Presente no café da manhã de milhões de brasileiros, o tradicional pão francês pode ganhar reconhecimento como patrimônio cultural imaterial do Brasil. A multinacional Bunge, em parceria com a Fundação Bunge e representantes do setor de panificação, apresentou ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) um pedido para reconhecer a importância cultural do alimento e das técnicas utilizadas em sua produção.
A iniciativa faz parte da campanha nacional “O pão que junta o Brasil”, que também lançou uma petição pública para reunir apoio à proposta. Segundo reportagem publicada pela Folha de S.Paulo nesta segunda-feira (19), o objetivo é valorizar não apenas o produto, mas os conhecimentos, as tradições e a memória afetiva associados ao pãozinho consumido diariamente em diferentes regiões do país.
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Por que o pão francês pode virar patrimônio cultural?
A proposta considera o papel do pão francês na alimentação, na cultura e na economia brasileira. Embora seja conhecido por diferentes nomes, o produto faz parte da rotina de famílias de todas as regiões do país.
Segundo a Bunge, o reconhecimento também pretende preservar os conhecimentos transmitidos entre gerações de padeiros, responsáveis por manter técnicas tradicionais de preparo.
A diretora de marketing de trigo da empresa, Fernanda Louvise, afirmou à Folha que a iniciativa busca reconhecer as dimensões culturais e sociais do alimento, incluindo o trabalho e o conhecimento necessários para sua fabricação.
O pedido ainda depende de avaliação do Iphan. Portanto, o pão francês não recebeu o título de patrimônio cultural imaterial até o momento.
Pão francês tem diferentes nomes pelo Brasil
Apesar do nome, o pão francês consumido no Brasil é considerado uma adaptação nacional inspirada na baguete da França.
Uma das explicações para sua popularização está relacionada ao contato de brasileiros com os hábitos alimentares europeus. Ao longo do tempo, o produto ganhou características próprias, como tamanho reduzido, casca dourada e crocante e miolo macio.
A receita costuma levar farinha de trigo, água, sal e fermento biológico, podendo incluir pequenas quantidades de açúcar e margarina.
O alimento também ganhou diferentes nomes regionais. Em São Paulo e no Rio de Janeiro, é conhecido principalmente como pão francês. Em Minas Gerais, no Espírito Santo e na Bahia, também recebe o nome de pão de sal.
No Ceará, é chamado de carioquinha. No Amazonas e no Pará, de careca. No Rio Grande do Sul, o nome popular é cacetinho, enquanto em Santa Catarina também é conhecido como pão de trigo.
Mesmo com as diferenças de nomenclatura, o produto mantém características semelhantes e ocupa um lugar importante nos hábitos alimentares da população.
Brasil consome bilhões de pãezinhos por ano
A dimensão do consumo ajuda a explicar a relevância econômica do pão francês.
Segundo dados citados pela Folha, com base em informações do setor de panificação, os brasileiros consomem aproximadamente 2,35 milhões de toneladas do produto por ano, o equivalente a cerca de 47 bilhões de unidades.
Somente na região metropolitana de São Paulo, o consumo chega a aproximadamente 20 milhões de pãezinhos por dia, ou 7,3 bilhões de unidades por ano, de acordo com o Sampapão, entidade que representa a indústria de panificação e confeitaria paulista.
O preço de uma unidade de aproximadamente 50 gramas varia entre R$ 0,75 e R$ 1,75, conforme os valores apresentados na reportagem.
Setor de panificação movimentou R$ 164 bilhões
Além de fazer parte da alimentação cotidiana, o pão francês tem importância para a atividade econômica de milhares de estabelecimentos.
Dados da Associação Brasileira da Indústria de Panificação e Confeitaria (Abip), divulgados pela Folha, apontam que o setor movimentou R$ 164 bilhões em 2025.
A atividade também responde por aproximadamente 2,76 milhões de empregos diretos e indiretos e representa 1,29% do Produto Interno Bruto (PIB), segundo os números apresentados pela entidade.
O pão francês é um dos principais produtos comercializados pelas padarias, contribuindo para o movimento diário de consumidores e para a geração de renda em diferentes municípios.
Brasil já reconhece tradições alimentares como patrimônio imaterial
O reconhecimento de práticas relacionadas à alimentação como patrimônio cultural imaterial não é uma novidade no Brasil.
Entre os exemplos estão o ofício das baianas de acarajé, os modos de fazer o queijo artesanal em Minas Gerais, a produção tradicional de cajuína no Piauí e as tradições doceiras da região de Pelotas, no Rio Grande do Sul.
O ofício das paneleiras de Goiabeiras, no Espírito Santo, também integra os bens culturais reconhecidos, associado à produção de utensílios tradicionais utilizados no preparo da moqueca capixaba.
Esses reconhecimentos buscam valorizar conhecimentos, práticas e tradições transmitidos entre gerações.
No caso do pão francês, a proposta pretende destacar o trabalho dos profissionais da panificação e a presença do alimento na vida cotidiana dos brasileiros.
Quando o pão francês poderá receber o reconhecimento?
A campanha organizada pela Bunge continuará recebendo adesões à petição pública até fevereiro de 2027.
A mobilização busca demonstrar o apoio à valorização do pão francês como elemento da cultura alimentar brasileira.
A eventual concessão do reconhecimento dependerá dos procedimentos de análise e decisão do Iphan, responsável pela proteção do patrimônio cultural brasileiro.
Até lá, o pãozinho segue como um dos alimentos mais presentes nas mesas do país, agora também no centro de uma iniciativa para preservar sua história e suas tradições.