Veneno de sapo contra a depressão? Spray nasal surpreende cientistas com efeito por até 8 semanas

Pesquisa publicada na revista JAMA testou uma substância psicodélica sintética associada ao veneno de um sapo em 193 pacientes com depressão resistente; resultados são promissores, mas tratamento ainda é experimental
Redação NC News
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Uma substância associada ao veneno de sapo do deserto pode abrir um novo caminho no tratamento da depressão resistente. Um estudo internacional publicado na revista científica JAMA revelou que uma única aplicação de um spray nasal experimental foi capaz de reduzir sintomas depressivos em pacientes que não haviam melhorado com antidepressivos convencionais. Os efeitos apareceram rapidamente e permaneceram detectáveis durante o acompanhamento de até oito semanas.

A descoberta chama atenção não apenas pela origem incomum da molécula, mas também pela duração dos resultados. Diferentemente de tratamentos que exigem doses diárias ou visitas frequentes a clínicas, o medicamento experimental foi administrado uma única vez, sob supervisão médica e com acompanhamento psicológico.

O estudo envolveu 193 adultos com depressão moderada a grave que não haviam respondido adequadamente a pelo menos dois tratamentos antidepressivos. Os resultados apontaram melhora superior à observada no grupo que recebeu uma dose muito baixa da mesma substância, utilizada como comparação.

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Como o veneno de um sapo pode ajudar no tratamento da depressão?

A resposta está em uma molécula conhecida como 5-MeO-DMT, também chamada de mebufotenina. Trata-se de uma substância psicodélica encontrada naturalmente nas secreções de determinadas espécies de sapos, especialmente o sapo-do-deserto-de-Sonora, conhecido cientificamente como Incilius alvarius.

O sapo-do-deserto-de-Sonora produz secreções que contêm a molécula 5-MeO-DMT, investigada em pesquisas sobre depressão

Esse animal vive em regiões áridas da América do Norte e produz secreções que contêm diferentes compostos químicos. Entre eles está a 5-MeO-DMT, substância que passou a despertar interesse científico por seus efeitos sobre o sistema nervoso.

Mas existe uma diferença fundamental entre o veneno produzido pelo animal e o medicamento investigado pelos pesquisadores.

O spray nasal utilizado no estudo foi desenvolvido com uma versão sintética e purificada da molécula. Portanto, não se trata de aplicar veneno de sapo diretamente no nariz, mas de testar uma substância produzida em condições farmacêuticas controladas.

A distinção é importante porque as secreções naturais podem conter outros componentes potencialmente perigosos, além de apresentar concentrações imprevisíveis.

O que é a 5-MeO-DMT e por que ela interessa aos cientistas?

A 5-MeO-DMT pertence ao grupo dos psicodélicos, substâncias capazes de provocar alterações temporárias na percepção, nas emoções e na consciência.

Ela atua sobre receptores de serotonina no cérebro, especialmente os chamados 5-HT1A e 5-HT2A, envolvidos em diferentes processos relacionados ao humor e à atividade cerebral.

Os pesquisadores investigam se a ação sobre esses sistemas pode produzir mudanças duradouras nos sintomas depressivos, mesmo depois que os efeitos imediatos da substância desaparecem.

Uma característica que diferencia a mebufotenina de outros psicodélicos é a curta duração de sua ação aguda.

Enquanto experiências provocadas por substâncias como a psilocibina podem exigir várias horas de observação clínica, os efeitos imediatos da 5-MeO-DMT tendem a desaparecer mais rapidamente.

Isso poderia tornar o tratamento mais viável em ambientes médicos, caso sua eficácia e segurança sejam confirmadas em pesquisas maiores.

Uma única dose de spray nasal foi suficiente para produzir melhora

O ensaio clínico publicado na JAMA foi realizado em 38 centros de pesquisa na Austrália, na Europa e nos Estados Unidos, entre setembro de 2023 e abril de 2025.

Os participantes tinham entre 18 e 75 anos e apresentavam depressão resistente ao tratamento, condição caracterizada pela ausência de resposta adequada a diferentes medicamentos antidepressivos.

