Dólar e Ibovespa mostram sinais de recuperação após forte turbulência no mercado

Após um pregão de perdas expressivas na segunda-feira, ativos brasileiros apresentam acomodação nesta terça-feira (27), enquanto investidores acompanham as perspectivas para a política econômica.
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O mercado financeiro brasileiro atravessa um período de forte instabilidade após a reação dos investidores ao resultado das eleições presidenciais. Nesta terça-feira (27), o dólar e os ativos de empresas brasileiras negociados no exterior apresentaram sinais de acomodação, mas as perspectivas para a Bolsa de Valores e o câmbio continuam dividindo bancos e casas de análise.

Na segunda-feira (26), o Ibovespa, principal indicador da Bolsa brasileira, despencou 13,88%, encerrando o pregão aos 176.608 pontos, segundo dados divulgados pelo g1. Já o dólar comercial avançou 8,21%, fechando a R$ 5,4027. A moeda chegou a ultrapassar R$ 5,60 durante o dia, registrando sua maior valorização percentual diária desde janeiro de 1999.

A intensidade das perdas levou a B3 a acionar o circuit breaker, mecanismo que interrompe temporariamente as negociações quando o mercado registra uma queda acentuada. Após a retomada das operações, o Ibovespa chegou a recuar mais de 17%, antes de reduzir parte das perdas até o fechamento. O episódio marcou a primeira utilização do mecanismo desde março de 2020, durante a fase inicial da pandemia de Covid-19.

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Por que o dólar disparou e a Bolsa caiu?

A reação negativa está relacionada à revisão das estratégias adotadas por investidores antes do segundo turno. Parte do mercado apostava em uma mudança de governo e precisou rever posições após a confirmação da reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A movimentação foi acompanhada por preocupações com a condução da política econômica, especialmente em relação às contas públicas e ao controle da dívida.

Segundo a analista de investimentos Maria Carolina Luchesi, da Hike Capital, os investidores desfizeram posições montadas após o primeiro turno e passaram a exigir uma remuneração maior para assumir riscos no Brasil. A mudança nas expectativas atingiu tanto o câmbio quanto as ações negociadas na Bolsa.

O movimento também afetou os contratos de juros futuros, que refletem as expectativas do mercado para as taxas de juros nos próximos anos. Com a deterioração dessas expectativas, o custo de financiamento pode aumentar, pressionando empresas endividadas e setores que dependem de crédito, como varejo, construção civil e parte do mercado imobiliário.

Tabela de variação do dólar | Arte: Redação NC News
Variação do Ibovespa | Arte: Redação NC News

Quais foram os impactos sobre as empresas?

As perdas não atingiram todas as companhias da mesma forma. Empresas mais sensíveis aos juros e ao consumo sofreram quedas expressivas. Na sessão de segunda-feira, as ações do Magazine Luiza recuaram mais de 58%, enquanto papéis da Hapvida e de construtoras também registraram desvalorizações acentuadas.

Em sentido contrário, algumas exportadoras se beneficiaram da alta do dólar, já que parte de suas receitas é obtida em moeda estrangeira. A Suzano figurou entre os destaques positivos, enquanto Embraer, WEG e Vale também registraram ganhos na sessão, de acordo com os levantamentos publicados após o pregão.

Esse comportamento mostra que a variação cambial pode produzir efeitos diferentes conforme a estrutura de receitas, custos e dívidas de cada empresa. Um dólar mais alto pode favorecer exportadores, mas encarece produtos e insumos importados e pode pressionar a inflação quando o movimento persiste.

Bancos projetam novas perdas para os ativos brasileiros

Entre as instituições mais cautelosas, o BTG Pactual avalia que o Ibovespa ainda pode recuar para a região dos 170 mil pontos nas próximas semanas. O banco também estima uma possível desvalorização adicional do real entre 10% e 15%, caso as incertezas fiscais continuem pressionando os ativos brasileiros.

