por causa do medo da violência.
Em 2024, levantamento dos mesmos institutos com 4.001 mulheres mostrou que 71% já haviam vivido alguma situação de violência durante deslocamentos. Os episódios incluíam olhares insistentes, cantadas inconvenientes, assaltos, furtos, sequestro-relâmpago, importunação sexual, preconceito, racismo, agressão física e estupro. Naquele levantamento, 10% das entrevistadas relataram violência em carros de aplicativo.
Do outro lado estão as motoristas. Dados da Machine apontam que as mulheres representam 10,61% dos motoristas de transporte por aplicativo em 2026, percentual inferior aos 11,53% registrados em 2024 e aos 11,21% de 2025. A pesquisa da 99 em parceria com a Think Eva, por sua vez, mostra que 76% das motoristas entrevistadas sentem que ser mulher aumenta os riscos durante o trabalho, enquanto 93% percebem que passageiras preferem mulheres ao volante.
Uber e 99 ampliaram ferramentas específicas para mulheres, enquanto a existência de plataformas e modalidades voltadas ao público feminino tenta responder à demanda por maior sensação de segurança. Ainda assim, os relatos de Denise e Cléo mostram que a questão não se encerra dentro do aplicativo. A motorista precisa administrar horários, regiões, passageiros, trânsito e situações de emergência; a passageira precisa decidir como embarcar, quem avisar e quais cuidados tomar durante o trajeto.
Os relatos mostram que a segurança envolve as duas pontas da viagem. Para a passageira, o cuidado está principalmente na identificação do motorista, no acompanhamento do trajeto e na possibilidade de pedir ajuda. Para a motorista, envolve a escolha de horários e locais, a avaliação dos passageiros e o acesso rápido a mecanismos de proteção.
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