Só metade dos adolescentes brasileiros sabe interpretar textos, aponta Pisa 2025

Avaliação internacional aponta que o índice fica abaixo da média da OCDE, de 69%; em matemática, apenas 28% dos estudantes brasileiros atingiram o nível de proficiência considerado no levantamento.
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Cerca de metade dos adolescentes brasileiros de 15 anos apresenta as habilidades básicas de interpretação de texto avaliadas pelo Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) 2025. Os resultados divulgados pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) mostram que 49% dos estudantes no Brasil conseguem identificar a ideia principal de um texto de extensão moderada, localizar informações e refletir sobre a finalidade e a forma do conteúdo quando solicitados.

O percentual está abaixo da média dos países-membros da OCDE, que chegou a 69%. O desempenho brasileiro também chama a atenção pelo baixo número de estudantes que alcançam os níveis mais elevados de compreensão: apenas 1% dos adolescentes no país demonstrou alta proficiência em leitura, diante de 6% na média da organização.

Os dados fazem parte de uma avaliação internacional que busca medir não apenas o conhecimento adquirido na escola, mas também a capacidade de aplicar o que foi aprendido em situações do cotidiano. O levantamento inclui leitura, matemática e ciências e reúne estudantes de 15 anos de diferentes países e sistemas educacionais.

Além das dificuldades de interpretação de texto, o estudo aponta uma diferença expressiva em matemática, área em que apenas 28% dos estudantes brasileiros alcançaram o nível básico de proficiência considerado pelo programa. O relatório também destaca a influência das condições socioeconômicas sobre o desempenho escolar, a falta de recursos em parte das instituições de ensino e o avanço do uso de ferramentas de inteligência artificial na rotina de estudos.

 

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Leitura é a base para aprender outras disciplinas

A capacidade de interpretar textos é importante não apenas para as aulas de língua portuguesa. Ela também influencia o aprendizado de outras disciplinas, já que os estudantes precisam compreender enunciados, identificar informações relevantes, avaliar argumentos e relacionar diferentes conteúdos.

Segundo o relatório do Pisa 2025, as habilidades de leitura são essenciais para localizar, avaliar, interpretar e refletir sobre informações em um ambiente cada vez mais digital.

No nível básico considerado pela avaliação, o estudante consegue identificar a ideia principal de um texto de extensão moderada e localizar informações com base em critérios explícitos, mesmo quando a tarefa exige algum grau de complexidade. Também pode refletir sobre o propósito e a forma do texto quando recebe uma orientação clara.

O resultado brasileiro indica que pouco menos da metade dos adolescentes avaliados atingiu esse patamar. Na média da OCDE, por outro lado, aproximadamente sete em cada dez estudantes demonstraram as habilidades correspondentes.

A diferença também aparece nos níveis mais altos de desempenho. Enquanto 6% dos estudantes dos países da organização conseguem compreender textos longos, lidar com conceitos abstratos e distinguir fatos de opiniões a partir de informações implícitas, no Brasil esse percentual é de apenas 1%.

Essas habilidades exigem mais do que localizar uma informação escrita de maneira direta. Elas envolvem relacionar ideias, avaliar a origem de uma informação e compreender sentidos que nem sempre estão apresentados explicitamente no texto.

Desempenho em leitura enfrenta queda no cenário internacional

A dificuldade de interpretação de texto não é um fenômeno restrito ao Brasil. O relatório do Pisa 2025 aponta que a leitura registrou a maior queda global de desempenho entre as áreas avaliadas ao longo dos dez anos anteriores.

O resultado preocupa porque a compreensão textual está diretamente relacionada à capacidade de aprender, buscar informações e acompanhar discussões em diferentes ambientes.

Em um contexto no qual os adolescentes recebem conteúdos por redes sociais, aplicativos de mensagens, vídeos e plataformas digitais, saber ler também significa conseguir avaliar o que está sendo apresentado, identificar argumentos e distinguir informações factuais de opiniões.

O desempenho em leitura, portanto, não se resume à capacidade de decodificar palavras ou concluir uma atividade escolar. Ele envolve interpretar o conteúdo e compreender o sentido das informações em diferentes situações.

O estudo, porém, não atribui a queda internacional a uma única causa. Os pesquisadores discutem diferentes fatores que podem contribuir para o cenário, incluindo mudanças nos hábitos de leitura, distrações digitais e dificuldades dos sistemas educacionais para acompanhar transformações sociais e tecnológicas.

