Policiais do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) foram confundidos com criminosos por agentes do 18º Batalhão de Polícia Militar (Jacarepaguá) durante uma abordagem na madrugada de domingo (11), na Zona Sudoeste do Rio de Janeiro. O confronto entre integrantes da mesma corporação matou o subtenente Gláucio Marcelo Fonseca da Silva, de 54 anos, e deixou outros cinco policiais feridos.
A Polícia Militar aponta a baixa luminosidade da Rua Guilherme Moreira, conhecida como Beco do Saci, na divisa entre a Freguesia e a Gardênia Azul, como um dos fatores que contribuíram para a confusão. Entretanto, ainda não foi esclarecido por que as equipes não conseguiram se identificar antes dos disparos. Familiares da vítima também questionam se houve comunicação prévia entre os batalhões e se a informação chegou aos agentes envolvidos.
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Como começou o tiroteio entre policiais do Bope e do 18º BPM?
Segundo a Polícia Militar, uma equipe do Bope realizava a abordagem aos ocupantes de um carro na Rua Guilherme Moreira quando policiais do 18º BPM chegaram ao local.
Os militares de Jacarepaguá teriam interpretado a movimentação como uma ação criminosa e efetuado disparos contra os integrantes da tropa de elite. Os policiais do Bope reagiram, dando início ao confronto.
A ocorrência aconteceu em um trecho de pouca iluminação, próximo a um dos acessos à comunidade da Gardênia Azul. De acordo com a versão apresentada pela corporação, a escuridão dificultou o reconhecimento dos agentes.
Um dos pontos que ainda precisam ser esclarecidos é a identificação visual das equipes. Há relatos de que os policiais do Bope estavam uniformizados e utilizavam uma viatura caracterizada, enquanto informações iniciais da ocorrência mencionavam veículos descaracterizados.
A investigação deverá determinar quais veículos foram utilizados, como as equipes estavam identificadas e se houve alguma falha nos procedimentos de reconhecimento.
Moradores relatam cerca de 20 minutos de disparos
O confronto assustou moradores da região durante a madrugada. Uma câmera de segurança de um condomínio próximo registrou o som dos tiros.
Uma testemunha que vive no bairro há 43 anos relatou que nunca havia presenciado uma situação semelhante. Segundo o morador, os disparos duraram aproximadamente 20 minutos.
“A gente tava dormindo, normal, meio da madrugada. Começou um tiroteio assustador, a gente acordou com o barulho. Eu moro aqui há quarenta e três anos, nunca passei por isso dessa magnitude assim, foram vinte minutos incessantes.”
O morador contou que precisou sair do quarto e procurar abrigo no corredor de casa, onde havia mais paredes para protegê-lo de possíveis disparos.
O relato deverá ser considerado em conjunto com as imagens de monitoramento, os depoimentos dos policiais e os demais elementos recolhidos durante a investigação.
Família questiona comunicação entre os batalhões
A ex-mulher do subtenente Gláucio, Aline Viana, cobra esclarecimentos sobre a comunicação entre as equipes que participaram da ocorrência.
Segundo ela, a família recebeu inicialmente a informação de que não havia ocorrido comunicação sobre a presença do Bope na região. Posteriormente, os familiares souberam que um aviso teria sido feito.
“A gente quer entender exatamente o que aconteceu porque de primeira mão foi passado pra nós que não houve uma comunicação e nós já sabemos que foi feita uma comunicação.”
Aline também questionou se a informação chegou a todos os policiais envolvidos na operação.
“A gente quer entender quem foi comunicado, essa pessoa passou a comunicação pra todo o batalhão ou porque, se sabiam que estava naquela área, porque que aconteceu isso tudo?”
A investigação deverá verificar se houve comunicação prévia entre as unidades, quem recebeu o aviso e se os protocolos operacionais foram cumpridos.
Polícia apreende armas e solicita imagens de câmeras corporais
A Delegacia de Homicídios da Capital (DHC) investiga as circunstâncias da morte do subtenente. Os policiais envolvidos já prestaram depoimento, e as armas utilizadas no confronto foram apreendidas para exames periciais.
Os investigadores também requisitaram as imagens das câmeras corporais dos agentes. Os registros poderão ajudar a identificar a sequência dos acontecimentos, o momento em que os disparos começaram e a reação de cada equipe.
Durante a perícia, foram recolhidas cápsulas de munição encontradas no chão e em veículos da Polícia Militar.
Além da Polícia Civil, a Corregedoria Interna da PM, por meio da 2ª Delegacia de Polícia Judiciária Militar, também apura a ocorrência.
Subtenente morto tinha quase 26 anos de carreira e perdeu irmão em operação
Gláucio Marcelo Fonseca da Silva tinha 54 anos, era pai de três filhos e estava prestes a completar 26 anos de serviço na Polícia Militar, grande parte deles no Bope.
O subtenente foi sepultado na segunda-feira (12), em uma cerimônia acompanhada por familiares, amigos e integrantes da corporação.
A morte aconteceu menos de um ano depois de outra perda na família. Em outubro de 2025, o irmão de Gláucio, o sargento Héber Carvalho da Fonseca, também integrante do Bope, morreu durante a Operação Contenção, realizada nos complexos da Penha e do Alemão, na Zona Norte do Rio.
A operação ficou marcada pelo elevado número de mortes e pela dimensão da mobilização policial.
Em nota de pesar, o Bope destacou a trajetória profissional do subtenente e manifestou solidariedade aos familiares.
“Neste momento de dor, o Bope se solidariza com seus familiares e amigos, expressando sinceras condolências e desejando força e conforto para enfrentar essa irreparável perda.”
Outros cinco policiais ficaram feridos
Além do subtenente morto, cinco policiais ficaram feridos no confronto, sendo quatro integrantes do Bope e um do 18º BPM.
Os agentes foram socorridos para o Hospital Municipal Lourenço Jorge, na Barra da Tijuca. Dois policiais feridos receberam alta e compareceram ao enterro de Gláucio, ainda com curativos.
Segundo as informações divulgadas na segunda-feira (12), três agentes permaneciam internados. Não havia atualização posterior confirmada sobre o estado de saúde deles.
O que falta esclarecer sobre o confronto entre policiais?
A investigação deverá determinar como duas equipes da mesma corporação acabaram envolvidas em um confronto armado durante uma ocorrência policial.
Entre os pontos centrais estão a comunicação entre os batalhões, a visibilidade no local, a identificação dos agentes e das viaturas, o cumprimento dos protocolos operacionais e a origem dos disparos.
Os resultados das perícias, os depoimentos e as imagens das câmeras corporais serão fundamentais para reconstruir a ocorrência e determinar eventuais responsabilidades.
Até a conclusão das investigações, a baixa luminosidade permanece como uma das explicações apresentadas pela Polícia Militar, mas não há uma conclusão definitiva sobre todos os fatores que provocaram o confronto.