Uma investigação da Polícia Civil do Rio de Janeiro revelou um esquema de adulteração de taxímetros que fazia passageiros pagarem valores muito acima do normal por corridas iniciadas no Aeroporto Internacional Tom Jobim, o Galeão, na Zona Norte da capital fluminense. O golpe utilizava um dispositivo eletrônico escondido dentro dos veículos, capaz de acelerar artificialmente o valor registrado no taxímetro. Em alguns casos, as cobranças ultrapassaram R$ 900.
O mecanismo podia ser acionado discretamente pelo motorista, inclusive com o carro parado. Segundo os investigadores, uma pequena placa eletrônica era conectada ao taxímetro e manipulava os sinais utilizados para calcular a tarifa. A fraude foi descoberta após a denúncia de um passageiro que percebeu um aumento repentino no preço durante uma viagem. Na quinta-feira (8), a Polícia Civil realizou uma operação contra os suspeitos.
As investigações também identificaram uma estrutura que envolvia motoristas, empresas de locação de táxis, uma oficina responsável pela instalação dos equipamentos e pessoas encarregadas de abordar passageiros no aeroporto. A polícia apura ainda a participação de um integrante do tráfico de drogas da Ilha do Governador na organização dessas abordagens.
Taxistas trocam socos e chutes durante briga no Aeroporto do Galeão
Como funcionava o golpe do taxímetro adulterado?
O esquema utilizava um dispositivo eletrônico clandestino instalado atrás do botão de abertura do porta-malas do táxi. O equipamento era conectado ao sistema responsável por enviar informações ao taxímetro, permitindo alterar artificialmente o cálculo da corrida.
O acionador ficava escondido sob o carpete ou no revestimento interno do veículo, em um ponto que poderia ser alcançado pelo motorista sem chamar a atenção do passageiro.
Ao pressionar o mecanismo, o condutor conseguia fazer o taxímetro registrar valores adicionais sem que o carro tivesse percorrido a distância correspondente.
A perícia identificou que a placa eletrônica multiplicava os pulsos enviados pelo sensor do automóvel. Esses sinais são utilizados pelo taxímetro para calcular o valor da viagem de acordo com o deslocamento.
Com a adulteração, o equipamento passava a registrar uma distância ou cobrança superior à real.
Segundo a investigação, um único acionamento poderia acrescentar aproximadamente 20% ao preço da corrida. Em situações identificadas pela polícia, o valor final chegou a ficar cerca de 50% acima da tarifa regular.
A polícia também investiga casos de cobranças ainda mais elevadas, incluindo viagens para a Zona Sul do Rio que ultrapassaram R$ 900.
Vídeo mostra como o dispositivo fazia o valor aumentar
Um vídeo divulgado durante a investigação demonstra o funcionamento do equipamento utilizado no esquema.
Nas imagens, é possível observar como o acionador escondido permite interferir no taxímetro, fazendo o valor avançar mesmo sem o deslocamento correspondente do veículo.
A demonstração ajuda a explicar por que a fraude poderia passar despercebida. O passageiro visualizava o taxímetro aparentemente funcionando, mas não tinha conhecimento de que o valor estava sendo manipulado.
Em alguns casos, segundo a polícia, os motoristas ainda tentavam distrair os clientes durante o trajeto, conversando sobre o trânsito ou apontando situações do lado de fora do automóvel.
A intenção investigada era dificultar que o passageiro percebesse alterações repentinas no valor indicado pelo aparelho.
Denúncia de passageiro ajudou a revelar a fraude
A investigação começou após um passageiro denunciar uma cobrança irregular em uma corrida iniciada no Galeão.
Segundo a Polícia Civil, ele havia sido abordado na área de desembarque por um homem que se apresentava como integrante do serviço de táxi.
Durante o percurso, o passageiro percebeu que o valor registrado no taxímetro havia aumentado de maneira repentina, sem uma justificativa relacionada à distância percorrida.
Ao chegar ao destino, constatou que a cobrança estava aproximadamente 50% acima do preço regular da viagem.
A denúncia permitiu aos investigadores identificar o veículo utilizado e encaminhá-lo para análise pericial.
Os exames realizados pelo Instituto de Criminalística Carlos Éboli identificaram o equipamento eletrônico conectado ao taxímetro.
A descoberta levou a polícia a ampliar as diligências e investigar se a adulteração fazia parte de uma estrutura organizada.
Oficina e empresa de locação estão entre os alvos
Com o avanço da investigação, os policiais identificaram indícios de que a instalação dos dispositivos não ocorria apenas por iniciativa individual dos motoristas.
Documentos apreendidos apontaram que uma empresa responsável pela locação de táxis exigiria a instalação dos equipamentos, realizada em uma oficina indicada pelo próprio grupo.
