O Rio Branco de Americana, um dos clubes tradicionais do interior paulista, corre o risco de abandonar o futebol profissional em 2027. Em recuperação judicial, a equipe enfrenta dificuldades financeiras, suspeitas de irregularidades na movimentação de recursos e uma disputa envolvendo valores da transferência do lateral Vanderson, atualmente no Monaco e com passagens pela Seleção Brasileira.
A situação se agravou com questionamentos de credores sobre transferências milionárias para uma empresa ligada ao presidente do clube, Cláudio Bonaldo. Paralelamente, a diretoria negocia uma parceria com o grupo responsável pelo futebol do Sertãozinho, que poderia assumir os custos da operação esportiva e utilizar temporariamente os símbolos do Rio Branco.

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Rio Branco pode abandonar o futebol profissional em 2027
A situação financeira do Rio Branco coloca em dúvida sua participação na Série A-3 do Campeonato Paulista de 2027. Documentos apresentados à Justiça indicam uma previsão otimista de receitas de até R$ 480 mil, enquanto as despesas para disputar a competição podem chegar a R$ 1,8 milhão.
A diferença entre arrecadação e custos dificulta a manutenção de uma equipe profissional. O clube está em recuperação judicial desde 2023, quando apresentou uma relação de 41 credores e aproximadamente R$ 6,6 milhões em dívidas.
Na documentação judicial, o advogado Régis Villas Bôas Villela alertou que a ausência de uma parceria pode levar o Rio Branco a deixar de disputar a competição e perder sua filiação esportiva.
Segundo a manifestação apresentada à Justiça, a situação ameaça a própria continuidade da associação como clube de futebol profissional.

Venda de Vanderson ao Monaco gera disputa milionária
Parte da crise envolve recursos da transferência do lateral Vanderson, revelado nas categorias de base do Rio Branco e posteriormente negociado pelo Grêmio com o Monaco, da França.
Em 2016, o clube firmou um acordo com o ex-atacante Sandro Hiroshi para a administração das categorias sub-15 e sub-17. O contrato previa que 70% das receitas provenientes dos direitos econômicos dos atletas seriam destinados à empresa do ex-jogador, enquanto 30% ficariam com o Rio Branco.
Vanderson chegou ao Grêmio em 2018 e posteriormente foi vendido ao futebol francês por aproximadamente 11 milhões de euros. A operação deu origem a divergências sobre os valores que deveriam ser repassados ao clube paulista.
Em junho de 2026, a Câmara Nacional de Resolução de Disputas (CNRD) determinou que o Grêmio pagasse R$ 1,9 milhão ao Rio Branco.
No mês seguinte, porém, o clube gaúcho obteve autorização para parcelar débitos na entidade em um plano coletivo que pode chegar a 60 meses. A decisão ampliou a incerteza sobre quando o Rio Branco receberá os recursos.
Sandro Hiroshi também acionou a Justiça para reivindicar sua participação contratual. Uma decisão liminar estabeleceu que 70% dos valores em disputa sejam destinados à empresa do ex-jogador e 30% à recuperação judicial do clube. A medida ainda pode ser contestada.

Transferências para empresa do presidente levantam suspeitas
Outro ponto da crise envolve movimentações bancárias entre o Rio Branco e a Manager Serviços Administrativos, empresa que tem entre seus sócios o presidente Cláudio Bonaldo.
Extratos anexados ao processo mostram que, em 16 de dezembro de 2024, o Grêmio depositou R$ 1,2 milhão na conta do Rio Branco. Na sequência, três transferências destinadas à Manager somaram o mesmo valor.
Em janeiro de 2025, uma movimentação semelhante ocorreu após o recebimento de R$ 533 mil do clube gaúcho.
As operações provocaram questionamentos de credores sobre a destinação dos recursos e a possibilidade de utilização de uma estrutura financeira paralela à administração direta da associação.
Diante das suspeitas, o juiz Willi Lucarelli determinou uma auditoria sobre as movimentações relacionadas à Manager.
O Ministério Público de São Paulo também solicitou uma investigação preliminar à Polícia Civil para apurar eventuais atos fraudulentos durante a recuperação judicial.
Segundo a Secretaria de Segurança Pública paulista, até a divulgação das informações não havia sido instaurado inquérito policial.

