O Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) espera encontrar no celular de um advogado informações que possam esclarecer o possível vazamento da Operação Infiltrados, deflagrada em Mato Grosso do Sul. O aparelho pertence a Amilton Ferreira de Almeida, investigado por suspeita de ter alertado o delegado Hoffman D’Ávila Cândido e Sousa sobre o cumprimento de mandados judiciais.
A principal dificuldade dos investigadores é a ausência do celular do próprio delegado, que não entregou o aparelho durante a operação realizada em 24 de setembro. Embora o Gaeco tenha identificado contatos e horários de conversas pelo WhatsApp, o conteúdo das mensagens e videochamadas ainda não foi recuperado.
Segundo informações publicadas pelo Campo Grande News nesta sexta-feira (23), a extração dos dados do telefone de Amilton é considerada uma etapa importante para esclarecer o que aconteceu nas horas anteriores à chegada dos policiais à residência de Hoffman.
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Celular de advogado pode esclarecer suspeita de vazamento de operação
A investigação busca descobrir se o delegado Hoffman D’Ávila recebeu informações antecipadas sobre a Operação Infiltrados, que tinha como um dos alvos o próprio policial.
Hoffman, ex-titular da Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico (Denar), é acusado pelo Ministério Público de envolvimento com um esquema relacionado ao tráfico de drogas e ao desvio de entorpecentes apreendidos.
Durante a operação, o delegado não foi encontrado em sua residência no momento previsto para o cumprimento dos mandados.
Ele se apresentou às autoridades no fim do mesmo dia, mas estava sem o celular.
A ausência do aparelho dificultou a recuperação direta de mensagens que poderiam esclarecer seus contatos naquela madrugada.
Por isso, os investigadores passaram a considerar os dados armazenados no telefone do advogado Amilton Ferreira de Almeida como uma possível fonte de informações.
A expectativa é verificar se o conteúdo das conversas confirma ou afasta a suspeita de que o delegado tenha sido avisado sobre a ação policial.
Ligação de um minuto levantou suspeitas contra advogado
Um dos principais elementos da investigação é uma sequência de contatos telefônicos realizados pouco antes do início da operação.
Segundo registros analisados pelo Gaeco e divulgados pelo Campo Grande News, Amilton tentou falar com Hoffman pelo WhatsApp às 5h00 do dia 24 de setembro.
A primeira chamada foi rejeitada.
Pouco depois, o advogado realizou uma videochamada, atendida pelo delegado às 5h01.
A conversa durou aproximadamente um minuto e 12 segundos.
Para os investigadores, o horário do contato chamou atenção porque as equipes policiais estavam prestes a cumprir os mandados judiciais.
A suspeita é de que o advogado tenha utilizado a ligação para informar Hoffman sobre a operação.
Entretanto, os registros disponíveis identificam os participantes e os horários das chamadas, mas não revelam o que foi dito.
Assim, a existência da ligação não comprova, isoladamente, que informações sigilosas tenham sido transmitidas.
Delegado deixou residência antes da chegada dos policiais
Outro elemento considerado pelo Gaeco é a movimentação do delegado após os primeiros contatos com o advogado.
De acordo com a cronologia divulgada pela imprensa local, câmeras de segurança registraram Hoffman deixando sua residência por volta das 5h18.
O policial saiu em um Honda HR-V aproximadamente 15 minutos depois da conversa com Amilton.
Quando as equipes chegaram às proximidades do imóvel, às 5h24, o delegado já não estava no local.
Os mandados começaram a ser cumpridos às 5h30.
A proximidade entre a ligação e a saída da residência é apontada pela investigação como um dos motivos para suspeitar de um aviso antecipado.
A defesa, no entanto, contesta essa interpretação.
Sem acesso ao conteúdo das conversas, ainda não é possível estabelecer se o deslocamento do delegado teve relação com a operação.
Novas ligações ocorreram durante cumprimento dos mandados
A investigação também identificou outros contatos entre Hoffman e Amilton na mesma madrugada.
Às 5h25, quando as equipes policiais já estavam próximas da residência do delegado, Hoffman realizou uma videochamada para o advogado.
