Crise dos fertilizantes: alta de 40% na ureia acende alerta de desabastecimento no Brasil

Dependência externa de 85% e restrições na China pressionam custos de produção; déficit no país pode chegar a 3 milhões de toneladas para a safra 2026/27.
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O setor produtivo brasileiro enfrenta uma nova onda de incertezas com a disparada global nos preços dos fertilizantes. De acordo com levantamento divulgado nesta terça-feira (24) pelo engenheiro agrônomo e especialista no setor de insumos, Igor Madruga, o mercado atravessa um período de forte instabilidade que combina preços recordes com o risco real de falta de produtos para os próximos ciclos agrícolas. A ureia, um dos principais insumos nitrogenados, saltou para US$ 660 por tonelada no mercado asiático, acumulando uma alta de 40% em apenas um mês.

Insumos caros e ameaça à safra

O mercado agrícola brasileiro lida, nesta terça-feira, com projeções alarmantes sobre o suprimento de fertilizantes para a safra 2026/27. O cenário, analisado pelo especialista Igor Madruga, aponta para um possível déficit de 3 milhões de toneladas de adubos no país, motivado por restrições de exportação na China e tensões geopolíticas no Oriente Médio, especialmente envolvendo o Irã. Como o Brasil importa cerca de 85% dos fertilizantes que consome, a combinação de menor oferta externa e preços elevados deve encarecer os custos de produção de culturas estratégicas, como soja e milho, em até 30%, elevando o risco de desabastecimento e pressionando a rentabilidade do produtor rural.

Geopolítica e restrições chinesas

A atual escalada de preços é reflexo direto de dois fatores externos principais. Primeiro, a China — um dos maiores players do mercado — impôs severas restrições à exportação de nitrogenados e fosfatados para garantir seu abastecimento interno. Somado a isso, o aumento das tensões no Oriente Médio impacta diretamente a logística e a produção global, gerando um efeito cascata que chega com força aos portos brasileiros.

No Brasil, os sinais da crise já são visíveis nos dados de comércio exterior. Nos dois primeiros meses de 2026, a importação de ureia registrou uma queda drástica de 33%. Enquanto a oferta cai, os preços internos disparam: fertilizantes formulados (como o 20-05-20) subiram 16,5% apenas em janeiro, pesando no bolso de quem já está no campo.

O risco para a safra 2026/27

A grande preocupação do setor é o impacto nas culturas de soja, milho e algodão. Com a projeção de um déficit de até 3 milhões de toneladas, produtores começam a temer o desabastecimento para o plantio da safra 2026/27. Diante da escassez de ureia, o mercado tem buscado alternativas como o sulfato de amônio, mas a alta demanda já fez esse substituto encarecer 19%.

Especialistas alertam que o aumento nos custos de produção, estimado entre 20% e 30%, pode comprometer a margem de lucro do agricultor e, consequentemente, impactar o preço final dos alimentos.

Busca por soberania nacional

A crise reforça a vulnerabilidade brasileira devido à dependência de 85% das importações. Atualmente, há uma mobilização entre entidades do setor e o governo para acelerar o uso de fontes nacionais e implementar estratégias de proteção contra a volatilidade cambial e geopolítica. O objetivo é reduzir a exposição do agronegócio nacional a choques externos que fogem ao controle dos produtores locais.

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