Perfis estrangeiros especializados em geopolítica e monitoramento de conflitos fizeram publicações pagas sobre a eleição presidencial brasileira destacando uma cotação que colocava Flávio Bolsonaro à frente de Luiz Inácio Lula da Silva. As postagens chamaram atenção nas redes sociais, mas há uma diferença fundamental: os números apresentados não são resultado de uma pesquisa eleitoral com eleitores brasileiros.
As publicações foram identificadas como “Parceria paga” e utilizaram dados ligados à Polymarket, plataforma de mercado de previsões na qual usuários negociam posições sobre a probabilidade de determinados acontecimentos. Dessa forma, a cotação pode variar conforme as negociações realizadas pelos participantes e não mede diretamente a intenção de voto da população.
Perfis internacionais divulgam cotação sobre eleição brasileira
Entre as contas que divulgaram o conteúdo estão perfis conhecidos por acompanhar conflitos, guerras, segurança internacional e acontecimentos geopolíticos. As publicações apresentaram gráficos sobre a disputa presidencial brasileira e destacaram uma alta nas cotações relacionadas a Flávio Bolsonaro.
Os posts foram identificados na própria plataforma como conteúdo de parceria paga. O movimento ganhou repercussão porque contas voltadas majoritariamente ao público internacional passaram praticamente ao mesmo tempo a abordar a corrida presidencial brasileira.
O conteúdo apresentava a movimentação do mercado de previsões como um sinal de aumento das chances atribuídas a Flávio Bolsonaro naquele ambiente de negociação.
Leia também:
Datafolha: Lula tem 39% e Flávio Bolsonaro 36%; candidatos aparecem tecnicamente empatados
Por que o número não pode ser tratado como pesquisa eleitoral
A principal diferença está na forma como os percentuais são produzidos. Pesquisas eleitorais entrevistam uma amostra de eleitores seguindo uma metodologia definida, com informações como período de coleta, tamanho da amostra, margem de erro e nível de confiança.
Em um mercado de previsões, o percentual representa o preço formado pelas negociações realizadas entre participantes que compram e vendem posições sobre determinado resultado futuro.
Por isso, uma cotação que atribua determinada probabilidade a Flávio, Lula ou qualquer outro candidato não significa que a mesma parcela dos brasileiros declarou intenção de votar naquele nome.
Também não é adequado comparar diretamente uma cotação desse tipo com os percentuais de uma pesquisa eleitoral. São instrumentos diferentes, construídos a partir de públicos, metodologias e objetivos distintos.
Pesquisas eleitorais mostram cenário diferente
Levantamentos eleitorais recentes ajudam a demonstrar essa diferença. Pesquisa Datafolha divulgada em 17 de setembro registrou Lula com 39% das intenções de voto e Flávio Bolsonaro com 36% no primeiro turno.
O instituto ouviu 2.002 eleitores com 16 anos ou mais nos dias 15 e 16 de setembro. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, e o nível de confiança informado é de 95%. O levantamento foi registrado no Tribunal Superior Eleitoral sob o número BR-04029/2026.
Considerada a margem de erro daquele levantamento, Lula e Flávio estavam tecnicamente empatados. O resultado é uma fotografia daquele período específico e não representa previsão sobre quem vencerá a eleição.
Publicidade política digital está sob atenção na eleição
A circulação de conteúdos patrocinados sobre candidatos ocorre em um momento de maior atenção da Justiça Eleitoral às estratégias de propaganda nas redes sociais.
Campanhas, partidos e candidatos já levaram ao Tribunal Superior Eleitoral diferentes questionamentos sobre impulsionamento, perfis utilizados para distribuição de propaganda e identificação dos responsáveis por conteúdos políticos.
Em julho, por exemplo, o PL levou ao TSE uma representação na qual afirmou ter identificado dezenas de perfis falsos usados para financiar anúncios contra Flávio Bolsonaro. A existência da representação é um fato; as acusações apresentadas pelo partido dependem da análise da Justiça Eleitoral.
Mais recentemente, a campanha de Lula também acionou o tribunal questionando uma rede de publicações colaborativas que, segundo a acusação apresentada ao TSE, beneficiaria eleitoralmente Flávio. Nesse caso, também se trata de uma alegação apresentada pela campanha e não de uma conclusão definitiva da Justiça.
Quem pagou pelos posts vira questão central
No caso das publicações feitas por contas estrangeiras, a identificação como “Parceria paga” mostra que houve uma relação comercial para a divulgação do conteúdo.
Isso, porém, não permite concluir automaticamente quem financiou a ação, qual foi o valor desembolsado ou se houve participação da campanha de Flávio Bolsonaro.
Essas questões dependem da identificação do contratante, da documentação da plataforma e, caso exista uma investigação eleitoral, dos elementos obtidos pelas autoridades competentes.
Também é necessário diferenciar uma publicação patrocinada por uma plataforma privada de uma ação oficialmente contratada por candidato, partido ou campanha. Sem documentação que estabeleça essa ligação, uma relação direta não pode ser presumida.
Mercados de previsão podem mudar rapidamente
Outra característica importante é a volatilidade. Como as probabilidades são formadas a partir de negociações, uma entrada significativa de recursos, uma notícia política ou uma mudança na percepção dos participantes pode alterar as cotações.
Isso significa que os números podem subir ou cair rapidamente sem que tenha ocorrido uma mudança equivalente na intenção de voto medida entre eleitores.
O contraste é especialmente relevante em período eleitoral, quando percentuais publicados nas redes sociais podem ser interpretados como pesquisas mesmo quando representam outra modalidade de informação.
Para avaliar a corrida presidencial a partir de pesquisas, o eleitor deve observar quem realizou o levantamento, quem o contratou, quantas pessoas foram entrevistadas, quando ocorreu a coleta, qual é a margem de erro, o nível de confiança e o registro na Justiça Eleitoral.
Veja também:
Esquema de perfis fantasmas gasta R$ 3 milhões para atacar Flávio Bolsonaro
Entenda o contexto
A campanha presidencial de 2026 entrou na reta final com forte disputa também no ambiente digital. Além dos perfis oficiais dos candidatos, páginas de apoio, influenciadores, contas temáticas e publicidade patrocinada passaram a fazer parte das estratégias e das controvérsias levadas à Justiça Eleitoral.
As publicações feitas por perfis estrangeiros acrescentam um novo elemento a esse ambiente porque levam informações sobre a eleição brasileira a audiências internacionais e utilizam números de um mercado de previsões. O ponto essencial é que essas cotações não devem ser apresentadas como pesquisas de intenção de voto.
Até que sejam identificados o contratante e as condições da publicidade, a existência dos posts pagos também não permite atribuir sua contratação à campanha de Flávio Bolsonaro. A eventual responsabilidade eleitoral depende da origem do financiamento, da relação entre os envolvidos e da análise das regras aplicáveis pela Justiça Eleitoral.
Mais lidas do NC News:
Jatinho ligado a Vorcaro foi usado por Moraes em meio a negociação de R$ 50 milhões
Cobertura onde ocorreu caso Matsunaga tem dificuldade para ser vendida em SP
Posso votar no mesmo senador duas vezes? Entenda a regra para as eleições de 2026