Matemática concentra uma das principais dificuldades dos estudantes brasileiros

Se os resultados de leitura mostram uma diferença entre o Brasil e a média internacional, em matemática a distância também é expressiva.

Segundo o Pisa 2025, apenas 28% dos estudantes brasileiros alcançaram o nível básico de proficiência na disciplina. Na média dos países da OCDE, o percentual foi de 65%.

Na prática, o nível avaliado corresponde à capacidade de reconhecer como uma situação simples pode ser representada matematicamente, mesmo sem receber instruções diretas para isso.

Entre os exemplos apresentados no estudo estão comparar as distâncias de duas rotas alternativas e converter preços para uma moeda diferente.

Essas habilidades fazem parte da aplicação prática da matemática em situações comuns, como planejar deslocamentos, comparar valores, organizar despesas e interpretar informações numéricas.

O resultado brasileiro mostra que a maior parte dos adolescentes avaliados não atingiu o patamar básico considerado pelo programa. A situação contrasta com a de países e economias que registraram percentuais elevados de estudantes proficientes.

A China, por exemplo, apresentou 96% de proficiência matemática.

A comparação ajuda a dimensionar a diferença entre os resultados, mas não explica, isoladamente, quais fatores determinam o desempenho de cada sistema educacional. Para compreender esse cenário, é necessário considerar também as condições de ensino, as oportunidades de aprendizagem e as características dos estudantes avaliados.

Desigualdade socioeconômica aparece no desempenho em ciências

As diferenças de aprendizagem também estão relacionadas às condições socioeconômicas dos estudantes.

No Brasil, a distância entre os resultados dos alunos com maior e menor nível socioeconômico foi superior à média da OCDE em ciências naturais.

De acordo com os dados do Pisa 2025, a diferença entre a nota média dos 25% de estudantes situados no topo da distribuição socioeconômica e a dos 25% na base chegou a 96 pontos no Brasil. Na média dos países da organização, a diferença foi de 85 pontos.

O levantamento utiliza a condição socioeconômica como uma das dimensões para analisar a desigualdade de desempenho. Os números mostram que estudantes que vivem em contextos sociais distintos podem apresentar resultados diferentes na mesma avaliação.

A distância entre os grupos também se modificou ao longo do tempo. Entre 2015 e 2025, a desigualdade socioeconômica no desempenho em ciências aumentou no Brasil, enquanto diminuiu nos países ricos da OCDE.

No período analisado, o desempenho dos estudantes brasileiros de maior nível socioeconômico melhorou, mas permaneceu estável entre aqueles de menor nível socioeconômico.

O resultado indica que a evolução média do desempenho não acontece necessariamente da mesma maneira para todos os grupos. Quando os resultados de uma parcela dos estudantes avançam e os de outra permanecem estáveis, a distância entre eles pode aumentar.

A avaliação não permite atribuir essa diferença a um único fator. As condições de vida, o acesso a recursos educacionais e as oportunidades de aprendizagem fazem parte do contexto mais amplo que precisa ser considerado na análise dos resultados.

Falta de professores e materiais afeta parte das escolas

O Pisa 2025 também identificou dificuldades relacionadas à infraestrutura e à disponibilidade de recursos nas instituições de ensino brasileiras.

Segundo os dados apresentados, em 2025, 21% dos estudantes avaliados frequentavam escolas em que a falta de professores restringia a oferta educacional. Outros 26% estavam matriculados em instituições afetadas pela falta de materiais, enquanto 28% estudavam em unidades com instalações consideradas precárias.

Os indicadores ajudam a contextualizar as condições em que parte dos adolescentes realiza os estudos.

A disponibilidade de professores, materiais e instalações adequadas compõe o ambiente de aprendizagem. Quando esses recursos são insuficientes, a organização das atividades escolares pode ser afetada.

Os números, no entanto, não significam que todos os estudantes dessas instituições tenham o mesmo desempenho ou que a infraestrutura, isoladamente, explique os resultados do Pisa. O próprio levantamento aponta um cenário influenciado por diferentes fatores, entre eles as desigualdades sociais e os desafios de adaptação dos sistemas educacionais.

A leitura conjunta dos indicadores permite observar que as dificuldades de aprendizagem não podem ser compreendidas apenas a partir das notas dos estudantes. É necessário considerar também as condições em que o ensino acontece e as oportunidades disponíveis ao longo da trajetória escolar.