Rio Branco nega irregularidades e justifica transferências
Em manifestação apresentada à Justiça, o Rio Branco negou irregularidades e afirmou que a contratação da Manager ocorreu em razão das dificuldades enfrentadas para administrar diretamente as receitas e despesas.
Segundo a defesa, a empresa passou a concentrar parte da operação financeira do clube após uma decisão do Conselho Deliberativo.
Os advogados sustentaram que a escolha levou em consideração os custos de administração e que os documentos necessários foram apresentados no processo.
Outra movimentação questionada envolve um empréstimo de R$ 887 mil realizado pela Maximóveis, empresa ligada ao vice-presidente Gilson Roberto Bonaldo, irmão do presidente.
A Justiça determinou a apresentação dos contratos relacionados à operação. O clube afirma que entregou a documentação ao administrador judicial.
As suspeitas seguem sob análise e não representam comprovação de fraude ou de prática criminosa por parte dos dirigentes.

Parceria com Sertãozinho pode evitar encerramento das atividades
Sem recursos suficientes para disputar a próxima temporada, o Rio Branco negocia uma parceria com a empresa responsável pela gestão do futebol do Sertãozinho, clube que possui vaga na Série A-2 do Campeonato Paulista.
A proposta prevê que a equipe administrada pelo parceiro passe a atuar em Americana, utilizando temporariamente o nome, o uniforme e os símbolos do Rio Branco.
Enquanto isso, a associação original pediria licença à Federação Paulista de Futebol e deixaria de assumir os custos de manutenção do departamento profissional.
Segundo a defesa, o acordo não envolveria a transferência definitiva do patrimônio imobiliário do Rio Branco, estimado em mais de R$ 100 milhões.
O advogado Régis Villas Bôas Villela, que também possui ligação com a empresa responsável pelo Sertãozinho, sustenta que a parceria é a alternativa para preservar a presença do clube no futebol estadual.
A Justiça autorizou a continuidade das negociações, mas ressaltou que isso não representa aprovação antecipada de operações envolvendo bens e direitos sujeitos ao processo de recuperação judicial.
O administrador judicial manifestou posição favorável à possibilidade de parceria, condicionando uma avaliação definitiva à apresentação do contrato e à análise de seus efeitos sobre o patrimônio e os credores.

Rio Branco revelou jogadores de três seleções na Copa de 2006
A possibilidade de interrupção das atividades ameaça a trajetória de um clube que se destacou pela formação de jogadores.
Na Copa do Mundo de 2006, três atletas revelados pelo Rio Branco representaram seleções diferentes: Mineiro, pelo Brasil; Marcos Senna, pela Espanha; e Zinha, pelo México.
O clube também participou de 17 temporadas consecutivas da primeira divisão do Campeonato Paulista, entre 1991 e 2007, período em que consolidou sua presença no futebol estadual.
Após sucessivos rebaixamentos, a equipe passou por divisões inferiores e atualmente disputa a Série A-3.
As dificuldades também atingem a estrutura do estádio Décio Vitta, que não recebe partidas noturnas há aproximadamente oito anos devido a problemas no sistema de iluminação.

O que acontece agora com o Rio Branco?
O futuro do clube depende das negociações com o Sertãozinho, da análise judicial e das exigências da Federação Paulista de Futebol.
As equipes que pretendem disputar as séries A-2 e A-3 em 2027 precisam apresentar a documentação para licenciamento até segunda-feira (19).
Uma alternativa discutida internamente é disputar a Série A-3 utilizando jogadores das categorias de base, reduzindo os custos e evitando o afastamento das competições.
Enquanto aguarda uma definição, o Rio Branco enfrenta o desafio de preservar sua história, cumprir as obrigações com credores e esclarecer as movimentações financeiras questionadas na recuperação judicial.
