Banco do Brasil reduz crédito ao agronegócio em 44% e acende alerta para grandes produtores

Financiamentos caíram de R$ 56,5 bilhões para cerca de R$ 31,6 bilhões no início da safra 2026/27; aumento da inadimplência e maior rigor dos bancos explicam retração.
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O Banco do Brasil registrou uma queda de 44,1% nos desembolsos de financiamentos ao agronegócio no início da safra 2026/27. Entre julho e outubro, o volume liberado ficou próximo de R$ 31,6 bilhões, contra R$ 56,5 bilhões no mesmo período do ciclo anterior. A retração é mais intensa entre grandes produtores rurais e reflete o aumento da inadimplência e o maior rigor das instituições financeiras na concessão de crédito.

Os números foram apresentados pelo banco nesta semana e mostram um cenário de maior dificuldade para o financiamento da produção agrícola brasileira. A redução atinge principalmente operações destinadas à agricultura empresarial, incluindo recursos para custeio, investimentos e financiamentos por meio de títulos do agronegócio.

Apesar da queda expressiva no volume total, o desempenho não é igual para todos os produtores. Enquanto grandes propriedades enfrentam restrições mais intensas, o crédito destinado à agricultura familiar apresentou crescimento de 1,7%. Já os financiamentos para médios produtores registraram queda de aproximadamente 44%, embora parte dessa diferença seja explicada pela antecipação de recursos antes do início oficial da safra.

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Por que o Banco do Brasil reduziu os financiamentos rurais?

O principal fator apontado pelo Banco do Brasil é o aumento da inadimplência entre produtores rurais, especialmente no segmento de grandes propriedades.

Segundo o vice-presidente de Agronegócios e Agricultura Familiar da instituição, Gilson Bittencourt, o crescimento das dívidas em atraso provoca uma reação de cautela em todo o sistema financeiro.

Isso acontece porque, além de restringir novos empréstimos para clientes inadimplentes, os bancos passam a considerar um risco maior nas operações com outros produtores, mesmo aqueles que continuam pagando suas obrigações.

“À medida que tem um aumento da inadimplência na agricultura empresarial, o produtor inadimplente não acessa crédito. E não acessa em nenhuma instituição”, afirmou Bittencourt.

O executivo destacou que a redução dos financiamentos não é exclusiva do Banco do Brasil. Cooperativas de crédito e outras instituições financeiras também estão adotando critérios mais rigorosos diante do aumento do risco no setor.

Na prática, produtores que precisam financiar sementes, fertilizantes, defensivos agrícolas, máquinas e outras despesas da atividade podem enfrentar uma análise de crédito mais criteriosa.

Isso não significa que o financiamento tenha sido interrompido, mas que a liberação de recursos está mais seletiva.

Crédito para grandes produtores caiu 55%

O impacto mais expressivo aparece nas operações destinadas à agricultura empresarial de maior porte.

De acordo com os dados apresentados pelo Banco do Brasil, o volume liberado para grandes propriedades caiu de R$ 33,6 bilhões para R$ 15,1 bilhões na comparação dos primeiros 112 dias das duas últimas safras.

A redução representa aproximadamente 55% e ajuda a explicar a forte retração no resultado geral da instituição.

Outro segmento afetado foi o financiamento por meio de Cédulas de Produto Rural (CPRs), instrumentos utilizados no agronegócio para antecipar recursos vinculados à produção.

Nessa modalidade, o volume financiado caiu de R$ 6,7 bilhões para aproximadamente R$ 3,7 bilhões.

A diminuição mostra que a cautela não está concentrada apenas nas linhas tradicionais de crédito rural, mas também alcança outras formas de financiamento utilizadas pelos produtores.

Agricultura familiar mantém crescimento no crédito

Enquanto os grandes produtores enfrentam uma retração significativa, a agricultura familiar apresenta um comportamento diferente.

Os desembolsos realizados pelo Banco do Brasil por meio do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) chegaram a aproximadamente R$ 8,4 bilhões no período analisado.

Na safra anterior, o volume havia sido de cerca de R$ 8,3 bilhões, o que representa crescimento de 1,7%.

Segundo Gilson Bittencourt, o desempenho positivo indica que a agricultura familiar mantém condições de pagamento e acesso ao financiamento, apesar das dificuldades observadas em outros segmentos.

O Pronaf é uma das principais políticas de financiamento para pequenos produtores brasileiros, oferecendo recursos para custeio e investimentos nas propriedades rurais.

O programa atende agricultores familiares que precisam financiar atividades como plantio, criação de animais, aquisição de equipamentos e melhorias na produção.

