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Cães de Chernobyl apresentam alterações no DNA ligadas ao câncer, revela estudo

Pesquisa identificou diferenças genéticas em animais que vivem perto da usina nuclear, mas cientistas ainda não sabem se as mudanças foram provocadas pela radiação.
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Cães que vivem nos arredores da Usina Nuclear de Chernobyl, na Ucrânia, apresentam diferenças genéticas em regiões do DNA relacionadas ao câncer, ao sistema imunológico e à capacidade de reparar danos celulares. A descoberta faz parte de um estudo científico publicado na revista Genes, que investiga como os animais conseguiram sobreviver e se reproduzir durante décadas em uma das regiões mais contaminadas do planeta.

A pesquisa, divulgada em setembro e repercutida nesta quarta-feira (4), identificou características genéticas distintas entre cães que vivem nas proximidades da antiga usina nuclear e outros que habitam a cidade abandonada de Chernobyl, localizada a aproximadamente 16 quilômetros de distância. Apesar da proximidade geográfica, os dois grupos apresentam diferenças que não são explicadas apenas pelo isolamento ou pelo parentesco entre os animais.

Os pesquisadores encontraram indícios de seleção natural em regiões genéticas associadas ao reparo do DNA, à sobrevivência celular e a mecanismos envolvidos no desenvolvimento do câncer. A descoberta, entretanto, não significa que os cães tenham desenvolvido câncer nem comprova que a exposição à radiação tenha provocado diretamente essas alterações.

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O que os cientistas descobriram no DNA dos cães de Chernobyl?

O estudo foi conduzido por pesquisadores ligados à Universidade Estadual da Carolina do Norte, nos Estados Unidos, e a outras instituições científicas.

O objetivo era compreender por que os cães que vivem nas proximidades da usina apresentam características genéticas diferentes das encontradas em animais que habitam outras áreas da região.

Para isso, os cientistas utilizaram dados de sequenciamento genético de 106 cães coletados entre 2018 e 2019. Desse total, 58 viviam próximos à instalação nuclear e 48 habitavam a cidade de Chernobyl.

As análises identificaram regiões do genoma com sinais compatíveis com seleção natural positiva, processo no qual determinadas características hereditárias podem favorecer a sobrevivência e a reprodução dos indivíduos.

Entre as funções biológicas associadas aos genes identificados estão a replicação e o reparo do DNA, a regulação da morte celular, o funcionamento do sistema imunológico e processos relacionados ao câncer.

Esses mecanismos são importantes porque ajudam o organismo a reconhecer danos celulares e responder a diferentes tipos de agressões ambientais.

Os resultados sugerem que determinadas variantes genéticas podem ter se tornado mais frequentes entre os cães que vivem nas áreas próximas à usina.

Radiação pode ter influenciado a evolução dos animais?

A possível influência da radiação é uma das principais questões investigadas pelos cientistas.

Em 26 de abril de 1986, uma explosão no reator número 4 da Usina Nuclear de Chernobyl provocou um dos maiores acidentes nucleares da história.

O desastre liberou materiais radioativos no ambiente e obrigou milhares de pessoas a abandonar suas casas.

Durante a evacuação, muitos animais domésticos foram deixados para trás. Parte dos cães que atualmente vivem na região descende de populações que permaneceram no território após o acidente.

Ao longo das décadas, esses animais enfrentaram um ambiente marcado não apenas pela contaminação radioativa, mas também pela presença de metais pesados, compostos químicos e outras substâncias potencialmente tóxicas.

Os pesquisadores consideram a possibilidade de que essas condições tenham favorecido a sobrevivência de cães com determinadas características genéticas.

No entanto, ainda não é possível afirmar que a radiação tenha sido a responsável pelas diferenças identificadas.

Outra hipótese é que alguns animais já possuíssem variantes genéticas favoráveis à sobrevivência antes ou logo após o acidente, transmitindo essas características aos descendentes.

Estudo também comparou cães de Chernobyl com animais de Galápagos

Para compreender melhor as diferenças genéticas, os cientistas ampliaram a comparação e incluíram populações de cães de outras regiões do mundo.

Entre os grupos analisados estavam animais da Polônia, da Rússia e das Ilhas Galápagos, território localizado no Oceano Pacífico.

A comparação com Galápagos foi importante porque os cães dessas ilhas vivem em condições de isolamento geográfico, situação que pode favorecer diferenças genéticas ao longo das gerações.

