O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, enviou nesta quarta-feira (14) uma carta dirigida às famílias evangélicas brasileiras em uma tentativa de ampliar o diálogo com esse segmento do eleitorado. O documento foi divulgado nas redes sociais pela Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito e reúne referências à fé cristã, à família e a propostas defendidas pelo candidato durante a campanha.
Na mensagem, Lula afirma ter “total respeito” pelos cristãos e diz compartilhar com as famílias evangélicas o compromisso de cuidar dos lares brasileiros. Ao longo do texto, o presidente cita o combate às apostas on-line, a defesa de dois dias de descanso semanal, a segurança pública, a proteção das mulheres, a saúde, o aumento da renda e a preservação ambiental.
O movimento ocorre em uma eleição na qual o eleitorado evangélico aparece como um dos segmentos mais disputados entre Lula e Flávio Bolsonaro (PL). Segundo pesquisa Datafolha divulgada em 8 de outubro, Flávio tinha 69% das intenções de voto entre evangélicos, contra 25% de Lula. :chatgpt-content-reference{index=”0″}
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Lula cita família, fé e ações do governo
A carta começa com uma abordagem pessoal. Lula afirma que decidiu escrever “com o coração aberto” e reconhece que não é evangélico, mas diz respeitar os cristãos e todas as religiões.
O presidente também relaciona sua trajetória política à experiência familiar e ao período em que viveu com a mãe e os irmãos. No texto, afirma que aprendeu dentro de casa o valor do trabalho e que sua atuação política sempre esteve ligada à tentativa de melhorar as condições de vida das famílias pobres e trabalhadoras.
Lula também faz referência à sua relação com a fé e afirma ter chegado à Presidência em diferentes momentos de sua trajetória com “proteção divina”.
Combate às bets entra no discurso
Um dos principais temas citados na mensagem são as apostas on-line. Lula afirma que o combate às bets é uma das ações de seu governo e relaciona o tema diretamente à proteção das famílias.
“Lembro a vocês, por exemplo, o combate às apostas online, as Bets, que estão destruindo tantos lares.”
A pauta ganhou espaço na campanha presidencial depois que o governo adotou medidas para restringir o funcionamento das plataformas de apostas. Lula tem apresentado o combate aos jogos on-line como uma medida de proteção contra endividamento e problemas sociais.
Fim da escala 6×1 aparece como argumento para aproximar famílias
Outro tema citado por Lula é a defesa de dois dias de descanso semanal. O presidente relaciona a redução da jornada de trabalho à convivência familiar e também à participação religiosa.
Na carta, ele afirma que a vida não deve se resumir ao trabalho e que mais tempo livre pode fortalecer os vínculos familiares.
“As pessoas precisam de mais tempo para descansar, ter lazer e estar em casa com os seus, fortalecendo os vínculos familiares.”
O presidente acrescenta que, para os evangélicos, o período adicional de descanso também pode representar mais tempo para frequentar igrejas e participar de atividades religiosas.
A discussão ocorre no mesmo dia em que o Senado analisa uma proposta relacionada ao fim da escala 6×1, uma das bandeiras defendidas pelo governo Lula durante a campanha.
Segurança e proteção às mulheres
Lula também cita na carta o combate à violência e ao crime organizado. O presidente afirma que pretende proteger as mulheres, crianças e adolescentes e utilizar inteligência no enfrentamento à criminalidade.
“Sigo também empenhado em proteger as mulheres, combater todos os tipos de violência e o crime organizado com inteligência: prender os bandidos, proteger as nossas crianças e adolescentes e poupar as vidas inocentes.”
A segurança pública é um dos principais temas da disputa presidencial e também uma área em que Flávio Bolsonaro concentra parte de seu discurso eleitoral.
Presidente pede “discernimento” aos evangélicos
Na parte final da mensagem, Lula faz um apelo diretamente relacionado à escolha eleitoral. O presidente afirma que, nas famílias evangélicas, decisões importantes são tomadas em oração e pede que os eleitores busquem orientação religiosa antes de votar.
“Sei que, nas famílias evangélicas, tudo se decide em oração. Por isso, conclamo vocês a pedirem discernimento a Deus para fazer a escolha nesta eleição.”
Lula também pede que os eleitores compareçam às urnas com “a consciência livre” e encerra a mensagem afirmando que segue em busca da vitória e de um Brasil que considera mais justo e com oportunidades para todos.
Mensagem evita se apresentar como evangélico
Apesar de direcionar o texto especificamente ao público evangélico, Lula reconhece na própria carta que não pertence à religião.
A estratégia adotada é apresentar pontos considerados comuns entre sua campanha e valores associados ao eleitorado cristão, como família, trabalho, proteção das crianças, segurança e combate às apostas.
O presidente também afirma que não pretende atacar a liberdade religiosa e diz defender o respeito às diferentes formas de fé.
PT tenta reduzir resistência entre evangélicos
A aproximação com o eleitorado evangélico não começou nesta campanha. O PT já havia divulgado, em junho, uma carta direcionada ao segmento, destacando o que chamou de respeito e reconhecimento às igrejas durante governos petistas.
O próprio Lula também utilizou uma estratégia semelhante na eleição de 2022, quando sua campanha divulgou uma carta aos evangélicos abordando liberdade religiosa e o uso político da fé.
Em 2026, porém, o desafio permanece maior para o candidato petista. Os levantamentos eleitorais mostram vantagem consistente de Flávio Bolsonaro entre os evangélicos.