Inteligência artificial já faz parte da rotina de estudos

A edição de 2025 trouxe uma novidade: pela primeira vez, o Pisa investigou o uso de ferramentas de inteligência artificial pelos estudantes.

Os resultados mostram que os chatbots já fazem parte da rotina de aprendizagem de uma parcela expressiva dos adolescentes brasileiros.

No Brasil, 48% dos estudantes informaram utilizar chatbots de inteligência artificial para aprender pelo menos uma vez por semana. Na média da OCDE, o percentual foi de 46%.

Entre as atividades relatadas estão a realização de pesquisas iniciais sobre assuntos novos, a elaboração de resumos de leituras e a preparação de rascunhos para trabalhos escritos.

O levantamento também mostrou que 11% dos estudantes brasileiros afirmaram nunca ou quase nunca utilizar chatbots para as tarefas escolares analisadas. Na média da organização, esse percentual foi de 14%.

Os dados indicam que o uso dessas ferramentas está disseminado entre os adolescentes pesquisados, embora a frequência e a finalidade possam variar.

A presença da inteligência artificial também acrescenta uma questão ao debate sobre aprendizagem: como utilizar recursos digitais para apoiar os estudos sem substituir a compreensão do conteúdo pelo estudante.

Uma ferramenta pode ajudar a localizar informações, organizar ideias ou produzir um resumo inicial. Isso, por si só, não demonstra que o aluno compreendeu o tema, verificou a precisão das informações ou desenvolveu capacidade para elaborar uma análise própria.

Por isso, os números sobre o uso de chatbots devem ser interpretados como um retrato dos hábitos de estudo, e não como uma medida direta da qualidade da aprendizagem proporcionada pela tecnologia.

O Pisa 2025 identifica a inteligência artificial como uma ferramenta que apresenta oportunidades e desafios para a educação. A avaliação não estabelece, apenas com esses dados de frequência, que o uso de chatbots melhore ou prejudique necessariamente o desempenho de todos os estudantes.

Proibição de celulares se tornou mais comum nas escolas

Outro dado relacionado à tecnologia é a mudança nas regras de uso de celulares dentro das instituições de ensino.

Em 2025, 81% dos estudantes brasileiros participantes da avaliação frequentavam escolas que proibiam o uso dos aparelhos. Em 2022, esse percentual era de 37%.

O aumento mostra que a restrição aos celulares passou a fazer parte da rotina de um número maior de instituições no período analisado.

Segundo o relatório, a proibição tende a reduzir a distração dos estudantes com recursos digitais durante as atividades escolares.

A mudança ocorre em um contexto no qual escolas e sistemas educacionais precisam lidar com a presença constante da tecnologia na vida dos adolescentes. Ao mesmo tempo que ferramentas digitais podem apoiar pesquisas e atividades de aprendizagem, notificações, redes sociais e outros conteúdos podem disputar a atenção dos estudantes.

A questão envolve encontrar formas de utilizar a tecnologia de maneira compatível com os objetivos pedagógicos e com as necessidades de concentração em sala de aula.

Os dados sobre as regras de uso de celulares, porém, não demonstram, isoladamente, que a adoção de proibições tenha provocado melhora ou piora nos resultados de leitura, matemática ou ciências. Para estabelecer uma relação desse tipo, seria necessário analisar outros fatores e evidências.

Pandemia é apontada entre os fatores possíveis, mas não explica tudo

A queda internacional no desempenho em leitura também levanta questões sobre os efeitos da pandemia de covid-19 na aprendizagem.

O relatório considera que o fechamento das escolas durante a crise sanitária pode ter contribuído para as dificuldades enfrentadas por parte dos estudantes.

Entretanto, a análise não identifica uma relação direta entre o tempo de suspensão das aulas presenciais e o desempenho em leitura. A tendência de queda em diferentes países também já havia começado antes da pandemia.

Por isso, os autores apontam que o cenário pode refletir problemas estruturais mais amplos nos sistemas educacionais.

Entre os desafios discutidos estão as mudanças nos hábitos de leitura, as distrações digitais e as dificuldades para adaptar as práticas de ensino às transformações sociais, tecnológicas e econômicas.