Spray nasal em ambiente de laboratório

Os voluntários foram divididos aleatoriamente em três grupos. Cada grupo recebeu uma única administração nasal de mebufotenina em uma das seguintes doses: 0,3 miligrama, 8 miligramas ou 12 miligramas.

A dose de 0,3 miligrama foi utilizada como comparador de baixa intensidade. Todos os participantes receberam acompanhamento psicológico durante o procedimento.

Os pesquisadores avaliaram os sintomas depressivos por meio da Escala de Depressão de Montgomery-Åsberg, instrumento clínico utilizado para medir a gravidade da doença.

Após 29 dias, os grupos que receberam as doses de 8 e 12 miligramas apresentaram reduções significativamente maiores nos sintomas depressivos do que o grupo de comparação.

Os números que chamaram atenção dos pesquisadores

Os resultados mostram que a substância produziu benefícios relevantes em parte dos pacientes, embora não tenha funcionado igualmente para todos.

Na avaliação realizada aproximadamente um mês depois da aplicação, as taxas de resposta ao tratamento foram de 35% no grupo de 8 miligramas e 34% no grupo de 12 miligramas.

Entre os participantes que receberam a dose de comparação, a taxa foi de apenas 12%.

Quando os pesquisadores analisaram a remissão, situação em que os sintomas diminuem a ponto de ficar abaixo do limite clínico estabelecido, os resultados também foram diferentes.

No grupo de 8 miligramas, 26% dos participantes alcançaram remissão. No grupo de 12 miligramas, o índice foi de 18%. Entre os que receberam a dose de comparação, a proporção ficou em 8%.

Os dados indicam potencial terapêutico, mas também demonstram que a maioria dos participantes não atingiu remissão completa após a aplicação.

Cientistas investigam como substâncias psicodélicas atuam em receptores cerebrais associados à regulação do humor

Por que o efeito de um spray pode durar até oito semanas?

Uma das descobertas mais interessantes do estudo foi a persistência da melhora clínica depois que os efeitos psicodélicos imediatos já haviam terminado.

As diferenças favoráveis às doses ativas foram observadas nas avaliações realizadas a partir do segundo dia e permaneceram durante o acompanhamento de 57 dias, aproximadamente oito semanas.

Isso significa que o benefício antidepressivo não ficou restrito ao período em que os pacientes experimentaram os efeitos agudos da substância.

Os mecanismos responsáveis por essa duração ainda são investigados. Uma das hipóteses científicas envolve alterações na comunicação entre circuitos cerebrais associados à regulação emocional, mas o estudo não demonstrou diretamente como essas mudanças ocorreram.

Também não é possível afirmar que uma única dose seja suficiente para manter a melhora por meses ou anos.

Para responder a essa pergunta, serão necessários estudos de maior duração.

A depressão resistente exige avaliação especializada e pode demandar diferentes estratégias de tratamento

Pacientes puderam deixar a clínica em cerca de duas horas

Outro aspecto relevante foi o tempo de recuperação após a aplicação.

Segundo os pesquisadores, 85% dos participantes que receberam 8 miligramas e 78% dos que receberam 12 miligramas estavam aptos para receber alta aproximadamente duas horas depois da administração.

A possibilidade de um período de observação mais curto é considerada uma vantagem potencial em relação a outras terapias psicodélicas experimentais.

Isso não significa, porém, que o spray possa ser utilizado em casa ou sem supervisão.

O medicamento foi administrado por profissionais treinados, em ambiente clínico controlado, com suporte psicológico e monitoramento dos participantes.

Depressão resistente: por que alguns pacientes não melhoram com antidepressivos?

A depressão resistente ao tratamento é uma das situações mais desafiadoras da psiquiatria.

Em geral, essa classificação é utilizada quando uma pessoa não apresenta melhora suficiente após pelo menos duas tentativas adequadas de tratamento com antidepressivos.

Isso não significa que a doença seja impossível de tratar, mas que as estratégias iniciais não produziram a resposta esperada.

Nesses casos, especialistas podem avaliar diferentes alternativas, incluindo ajustes de medicamentos, combinações terapêuticas, psicoterapia e procedimentos específicos, conforme o histórico clínico de cada paciente.