O Morgan Stanley trabalha com uma possível correção de 20% a 30% nas ações brasileiras em relação aos níveis anteriores à reação eleitoral. Para o dólar, a instituição considera cenários entre R$ 5,50 e R$ 5,70, dependendo da evolução das expectativas. Em uma hipótese de agravamento dos riscos fiscais, a moeda poderia chegar a R$ 6, mas o banco não aponta esse patamar como cenário imediato.

O JPMorgan também avalia que o processo de ajuste dos preços pode não ter terminado. A instituição reduziu sua recomendação para o real e para títulos públicos brasileiros negociados em moeda local, citando a diferença entre o resultado eleitoral esperado por parte dos investidores e o desfecho confirmado nas urnas. As projeções são cenários elaborados pelas instituições, e não resultados garantidos.

BTG Pactual prevê uma queda ainda maior na Bolsa | Foto: Reprodução

Outras casas veem oportunidades após a queda

Nem todos os analistas consideram que a desvalorização representa o início de uma queda prolongada. A Gavekal Research avalia que parte da pressão pode ter sido provocada pelo encerramento de posições que apostavam em outro resultado eleitoral. Nessa interpretação, a forte correção pode abrir oportunidades de compra quando a onda de vendas perder força.

A casa de análise também aponta fatores estruturais que podem continuar atraindo investidores ao Brasil, como os juros reais elevados, a relevância do país na produção de commodities e a oferta de minerais estratégicos. Ainda assim, a avaliação é de que pode ser necessário aguardar uma redução da pressão vendedora antes de assumir novas posições.

O Citi mantém uma visão construtiva para as ações brasileiras no médio prazo, apesar de reconhecer a intensidade do ajuste no curto prazo. Entre as empresas citadas em sua seleção estão Cury, Embraer, WEG, Axia Energia, Copel, Ultrapar e Gerdau. As avaliações mostram que o mercado não tem uma única leitura sobre o impacto da eleição e que as perspectivas variam conforme o horizonte considerado.

Política fiscal será determinante para os próximos meses

Apesar das divergências sobre o comportamento futuro da Bolsa e do dólar, a situação das contas públicas aparece como uma preocupação comum entre as instituições financeiras. A composição da equipe econômica, as diretrizes do Orçamento de 2027 e os sinais sobre o controle das despesas serão observados de perto pelos investidores.

O Morgan Stanley estima, em seu cenário-base, déficit primário equivalente a 0,7% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2027 e dívida bruta de 86,9% do PIB. Em uma simulação de ajuste fiscal tardio e superficial, a dívida poderia atingir 106% do PIB em 2035. Esses números são projeções da instituição e dependem das hipóteses utilizadas no cálculo, não representando resultados certos.

O BTG Pactual também alerta para a possibilidade de alta dos juros reais de longo prazo, que, segundo a análise divulgada, estavam em torno de 6,7% e poderiam superar 8% caso a incerteza fiscal persistisse. Taxas mais altas aumentam o custo do crédito, dificultam investimentos e podem limitar o consumo das famílias e a expansão das empresas.

O Morgan Stanley estima, em seu cenário-base, déficit primário equivalente a 0,7% do Produto Interno Bruto (PIB) | Foto: Reprodução

Recuperação parcial ainda não indica uma tendência

Na manhã desta terça-feira (27), os ativos brasileiros negociados no exterior apresentaram uma reação moderada. O ETF EWZ, que acompanha ações brasileiras em Nova York, subia cerca de 0,29% no pré-mercado, após cair 19,8% na sessão anterior. O dólar futuro recuava aproximadamente 0,08%, permanecendo próximo de R$ 5,40.

Os movimentos indicavam uma tentativa de acomodação após as perdas expressivas, mas não eram suficientes para confirmar uma reversão consistente. O comportamento dos mercados nos próximos pregões dependerá de novas informações econômicas, das condições internacionais e, principalmente, das sinalizações sobre a política fiscal brasileira.

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