Crédito para médios produtores caiu 44%, mas banco explica diferença

No Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural (Pronamp), o volume liberado desde julho chegou a aproximadamente R$ 4,4 bilhões.

O resultado representa uma queda de cerca de 44% em relação aos R$ 7,9 bilhões desembolsados no mesmo período da safra anterior.

Entretanto, o Banco do Brasil afirma que essa comparação precisa considerar uma particularidade.

Entre março e junho de 2026, antes do início oficial do atual Plano Safra, a instituição antecipou aproximadamente R$ 3,9 bilhões adicionais em operações de pré-custeio para médios produtores, na comparação com o mesmo período do ano anterior.

Esses financiamentos foram utilizados para preparar a produção da safra atual, mas não aparecem nos números acumulados a partir de julho.

“Como fizemos pré-custeio, estamos financiando essa safra agora, mas começamos a financiar em março. Se somarmos o valor antecipado, praticamente teremos o mesmo valor que teria do ano passado”, explicou Bittencourt.

Segundo o banco, essa antecipação ajuda a demonstrar que o acesso dos médios produtores ao financiamento permanece mais próximo dos níveis registrados anteriormente do que a queda isolada de 44% sugere.

Produtores também estão reduzindo investimentos

Além do maior rigor dos bancos, a redução dos desembolsos está relacionada à decisão de parte dos produtores de adiar investimentos.

O Banco do Brasil observa uma desaceleração nas operações destinadas à ampliação de áreas produtivas, aquisição de máquinas e realização de melhorias nas propriedades.

Segundo Bittencourt, produtores com dívidas elevadas ou fluxo de caixa comprometido estão priorizando o pagamento de obrigações e a reorganização financeira.

A orientação econômica é evitar novos compromissos de longo prazo quando a capacidade de pagamento está pressionada.

Esse comportamento também contribui para reduzir a demanda por crédito de investimento, especialmente entre grandes produtores.

O movimento ocorre em um cenário de menor liquidez no setor agropecuário, com parte das empresas rurais concentrando esforços na manutenção das atividades já existentes.
O movimento ocorre em um cenário de menor liquidez no setor agropecuário, com parte das empresas rurais concentrando esforços na manutenção das atividades já existentes.

 

Queda no crédito rural também aparece em outros bancos

A desaceleração dos financiamentos não se limita ao Banco do Brasil.

Dados analisados pela Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (Faesp), com base em informações do Banco Central, já apontavam retração de 37,8% nos desembolsos nacionais de crédito rural nos dois primeiros meses da safra 2026/27.

Entre julho e agosto, foram liberados R$ 44,3 bilhões no país, contra R$ 71,3 bilhões no mesmo período do ciclo anterior.

O número de contratos também caiu 34,4%, indicando que a retração atingiu tanto o volume financeiro quanto a quantidade de operações.

Em São Paulo, a redução foi ainda maior: os desembolsos caíram 46,7% no período.

Os dados reforçam que a dificuldade de acesso ao financiamento está relacionada a um movimento mais amplo do mercado de crédito agropecuário brasileiro.

Banco do Brasil mantém previsão de R$ 210 bilhões para a safra

Mesmo com a queda nos desembolsos iniciais, o Banco do Brasil mantém uma previsão de liberar R$ 210 bilhões em financiamentos para o agronegócio durante a safra 2026/27.

O ciclo começou em 1º de julho de 2026 e termina em 30 de junho de 2027.

Do total previsto, R$ 170 bilhões deverão ser destinados à agricultura empresarial, incluindo operações de custeio, investimento, comercialização, industrialização e financiamento da cadeia produtiva.

Outros R$ 40 bilhões estão previstos para agricultores familiares e médios produtores.

A projeção representa um crescimento de aproximadamente 0,5% em relação ao volume desembolsado na safra anterior.

Entretanto, a manutenção dessa estimativa não significa que todos os recursos já estejam contratados ou que serão necessariamente liberados no ritmo inicialmente esperado.

Próximos passos

O comportamento dos desembolsos nos próximos meses será importante para avaliar se a retração registrada no início da safra será parcialmente compensada ao longo do ciclo agrícola.

O Banco do Brasil espera que determinadas modalidades, como o financiamento para industrialização, ganhem maior participação a partir do segundo semestre da safra, especialmente depois de fevereiro.

A evolução da inadimplência, a capacidade de pagamento dos produtores e a demanda por novos investimentos continuarão influenciando a concessão de recursos.

Para o setor agropecuário, o desafio será equilibrar a necessidade de financiamento da produção com a reorganização financeira de propriedades que enfrentam dificuldades para cumprir seus compromissos.

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