Os pesquisadores queriam verificar se o isolamento, por si só, seria suficiente para explicar as características encontradas nos cães de Chernobyl.

Os resultados mostraram que a diferenciação genética dos animais próximos à usina nuclear era maior do que a observada em diversas comparações envolvendo populações geograficamente distantes.

Os cães da cidade de Chernobyl também apresentaram maior semelhança genética com algumas populações do Leste Europeu do que com os animais que viviam perto da instalação nuclear.

A descoberta fortalece a hipótese de que processos evolutivos adicionais, como a seleção natural, estejam envolvidos.

Ainda assim, os autores destacam que o estudo não permite identificar com precisão quais fatores ambientais favoreceram essas diferenças.

Alterações genéticas significam que os cães desenvolveram câncer?

Não. Essa é uma das principais diferenças entre o resultado científico e uma possível interpretação equivocada da descoberta.

O estudo identificou regiões genéticas associadas a processos biológicos envolvidos no câncer, mas não investigou diretamente a ocorrência de tumores nos animais.

Isso significa que os pesquisadores não demonstraram que os cães de Chernobyl apresentam maior incidência de câncer.

Também não foi comprovado que eles desenvolveram resistência especial à doença.

Genes relacionados ao câncer podem participar de diversas funções normais do organismo, incluindo a divisão celular, a identificação de danos no DNA e a eliminação de células comprometidas.

Alterações na frequência de variantes desses genes podem indicar processos evolutivos importantes, mas não permitem concluir, isoladamente, que os animais estejam mais protegidos ou mais vulneráveis ao desenvolvimento de tumores.

Para esclarecer essa questão, seriam necessários estudos adicionais sobre a saúde dos cães e o funcionamento das regiões genéticas identificadas.

Como os cães sobreviveram durante quatro décadas?

A sobrevivência dos cães na Zona de Exclusão de Chernobyl é investigada há vários anos.

Após o acidente de 1986, animais abandonados permaneceram na região e deram origem a novas gerações.

Atualmente, diferentes populações vivem nas proximidades da antiga usina, em áreas urbanas abandonadas e em localidades próximas à zona contaminada.

Parte desses animais recebe alimentação e cuidados de trabalhadores, pesquisadores e organizações de proteção animal que atuam no território.

A existência dessas populações oferece aos cientistas uma oportunidade de estudar os efeitos de longo prazo da contaminação ambiental sobre organismos vivos.

Como os cães apresentam uma história evolutiva próxima à convivência com seres humanos e compartilham diversos mecanismos biológicos com outros mamíferos, sua análise também pode contribuir para pesquisas sobre respostas celulares ao estresse ambiental.

Entretanto, a sobrevivência desses animais não significa que a região seja segura ou que a exposição à radiação não represente riscos à saúde.

Descoberta pode ajudar pesquisas sobre câncer e danos ao DNA?

Os resultados podem contribuir para novas investigações sobre os mecanismos biológicos envolvidos na resposta a ambientes contaminados.

Entre os pontos de interesse estão os genes relacionados ao reparo do DNA e à regulação do ciclo celular.

Esses processos também são estudados em pesquisas sobre câncer, envelhecimento e efeitos de substâncias tóxicas no organismo.

Compreender como determinadas variantes genéticas se tornam mais frequentes em populações expostas a condições ambientais adversas pode oferecer informações sobre os processos de adaptação e sobrevivência.

Contudo, os pesquisadores ainda precisam demonstrar se as variantes identificadas realmente produzem alguma vantagem biológica.

O estudo também não apresenta tratamento contra o câncer nem comprova a existência de uma proteção genética que possa ser aplicada à saúde humana.

Próximos passos

Os cientistas pretendem aprofundar as análises para compreender o funcionamento das regiões genéticas identificadas e verificar quais fatores ambientais podem ter influenciado sua distribuição.

Entre as possibilidades estão estudos sobre a atividade dos genes, a saúde dos animais e a exposição a diferentes contaminantes.

Outro desafio será separar os possíveis efeitos da radiação daqueles provocados por metais pesados e outras substâncias presentes no ambiente.

Publicado em 27 de setembro de 2026, o estudo reforça a importância de acompanhar as populações de cães de Chernobyl para compreender como a vida animal responde, ao longo de gerações, a ambientes afetados por grandes desastres ambientais.

Por enquanto, a principal descoberta é que os cães que vivem perto da usina apresentam sinais genéticos compatíveis com seleção natural, mas a origem exata dessas diferenças e suas consequências para a saúde ainda precisam ser esclarecidas.

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