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Morte do dr. Júlio César salva 4 vidas com doação de órgãos

Família do nefrologista Júlio César doa órgãos que beneficiam pacientes em Goiás e fortalecem campanha local.
Redação NC News
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A morte do nefrologista dr. Júlio César Soares Barreto, em Goiânia, levou luto à comunidade médica e a centenas de pacientes, mas também já salvou vidas: por decisão da família, rins, fígado e córneas do médico foram doados e transplantados em pessoas que aguardavam na fila por um órgão.

Velório em Goiânia e comoção entre colegas e pacientes

Júlio César, de 57 anos, morreu no sábado (31) após sofrer um mal súbito com parada cardíaca em casa, segundo relato da família. A causa exata da morte não foi divulgada. O velório ocorre nesta segunda-feira (2), das 8h às 17h, no Parque Memorial de Goiânia, com sepultamento previsto para o fim da tarde.

Referência em nefrologia e em transplantes renais em Goiás, o médico integrava há muitos anos a equipe de transplantes do Hospital Estadual Dr. Alberto Rassi (HGG) e era sócio do Hospital São Lucas de Goiânia. Ao longo da carreira, acompanhou mais de 400 pacientes transplantados.

Em nota, o Hospital São Lucas destacou o impacto humano do trabalho do especialista. “Sua dedicação à medicina e o cuidado com cada paciente marcaram todos que tiveram a oportunidade de conviver com ele”, registrou a instituição.

A Sociedade Brasileira de Nefrologia também lamentou a perda e ressaltou o papel de Júlio César na formação de novos especialistas: “Ao longo de sua trajetória profissional, Júlio César Barreto dedicou-se à Nefrologia, contribuindo de maneira significativa para a formação de diversos nefrologistas no estado de Goiás, deixando um importante legado de conhecimento, dedicação ao ensino e compromisso com a especialidade”.

Entre colegas de trabalho, as homenagens lembram o empenho do médico diante dos casos mais difíceis. “Meu amigo! Quase 25 anos de aprendizado numa profissão muito difícil! Aprendi muito, diariamente. Até nossa última conversa na terça à tarde! Muito obrigado por tudo, amigo! Vi você lutar por paciente como nenhum outro! Uma honra ter convivido com você! A falta será enorme!”, escreveu um médico que trabalhou ao lado dele.

Doação de órgãos transforma luto em esperança

Logo após a confirmação da morte, a esposa, Regiane Santos Soares Barreto, professora doutora e enfermeira da Universidade Federal de Goiás (UFG), e os filhos autorizaram a doação dos órgãos. Regiane atua em ensino e pesquisa na área de doação e transplantes e conta que o tema sempre fez parte da rotina da família.

“Ele era médico nefrologista da equipe de transplantes do HGG há muitos anos. Na vida dele, tem mais de 400 pacientes transplantados”, afirmou. Segundo ela, só neste ano a equipe da qual o marido fazia parte já realizou mais de 160 transplantes.

Os órgãos doados incluíram dois rins, o fígado e as duas córneas. A família foi informada de que um dos rins foi destinado a um paciente atendido pela própria equipe do HGG, o que trouxe algum conforto em meio à dor. O fígado também já foi transplantado, e o outro rim e as córneas seguiram para pacientes que aguardavam na fila. Coração e pulmões não puderam ser aproveitados por causa do tempo de duração da parada cardíaca.

Regiane conta que a decisão da família não foi apenas o cumprimento de um desejo manifestado em vida por Júlio, mas a continuidade de um compromisso que o casal carregava na profissão e em casa. “Não só conversávamos, a gente ensinava. Tínhamos isso como missão de vida”, disse.

Ela relata que os primeiros momentos foram de desespero, em meio à perda repentina e à necessidade de lidar com toda a burocracia da doação. O alívio veio depois da confirmação de que os órgãos já estavam ajudando outros pacientes. A frase escolhida pela família para resumir o momento — “Em luto, mas salvando vidas” — passou a circular em homenagens nas redes sociais.

Entenda o contexto

A atuação de Júlio César e de Regiane aproximava a família da Central de Transplantes e de campanhas de conscientização sobre doação de órgãos em Goiás. O estado ainda enfrenta taxas elevadas de recusa familiar na autorização para doação, o que limita o número de procedimentos, apesar da demanda crescente.

No HGG, onde o médico trabalhava, a equipe de transplantes vem ampliando o número de cirurgias. Só em 2026, foram mais de 160 procedimentos, muitos deles envolvendo pacientes com doença renal crônica em estágio avançado. Nesse cenário, a doação dos órgãos de um especialista da própria área ganhou forte caráter simbólico entre colegas.

Para os médicos que atuam em transplantes, cada doador pode mudar radicalmente a vida de várias pessoas: rins podem tirar pacientes da hemodiálise, um fígado pode evitar a evolução de doenças graves e córneas podem devolver a visão. No caso de Júlio César, ao menos quatro pessoas devem ser diretamente beneficiadas, sem contar o impacto indireto do exemplo sobre outras famílias.

Legado profissional e humano

Os depoimentos de colegas e pacientes mostram que o legado do nefrologista ultrapassa o consultório e o centro cirúrgico. A família calcula que o casal estivesse junto há 33 anos, período em que a carreira de Júlio se consolidou também na docência e na formação de novos médicos.

Amigos lembram a convivência leve e o jeito didático de explicar casos complexos. “Vou sentir falta das suas piadocas, da sua inteligência inigualável e, principalmente, das inúmeras histórias que você sempre tinha para contar. Cada conversa era uma aula, uma oportunidade de aprender alguma coisa nova”, escreveu um colega.

Pacientes também usaram as redes para agradecer. “Minha eterna gratidão ao Dr. Júlio, que cuidou com tanta dedicação da minha família. Obrigada por transformar conhecimento em cuidado, profissão em missão e tantas vidas em um legado de amor”, disse uma paciente.

Em homenagem divulgada pelos parentes, a família resumiu o sentimento de perda e de continuidade do cuidado: “Partiu dessa vida, mas continuará vivendo em outras vidas. Seu exemplo de amor ao próximo será eterno nos nossos corações”.

Enquanto equipes médicas acompanham a evolução dos pacientes que receberam os órgãos, colegas e instituições discutem como manter o nível de atendimento construído pelo nefrologista e reforçar a conscientização sobre doação de órgãos no estado, usando a história de Júlio César como exemplo de compromisso com a vida até o último gesto.

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