O relatório também destaca a importância do apoio familiar. Pais e responsáveis podem contribuir para a trajetória escolar ao demonstrar interesse pelos estudos dos filhos, acompanhar suas atividades e incentivar uma relação positiva com a aprendizagem.

Esses fatores, contudo, não substituem o papel das escolas nem eliminam as diferenças de oportunidades entre os estudantes. O próprio levantamento reúne indicadores de desempenho e de contexto que precisam ser analisados em conjunto.

O que o Pisa 2025 mede e quem participou

O Programa Internacional de Avaliação de Estudantes é uma pesquisa internacional coordenada pela OCDE. Seu objetivo é avaliar como estudantes de 15 anos aplicam conhecimentos e habilidades em situações relacionadas à vida real.

A avaliação contempla leitura, matemática e ciências e utiliza testes e questionários para reunir informações sobre o desempenho dos participantes e aspectos de seu contexto educacional.

A edição de 2025 reuniu mais de 760 mil estudantes em 91 países e economias. No Brasil, participaram aproximadamente 30 mil adolescentes de cerca de mil escolas.

O foco em estudantes de 15 anos permite observar como os jovens chegam a uma etapa importante da trajetória escolar, quando precisam mobilizar conhecimentos adquiridos ao longo de diferentes anos de estudo.

O Pisa não funciona como um exame individual destinado a definir a aprovação ou a reprovação de cada participante. Seus resultados são utilizados para analisar tendências, identificar diferenças entre grupos e compreender desafios dos sistemas educacionais.

Por isso, os percentuais divulgados não devem ser interpretados como uma avaliação isolada de cada escola ou professor. Eles representam resultados agregados dos estudantes participantes e precisam ser considerados dentro dos critérios e limites da pesquisa.

Resultados apontam desafios em diferentes frentes da educação

Os números do Pisa 2025 mostram que o Brasil enfrenta desafios em mais de uma dimensão da aprendizagem.

Em leitura, 49% dos adolescentes avaliados atingiram o nível básico de proficiência, abaixo da média de 69% da OCDE. Em matemática, o percentual foi de 28%, ante 65% na média da organização.

O levantamento também identificou uma diferença socioeconômica de 96 pontos em ciências entre os grupos de estudantes situados nos extremos da distribuição social, além de registrar dificuldades relacionadas à disponibilidade de professores, materiais e instalações escolares.

Ao mesmo tempo, o estudo revela mudanças nos hábitos de aprendizagem, com quase metade dos adolescentes brasileiros utilizando chatbots de inteligência artificial para estudar pelo menos uma vez por semana.

Os dados não apontam uma causa única para as dificuldades observadas. Em vez disso, mostram a combinação de desafios pedagógicos, desigualdades de oportunidades e transformações na maneira como os jovens acessam e utilizam informações.

O resultado coloca a compreensão de textos, o raciocínio matemático e a capacidade de avaliar informações entre os aspectos centrais para entender a aprendizagem dos adolescentes brasileiros.

Entenda o levantamento

O Pisa 2025 é uma avaliação internacional da OCDE voltada a estudantes de 15 anos. O estudo analisa a capacidade de aplicar conhecimentos de leitura, matemática e ciências a situações do cotidiano.

A edição reuniu mais de 760 mil participantes em 91 países e economias, incluindo cerca de 30 mil adolescentes de aproximadamente mil escolas brasileiras.

Entre os principais resultados do Brasil estão:

Leitura: 49% dos estudantes atingiram o nível básico considerado pela avaliação, contra 69% na média da OCDE.

Alta proficiência em leitura: 1% no Brasil, ante 6% na média da organização.
Matemática: 28% dos estudantes brasileiros alcançaram o nível básico, contra 65% na média da OCDE.

Desigualdade em ciências: diferença de 96 pontos entre os grupos de maior e menor nível socioeconômico no Brasil, ante 85 pontos na média da OCDE.

Uso de inteligência artificial: 48% dos adolescentes brasileiros utilizam chatbots para aprender pelo menos uma vez por semana, ante 46% na média da organização.

Celulares nas escolas: 81% dos participantes brasileiros frequentavam instituições que proibiam os aparelhos em 2025, ante 37% em 2022.

Os indicadores oferecem um panorama das habilidades dos adolescentes e das condições associadas à aprendizagem. A análise conjunta dos resultados ajuda a compreender os desafios da educação brasileira sem atribuir as dificuldades a uma única causa.

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