Na pesquisa Datafolha divulgada em 8 de outubro, Flávio tinha 69% das intenções de voto nesse segmento, contra 25% de Lula. O levantamento ouviu 2.520 pessoas de 16 anos ou mais nos dias 6 e 7 de outubro, com margem de erro de dois pontos percentuais e nível de confiança de 95%. :chatgpt-content-reference{index=”1″}
Religião virou uma das frentes da campanha
A disputa pelo eleitorado religioso ganhou ainda mais espaço no segundo turno. No feriado de Nossa Senhora Aparecida, Lula participou de uma missa no Palácio da Alvorada, enquanto Flávio Bolsonaro esteve na Catedral de Brasília. O tema religioso também aparece nas estratégias de comunicação das duas campanhas. :chatgpt-content-reference{index=”2″}
Além da carta, o vice-presidente Geraldo Alckmin e o advogado-geral da União, Jorge Messias, divulgaram vídeo convidando o público cristão a participar do canal “Cristãos com Lula 13”. Alckmin se apresentou como católico e Messias como evangélico.
A campanha também tem ampliado o uso das redes sociais para dialogar com diferentes segmentos religiosos.
Disputa pelo voto evangélico ganha força no segundo turno
A ofensiva de Lula ocorre em um cenário no qual os dois candidatos buscam ampliar suas bases além dos eleitores mais fiéis. No primeiro turno, Flávio terminou à frente, enquanto Lula também avançou para a segunda etapa da disputa.
O eleitorado evangélico representa uma parcela relevante do eleitorado brasileiro e se tornou um dos principais grupos estratégicos da campanha presidencial. A vantagem de Flávio nesse segmento faz com que a campanha petista busque novas formas de comunicação e aproximação.
A carta divulgada nesta quarta-feira combina temas sociais, econômicos, religiosos e de segurança pública para apresentar a posição de Lula diretamente às famílias evangélicas.
A mensagem termina com um pedido para que os eleitores façam sua escolha de maneira consciente e com base em suas convicções religiosas e pessoais.
Leia a carta na íntegra
Carta de Luiz Inácio Lula da Silva às Famílias Evangélicas Brasileiras
Queridas famílias evangélicas do Brasil,
Resolvi escrever a vocês com o coração aberto, cheio de verdade, pois os cristãos com quem tenho dialogado estão me ensinando que a Bíblia nos orienta a “seguir a verdade em amor.” Não sou evangélico, mas tenho total respeito por quem é, assim como tenho por todas as religiões e profissões de fé. Temos uma coisa em comum: o compromisso de cuidar das famílias brasileiras, pois somente lares fortes podem produzir uma nação forte!
Aprendi dentro de casa o valor do trabalho, resistindo bravamente com minha mãe, Dona Lindu, para criar uma família com sete irmãos. Com essa base familiar sólida, aprendi a amar e a lutar para transformar a realidade. É nesse chão que a minha história se encontra com a história de vida e de fé da sua família. Entrei para a política com esse compromisso em meu coração: ajudar a mudar as condições de vida das famílias pobres e batalhadoras.
Numa longa e difícil jornada, me tornei Presidente do Brasil por três vezes. Agora, disputo o quarto mandato. Cheguei até aqui com a proteção divina, orientado por um propósito e missão. Tenho absoluta certeza de que, se não fosse a boa mão de Deus, eu nem teria saído vivo das várias batalhas que enfrentei. Guiado por Ele estou aqui, mais uma vez, fazendo a defesa das famílias brasileiras com ações concretas, como tenho feito ao longo de toda a minha jornada política, e não com discursos vazios, como muitos outros fazem. As famílias são a base do Brasil que queremos.
Dentre as várias ações do meu governo que abençoam suas famílias, relembro a vocês, por exemplo, o combate às apostas online, as Bets, que estão destruindo tantos lares, e meu empenho para que todos tenham dois dias de descanso semanal, pois a vida não se resume ao trabalho. As pessoas precisam de mais tempo para descansar, ter lazer e estar em casa com os seus, fortalecendo os vínculos familiares. Para o povo evangélico, isso garante, inclusive, mais tempo para estar na igreja em comunhão com os irmãos e em adoração.
Sigo também empenhado em proteger as mulheres, combater todos os tipos de violência e o crime organizado com inteligência: prender os bandidos, proteger as nossas crianças e adolescentes e poupar as vidas inocentes.
Jamais poderão nos acusar de estarmos comprometidos com políticas que destroem vidas, que fecham templos ou que não demonstrem respeito, como Jesus nos ensinou, que devemos amar a todas as pessoas. Precisamos avançar mais, precisamos amar mais! Até aqui, ajudei a arrumar a nossa casa, o Brasil. Mas sei que ainda há muito a ser feito. Estou escutando o clamor legítimo e urgente de vocês por mudanças, por segurança, por futuro e prosperidade.
Estou comprometido com a melhoria da saúde pública, para que sua família fique bem cuidada; com o aumento real da renda, com poder de compra; e com a preservação da natureza criada por Deus. O Brasil é nosso! Eu vou escutar e atender aos anseios de vocês.
Sei que, nas famílias evangélicas, tudo se decide em oração. Por isso, conclamo vocês a pedirem discernimento a Deus para fazer a escolha nesta eleição. Vá às urnas com a consciência livre e com a aliança renovada com o nosso amado Brasil.
Com gratidão por sua atenção e generosa leitura, conto com suas orações e sigo olhando firmemente para a esperança da vitória e de um Brasil mais justo, respeitoso e com oportunidades para todos.