O Supremo Tribunal Federal (STF), que esteve no centro de disputas políticas durante o primeiro turno das eleições de 2026, praticamente ficou de fora do primeiro debate presidencial entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Durante aproximadamente duas horas de confronto na Band, neste domingo (18), a Corte foi mencionada apenas três vezes, mesmo diante das recentes controvérsias envolvendo ministros e investigações relacionadas ao Banco Master.
A pouca presença do Supremo contrastou com o protagonismo que a instituição teve durante a campanha eleitoral, especialmente entre candidatos ligados ao bolsonarismo, que defenderam o impeachment de ministros. No debate, entretanto, Lula e Flávio concentraram os ataques em denúncias de corrupção, relações familiares, segurança pública e economia.
Quando o STF entrou na discussão, os candidatos trocaram acusações sobre indicações de ministros, decisões judiciais e supostas interferências políticas. Flávio criticou a relação de Lula com integrantes da Corte, enquanto o presidente negou interferir nas investigações e afirmou que familiares devem responder à Justiça caso sejam identificadas irregularidades.
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Lula e Flávio trocam acusações, expõem famílias e protagonizam debate tenso na Band
Flávio acusa Lula de favorecer aliados no Supremo
Uma das primeiras referências ao STF ocorreu quando Flávio Bolsonaro defendeu a atuação do ex-juiz Sergio Moro e do ex-procurador Deltan Dallagnol na Operação Lava Jato. O senador afirmou que os dois combateram a corrupção e acusou Lula de contribuir para o enfraquecimento da operação por meio de suas relações com integrantes do Supremo.
“Lutaram muito para combater a corrupção.”
A declaração foi feita em referência a Moro e Dallagnol, que acompanharam Flávio no debate. Moro, filiado ao PL, foi eleito governador do Paraná no primeiro turno, enquanto Dallagnol conquistou uma vaga no Senado pelo Novo.
Flávio também acusou o presidente de escolher ministros do STF por critérios de proximidade política, sugerindo que as indicações teriam o objetivo de favorecer aliados e familiares envolvidos em investigações.
O senador mencionou Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, e fez referências a nomes do governo petista associados por ele às controvérsias envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro.
As declarações foram acusações políticas feitas durante o debate e não representam comprovação de interferência judicial ou de favorecimento por parte dos ministros.

Lula cita André Mendonça e nega interferência na Justiça
Ao responder às acusações, Lula mencionou o ministro André Mendonça, indicado ao Supremo pelo ex-presidente Jair Bolsonaro. Mendonça é relator de investigações relacionadas a Lulinha.
O presidente afirmou que não pretende impedir a atuação da Justiça e que seu filho deverá prestar esclarecimentos caso seja convocado pelas autoridades.
“O juiz que está com o processo, que é o seu amigo, o André Mendonça, que traga ele para ser julgado. Ele virá prestar depoimento e não irá se esconder. No meu mundo, ninguém se esconde. No meu mundo a coisa é só apurada.”
Lula também citou a condenação de Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio, pelo STF, durante uma resposta sobre o tratamento dado pela Justiça a integrantes de famílias políticas.
O presidente afirmou que investigações devem alcançar qualquer pessoa, independentemente de parentesco ou posição política.
“Eu não sou um pai que protege o filho como você foi protegido pelo seu pai. Se tiver investigação, se tiver problema, será investigado, seja meu filho, seja meu irmão, qualquer um.”
As falas evidenciaram a divergência entre os candidatos sobre a atuação do Judiciário, mas não levaram a uma discussão aprofundada sobre propostas para o funcionamento do Supremo.

Banco Master colocou ministros no centro de controvérsias
A ausência de um debate mais amplo sobre o STF ocorreu em meio a uma sequência de controvérsias envolvendo integrantes da Corte e o Banco Master, instituição ligada ao empresário Daniel Vorcaro.
Entre setembro e outubro, reportagens divulgaram informações sobre contatos entre ministros e o banqueiro, incluindo mensagens atribuídas a Alexandre de Moraes. Também surgiram questionamentos sobre a participação do ministro Kassio Nunes Marques em eventos patrocinados por Vorcaro.
As informações provocaram discussões sobre possíveis conflitos de interesses, transparência e a necessidade de esclarecimentos sobre relações entre autoridades e empresários investigados.
As controvérsias também produziram divergências internas no Supremo. Moraes chegou a pedir uma investigação contra André Mendonça por suspeitas de irregularidades relacionadas à condução de procedimentos envolvendo o Banco Master.
O presidente do STF, Edson Fachin, convocou uma sessão para discutir a possibilidade de investigação de Moraes. O encontro terminou sem definição após um pedido de vista do ministro Flávio Dino.
Apesar da dimensão política dessas discussões, os candidatos não aprofundaram o assunto durante o confronto presidencial.
Pedidos de impeachment marcaram o primeiro turno
O contraste também aparece quando se observa o papel do Supremo nas campanhas para o Senado.
Durante o primeiro turno, candidatos ligados ao ex-presidente Jair Bolsonaro utilizaram críticas ao STF como uma de suas principais bandeiras eleitorais. Entre as propostas defendidas estava a abertura de processos de impeachment contra ministros da Corte.
O impeachment de ministros do Supremo depende de procedimentos previstos na legislação e de deliberação do Senado Federal, responsável por processar e julgar ministros do STF por crimes de responsabilidade.
A eleição de novos senadores tornou o tema relevante para a composição política do Congresso e para a relação entre os Poderes.
No entanto, durante o debate presidencial, Flávio Bolsonaro não concentrou sua participação nessa agenda. O candidato priorizou críticas ao governo Lula e propostas relacionadas à segurança pública, à economia e ao combate à corrupção.
O que explica a pouca presença do STF no debate?
O formato do encontro e os assuntos escolhidos pelos candidatos ajudam a contextualizar a participação limitada do Supremo na discussão.
O primeiro bloco começou com segurança pública e rapidamente passou a abordar corrupção, familiares dos candidatos e acusações envolvendo empresários e integrantes dos respectivos grupos políticos.
Nos blocos seguintes, temas como saúde, economia, endividamento das famílias e relações internacionais também ocuparam espaço.
Embora o STF tenha sido citado em acusações relacionadas a investigações e indicações de ministros, não houve uma discussão prolongada sobre reformas do Judiciário, limites institucionais ou propostas específicas para a Corte.
A diferença em relação ao primeiro turno não significa, necessariamente, que o assunto tenha perdido importância para os candidatos ou seus eleitores. O debate, porém, mostrou que outras pautas ocuparam o centro do confronto naquela noite.
Próximos passos
Lula e Flávio Bolsonaro voltam a concentrar esforços na campanha para o segundo turno, marcado para domingo, 25 de outubro.
Um novo debate presidencial está previsto para sexta-feira (23), na TV Globo, dois dias antes da votação.
Até lá, o papel do STF, as investigações envolvendo figuras políticas e as controvérsias relacionadas ao Banco Master poderão voltar às discussões eleitorais.
A condução de eventuais investigações contra autoridades e integrantes da Corte, por sua vez, segue os procedimentos institucionais próprios e não depende das declarações feitas pelos candidatos durante a campanha.