Em entrevista ao NC News, o psiquiatra Luiz Scocca destacou a importância de procurar ajuda profissional e de avaliar cada paciente individualmente.

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A busca por medicamentos com mecanismos diferentes dos antidepressivos tradicionais explica o interesse crescente por substâncias como a cetamina, a psilocibina e a mebufotenina.

O objetivo é ampliar as possibilidades de tratamento para pessoas que continuam apresentando sintomas importantes apesar das terapias disponíveis.

O spray nasal feito com composto de veneno de sapo é seguro?

Embora os resultados sejam promissores, o estudo também identificou efeitos adversos.

Entre os participantes que receberam 8 miligramas, 76% relataram algum evento adverso relacionado ao período de tratamento. No grupo de 12 miligramas, o percentual foi de 85%. No grupo de comparação, 73%.

A maioria dos eventos registrados foi classificada como leve ou moderada. Entre os sintomas observados estavam dor de cabeça, náusea e desconforto nasal.

Também houve registro de episódios intensos de pânico durante a experiência psicodélica, reforçando a necessidade de acompanhamento especializado.

Os pesquisadores destacaram que os dados disponíveis ainda não permitem estabelecer todos os riscos de longo prazo.

Além disso, o estudo não incluiu determinados perfis de pacientes, o que limita a aplicação dos resultados a toda a população com depressão.

Veneno natural de sapo não deve ser usado como tratamento

A associação entre a mebufotenina e o veneno de sapo pode despertar curiosidade, mas existe uma diferença importante entre a substância farmacêutica estudada e o consumo de secreções naturais do animal.

O veneno bruto pode conter compostos adicionais, apresentar doses imprevisíveis e provocar reações perigosas.

A pesquisa não avaliou práticas de consumo recreativo ou ritualístico da secreção do sapo.

Os resultados também não autorizam a automedicação com 5-MeO-DMT ou a substituição de antidepressivos prescritos.

Qualquer eventual aplicação terapêutica dependerá de novas pesquisas, avaliação regulatória e acompanhamento médico.

Spray de veneno de sapo pode substituir antidepressivos tradicionais?

Por enquanto, não.

O estudo foi um ensaio clínico de fase 2b, etapa destinada a investigar eficácia, segurança e doses de um tratamento ainda em desenvolvimento.

Apesar dos resultados positivos, existem limitações importantes.

Uma delas é a possibilidade de os participantes perceberem se receberam uma dose psicodélica ativa, mesmo sem conhecer oficialmente o grupo ao qual pertenciam. Isso pode influenciar expectativas e respostas relatadas durante o estudo.

Outro ponto é que a pesquisa avaliou uma aplicação isolada, sem estabelecer como seria o tratamento de manutenção após o período de acompanhamento.

Também não houve comparação direta com todos os tratamentos já disponíveis para depressão resistente.

Por isso, os resultados não demonstram que a mebufotenina seja superior aos antidepressivos convencionais, à cetamina ou a outras abordagens clínicas.

O que falta para o medicamento chegar aos pacientes?

O próximo passo é a realização de estudos clínicos de fase 3, com um número maior de participantes e acompanhamento mais abrangente.

Essas pesquisas deverão verificar se os resultados se repetem, quais pacientes têm maior probabilidade de se beneficiar e quais riscos podem surgir com o uso da substância.

Também será necessário estabelecer protocolos de administração, acompanhamento psicológico e monitoramento de segurança.

Até que essas etapas sejam concluídas e haja autorização dos órgãos reguladores, o spray nasal de mebufotenina permanece um tratamento experimental.

A descoberta representa um avanço científico relevante, mas não uma cura comprovada para a depressão.

O principal resultado é a demonstração de que uma substância sintética associada a um composto encontrado no veneno de sapo pode oferecer uma nova possibilidade de pesquisa para pessoas que não respondem adequadamente aos tratamentos existentes.

Fonte científica

O estudo Single Intranasal Administration of the Psychedelic Mebufotenin for Treatment-Resistant Depression: A Randomized Clinical Trial foi publicado na revista JAMA em 26 de outubro de 2026. A publicação também disponibilizou um resumo dos resultados e das limitações da pesquisa.

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