Os investigadores também apuram a possibilidade de alguns veículos já serem entregues aos motoristas com o mecanismo instalado e configurado para funcionar automaticamente.
Essa hipótese, caso confirmada, indicaria que parte das cobranças irregulares poderia ocorrer mesmo sem o acionamento manual durante a viagem.
A Polícia Civil estima que a frota relacionada ao grupo investigado possa chegar a aproximadamente 200 veículos. Isso não significa, porém, que todos já tenham sido periciados ou que a fraude tenha sido comprovada em cada um deles.
A operação realizada na quinta-feira teve como alvos endereços nos bairros do Rocha e Piedade, na Zona Norte, no Centro do Rio e no próprio aeroporto.
Entre os locais investigados estavam a sede operacional de uma empresa de locação, o pátio de veículos e a oficina suspeita de instalar os dispositivos.
Quem eram os aliciadores que abordavam turistas?
Além da adulteração dos taxímetros, a investigação revelou a atuação de intermediários conhecidos como “jóqueis”, responsáveis por abordar passageiros no aeroporto e direcioná-los a táxis sem autorização para operar naquele espaço.
Essas pessoas atuavam principalmente nas áreas de desembarque, procurando turistas e passageiros que não conheciam bem a cidade.
Segundo os investigadores, os aliciadores recebiam comissões pelo encaminhamento dos clientes aos veículos vinculados ao esquema.
Alguns utilizavam roupas com identificação de táxi e equipamentos de comunicação, criando uma aparência de serviço autorizado.
A abordagem ocorria antes de o passageiro chegar aos pontos regulares de transporte, o que aumentava a possibilidade de ser direcionado a um veículo investigado.
A Polícia Civil também apura indícios de que a atuação desses intermediários era coordenada por um integrante do tráfico de drogas da comunidade do Barbante, na Ilha do Governador, nas proximidades do Galeão.
De acordo com a investigação, o grupo ainda teria tentado pressionar motoristas regularmente autorizados a participar do sistema de captação de passageiros. A polícia informou, entretanto, que não havia confirmação de que essa tentativa tivesse sido concretizada.
Operação levou dezenas de suspeitos à delegacia
Na quinta-feira (8), equipes da Polícia Civil realizaram uma operação para reunir provas e identificar os envolvidos no esquema.
A ação contou com agentes da Delegacia de Repressão aos Crimes Contra a Propriedade Imaterial, da Delegacia de Atendimento Policial do Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro e da Delegacia Especial de Apoio ao Turismo.
O balanço divulgado após a operação apontou que 35 pessoas, entre taxistas e intermediários responsáveis por captar passageiros, foram conduzidas para prestar esclarecimentos.
Também foram apreendidos 17 veículos relacionados às investigações.
Os automóveis poderão passar por análises técnicas para identificar a presença de dispositivos clandestinos e verificar possíveis alterações no funcionamento dos taxímetros.
A condução de pessoas para depoimento não significa, por si só, que todas tenham sido presas ou que sua participação criminosa esteja comprovada.
Como passageiros podem se proteger de cobranças irregulares?
O caso reforça a importância de utilizar os serviços de transporte autorizados nos aeroportos e observar o funcionamento do taxímetro durante o percurso.
Uma das principais recomendações é evitar aceitar corridas oferecidas por desconhecidos que abordam passageiros fora dos pontos oficiais de táxi.
Antes de iniciar a viagem, também é possível consultar uma estimativa do preço do trajeto e verificar se o veículo possui identificação regular.
Durante o percurso, aumentos repentinos e incompatíveis com a distância ou o tempo de deslocamento podem indicar alguma irregularidade.
Caso identifique uma cobrança suspeita, o passageiro deve procurar um local seguro, guardar informações como placa, identificação do motorista, comprovante de pagamento e horário da corrida, além de registrar a ocorrência junto às autoridades competentes.
A denúncia pode ajudar na identificação de outros veículos envolvidos e contribuir para impedir novas fraudes.
Próximos passos
A Polícia Civil deverá continuar analisando os veículos apreendidos, os equipamentos eletrônicos e os documentos recolhidos durante a operação.
Os investigadores também buscam esclarecer a participação das empresas e dos responsáveis pela instalação dos dispositivos, além de identificar possíveis vítimas que tenham pago tarifas adulteradas.
Outro ponto da apuração é a suspeita de envolvimento de integrantes do tráfico de drogas na organização da captação irregular de passageiros no Galeão.
A investigação ainda deverá determinar a extensão do esquema e a responsabilidade individual de cada suspeito.
Até a conclusão das diligências, as suspeitas de participação na fraude permanecem sujeitas à apuração policial e às garantias legais dos investigados.