A conversa durou cerca de um minuto e 55 segundos.
Posteriormente, às 5h38, Amilton fez outra chamada para Hoffman, com duração de aproximadamente 23 segundos.
Os investigadores também identificaram comunicações entre o delegado e um terceiro interlocutor, cuja identidade não havia sido esclarecida nas informações divulgadas.
Esses registros são considerados relevantes para reconstruir a sequência de acontecimentos.
No entanto, a investigação ainda precisa determinar o conteúdo dos contatos e verificar se houve alguma tentativa de prejudicar o cumprimento das ordens judiciais.
Advogado foi preso, mas Superior Tribunal de Justiça determinou soltura
Amilton Ferreira de Almeida chegou a ser preso temporariamente em razão das suspeitas de vazamento.
A prisão foi autorizada em 28 de setembro e cumprida no dia seguinte.
A defesa recorreu ao Superior Tribunal de Justiça (STJ), argumentando que o advogado já representava Hoffman antes da operação e que os contatos entre os dois estavam relacionados ao exercício profissional.
Os advogados também questionaram a legalidade da prisão e sustentaram que não havia provas suficientes de participação em qualquer vazamento.
Na segunda-feira (19), o ministro Reynaldo Soares da Fonseca determinou a soltura de Amilton.
A decisão, divulgada na quarta-feira (21), considerou inadequada a utilização da prisão temporária para averiguações.
A soltura não significa que todas as suspeitas tenham sido definitivamente afastadas, mas impede a manutenção daquela medida de privação de liberdade nos termos examinados pelo tribunal.
Defesa afirma que contatos eram profissionais
A defesa de Amilton nega que o advogado tenha alertado o delegado sobre a Operação Infiltrados.
Segundo os representantes legais, as ligações ocorreram no contexto da relação entre advogado e cliente.
Os defensores sustentam que a comunicação com uma pessoa investigada não pode ser considerada, por si só, prova de participação em um crime.
Também argumentam que o conteúdo das conversas não foi apresentado pelos investigadores.
O Gaeco, por sua vez, considera que os horários das ligações, os deslocamentos registrados e a ausência do delegado durante a operação justificam o aprofundamento das apurações.
A análise dos dados do celular poderá contribuir para esclarecer essas versões, desde que sejam respeitadas as garantias legais aplicáveis ao material apreendido, inclusive o sigilo profissional da advocacia.
Delegado é acusado de envolvimento com esquema de tráfico de drogas
A Operação Infiltrados investiga suspeitas de participação de policiais em atividades relacionadas ao tráfico de entorpecentes em Mato Grosso do Sul.
Hoffman D’Ávila, que atuou por anos na repressão ao narcotráfico, é apontado pelo Ministério Público como um dos investigados no esquema.
Entre os episódios examinados está a apreensão de uma carga de cocaína em Bela Vista, em maio de 2024.
Segundo a investigação, aparelhos celulares recolhidos naquela ocorrência teriam permanecido meses sem análise pericial.
O Gaeco suspeita que a demora tenha dificultado a identificação de outros possíveis envolvidos no transporte e na comercialização dos entorpecentes.
As acusações ainda dependem de análise judicial e não devem ser tratadas como condenação definitiva.
O que falta esclarecer na investigação?
A principal questão é saber o que foi discutido nas conversas realizadas durante a madrugada de 24 de setembro.
Até agora, os investigadores conseguiram reconstruir parte da cronologia por meio de registros de chamadas, horários e imagens de câmeras de segurança.
Esses elementos mostram que houve contatos entre o advogado e o delegado antes e durante o cumprimento dos mandados.
Entretanto, não revelam o conteúdo das mensagens e videochamadas.
A extração dos dados do celular de Amilton poderá ajudar a esclarecer se houve comunicação de informações sigilosas, quem teria tido acesso antecipado à operação e qual foi a finalidade dos contatos.
O resultado da análise ainda não foi divulgado.
Por enquanto, a suspeita de vazamento permanece sob investigação, sem conclusão pública que comprove a participação do advogado.